quinta-feira, 28 de abril de 2016

Eu que sou doido? -3

 
    -"Não sai por ai falando que você tem "problema na cabeça"... - me aconselhou a proprietária do imóvel onde estou morando atualmente, antes de fechar o contrato de locação.
    Respondi que não tenho vergonha nenhuma da minha condição, dos problemas pelos quais passei e ainda passo e que me sinto até uma pessoa protegida por uma força superior, por ter sobrevivido à tudo que enfrentei em minha vida. Ela me falou sobre o preconceito das pessoas, mas disse à ela que vergonha eu teria se tivesse roubado, traficado ou prejudicado alguém para me sustentar.
    A verdade é que não tem como esconder a minha condição, principalmente pelo fato de morar de aluguel e ter que comprovar a minha renda. Vou dizer que me aposentei por ter problema na coluna? Ou uma outra mentira qualquer?
    Não sou santo, mas mentir não é o meu forte. Às vezes deixo de falar a verdade, mas não invento mentiras, é muito bom não precisar ficar pensando no que havíamos dito para continuar um diálogo.
    Então, por causa dessa minha maneira de ser e agir, os vizinhos e muitas outras pessoas sabem que tenho esquizofrenia. Não sofro preconceito por causa disso, ou, se sofro, não sei, pois quase não tenho vida social. Mas já aconteceu de ter um ou outro deboche, como estar andando normalmente na rua e alguém, dentro do carro, gritar:
   - "Ô doido"!!!
   Isso aconteceu duas vezes na minha última andança, o "O caminho dos Jesuítas", pelo litoral do estado de São Paulo. Estava descansando, sentando na beira da BR, tomando um lanche e me reidratando, quando ocupantes de carros luxuosos abriram a janela e me chamaram de maluco e doido. O que tem demais em sair por ai, com uma mochila e uma barraca? Oras, sou apenas um turista de baixa renda, que ama a liberdade e a natureza, e que não se priva de conhecer novos lugares pelo simples fato de não possuir um luxuoso carro e condições de pagar um hotel.
    Mas o que essas pessoas não sabem é que, para me ofenderem, teriam que me chamar de normal. É isso mesmo!!! Me sinto cada vez mais normal ao ver os noticiários na TV e na internet. Gente cuspindo umas nas outras e dizendo que é coisa normal, outras pessoas definhando fisicamente para se adequarem aos padrões de beleza, gente defecando e urinando na rua em cima de cartazes com fotos de políticos e por ai vai...
cuspir é normal???
    Na primeira parte dessa série de postagens chamadas "Eu que sou doido?", falei sobre um fato ocorrido com o ator Marcelo Faria, que simplesmente deu uma garrafada em um segurança de uma casa de shows, pelo simples fato de ter sido barrado no momento em que tentava entrar no camarote vip. O funcionário da boate teve que levar seis pontos na cabeça, e depois não apareceram mais notícias sobre o caso. Provavelmente o ator global não foi punido e o caso foi abafado. Já pensou se atiro uma garrafa em alguém?
    - "Ele é doido, tem que viver preso, internado"... - provavelmente diriam os comentaristas de plantão...
    E agora dois fatos me chamaram a atenção, também envolvendo os famosos. O primeiro fato, creio que todos já sabem, foi o que envolveu o ator José de Abreu, que simplesmente cuspiu em um casal. A alegação do ator é que foi ofendido dentro de um restaurante e por isso reagiu dessa forma, afirmando que conseguiu se se "segurar" para não entrar nas vias de fato. Ele também afirmou que isso é uma reação normal de um ser humano "normal". Bem, que eu saiba quem sai cuspindo nos outros é um animal irracional chamado lhama, e que só age assim quando se sente ameaçada ou irritada. Acho que foi isso o que aconteceu com o José de Abreu, se sentiu irritado e, como todo ser humano normal, cuspiu no casal. Já pensou se a moda pega? Até acho que está começando a pegar, pois aconteceu fato semelhante com o deputado Jean Willys durante a votação do processo de impedimento da presidente Dilma (disse impedimento, estou com preguiça de consultar o google para escrever essa palavra corretamente, mas vou chutar aqui, acho que se escreve impeachment.)
  Imaginem se sou eu cuspindo em alguém? Seria preso, levaria umas cacetadas, seria chamado de louco, falariam que deveria ser internado,etc...
    Um conselho para o Jose de Abreu, como ele estava em um estabelecimento fechado, quando uma situação semelhante acontecer, é só chamar o proprietário do mesmo, relatar o acontecido e a situação será resolvida da melhor maneira possível.
e se a moda pega?
    Já perdi a cabeça uma vez, creio que foi em 2012. O pessoal da saúde estava em greve, o meu diazepan estava acabando e, depois de tentar o medicamento em vão no postos de saúde do centro e no hospital Raul Soares, acabei meio que "apelando" ao chutar o portão de um outro posto de saúde, ao me ser negado o medicamento, pois os funcionários estavam de greve, assistindo televisão dentro do posto de saúde. E a receita estava carimbada, e não tinha como comprar, pois já havia pego 30 comprimidos, pois os postos de saúde não liberam os 60 comprimidos de uma vez.
    Sabia que poderia pirar sem o diazepan, isso já havia acontecido comigo. O que iria fazer? Uma consulta de 350 reais ou mais com um psiquiatra particular? Chutei o balde, quer dizer, o portão do posto de saúde, até que me atendessem... Pois não adiantou falar educadamente, tentando explicar a situação, que poderia ter um surto sem o medicamento, etc...
    Mas pirei para evitar a piração maior, que é um surto psicótico. Foi um a piração sim, chutar o portão do posto de saúde, mas não tinha outro recurso a fazer. Mas não agredi ninguém, e cuspir é sim uma agressão, que pode doer tanto quando um soco na cara. Esse pessoal da saúde deveria ter mais responsabilidade na hora de fazer greves, deveriam pelo menos colocar uma escala mínima para atende casos de pessoas que tomam remédios controlados de uso contínuo.

    Mas um outro caso, que não é grave, mas que acho que foi uma piração, aconteceu com a apresentadora Patrícia Poeta, que emagreceu cerca de 10kg, talvez por não se achar magra o suficiente para estar dentro dos padrões impostos pela sociedade. Ou pode ser piração dela mesmo, se enxergar mais fofinha no espelho, a tal da anorexia.
    Porém neste caso não vou dar pitacos, o corpo é dela, ela faz o que bem quiser, mas que ela era linda do jeito que estava antes, isso era. A impressão é que está doente, mas sem estar com o rosto abatido e bem vestida. O que acham?
Qual Patrícia Poeta vocês preferem? Enquete ao lado da página.


19 comentários:

  1. Mesmo lance comigo, a palavra psiquiatra, por exemplo, virou tabu na minha família.
    Mas eu não to nem aí. A omissão só serve pra piorar o preconceito.
    Eu falo na lata que sou portador de esquizofrenia.

    Esquizofrenia é normal, o número de portadores é tão expressivo quanto dos portadores de depressão. O Preconceito que não é normal. É sintoma de um dos piores e mais vergonhosos males que existem: a ignorância.

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  2. Deveria sim ser encarado com normalidade a esquizofrenia, mas a falta de informação se deve principalmente aos meios de comunicação que só citam a esquizofrenia quando um portador comete algum tipo de crime, como se isso não acontecesse com os ditos normais. Confesso que também tinha esse preconceito antes de surtar, mas na época ainda não sabia nem usar o computador e a minha fonte de informação era a televisão, infelizmente. Por isso tento fazer a minha parte, aqui no blog. É muito pouco, mas fazer o que...

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    1. Pouco nada, Brother. Seu trabalho ajuda humanizar a visão sobre nós, já que nossa condição ta cercada de estigmas bem mentirosos.
      Você ta pensando que ta fazendo pouco, ta fazendo é muito. Outro lance legal é sua linguagem democrática, sem jargão (tecnicismo demais enche o saco), aqui é papo reto, alcança inclusive a galera que precisa entender que somos gente.
      Valeu pelo retorno e pelo espaço.

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    2. Concordo com o arnaldo. Eh muito bom o seu blog. E dificil encontrar blogs onde o autor eh muito aberto sobre suas dificuldades e voce escreve muito bem.

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  3. Obrigado pela visita ao blog. Realmente é verdade, muitos em pior estado não conseguem se aposentar, mas creio que também é analisada a situação sócio econômica da pessoa, dos familiares inclusive.
    Trabalhei 17 anos como operador de som, surtei, voltei a trabalhar, surtei novamente, e, não conseguindo voltar ao trabalho, entrei com o pedido de auxílio doença.
    Gravar um vídeo não quer dizer que tenho condições de trabalhar, ou seja, você é mais uma daquelas pessoas que devem pensar que esquizofrenia seja sinônimo de falta de raciocínio e de capacidade de realizar certas tarefas. Mas, tudo bem, espero que um dia você não passe o mesmo que passei para sentir na pele que isso não é frescura.
    Boa semana
    Julio Cesar dos Santos

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  4. Graças a deus que vc não se preocupa com o que um pobre coitado sem esclarecimentos como esse aí pensa. Só quem tem é que sabe convive com a doença pode falar alguma coisa. Fique na paz e que Deus te ilumine sempre.

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  5. As pessoas deveriam se informar antes de falar porcaria!
    Problemas psiquiátricos limitam a pessoa de várias coisas. As vezes ela tem momentos bons e outros péssimos. Eu graças a Deus consigo trabalhar, mas só Deus sabe oque eu passo. Eu mato um leão por dia para estar em pé. Trabalhar muitas vezes sem energia devido a tantos medicamentos.
    Julio você é um vitorioso por passar tudo que passou e estar aqui. E aproveite tudo que te dá prazer na vida e você consiga fazer, como andar, tirar fotos e etc. Só você sabe oque passou para estar onde está. E o seu blog ajuda muita gente a entender mais a doença ou simplesmente não se sentir sozinho no mundo da esquizofrenia.
    Fica com Deus!

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  6. Olá
    É assim mesmo, já até meio que me acostumei com essa situação, infelizmente muitas pessoas pensam que isso é frescura. Mas ai me pergunto, qual a graça de ficar o dia inteiro dentro de um quarto, não ter vida social, e no final do dia geralmente lembrar de quase todas as palavras que foram ditas?
    Sempre gostei de trabalhar, gostava muito de ser um operador de som, viajar por ai, participar das festas, mas hoje em dia não consigo mais, e não foi por falta de tentar. E infelizmente não consigo enxergar um trabalho para a minha situação.
    Obrigado pela força, e, como disse, apesar da ofensa, não quero que essas pessoas passem pela mesma situação para deixarem de pensar que transtorno mental é frescura.

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  7. Ainda a anônima:
    Imagina Julio não precisa agradecer. Como você mesmo diz as pessoas nessa situação devem se unir.Também não desejo que tem me critica passe pelo que eu passo. Mas gostaria que as pessoas pesquisassem antes de falar porcaria e ofender aos demais. Abraço!

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  8. Deus Seja Louvado pela sua vida!Obrigara por nos falar com tanta autenticidade.

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    1. Amém.
      Eu que agradeço a sua visita ao blog. Felizmente ou felizmente posso dizer que tenho a propriedade de falar sobre o assunto, não com palavras bonitas e difíceis de serem pronunciadas e entendidas, mas procuro falar sobre o tema com a maior simplicidade possível e do fundo do meu coração, pois a verdadeira sabedoria está na simplicidade.

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  9. Olá Júlio ,eu gostaria de saber quanto tempo demorou pra você conseguir se aposentar ? E porque você pulou de antipsicóticos de segunda geração (risperidona) para os de primeira geração (clorpromazina) se foi o médico ou você que sugeriu? E o que você falou que sentia quando ia nas perícias do INSS? Você em um outro post falou que não tem mais surtos porque não se preocupa mais , e eu vi pessoas que eram pra ter desenvolvido esquizofrenia e não desenvolveram e acredito que não desenvolveram por isso (por nao se preocuparem)eu não sei a sua religião mas na bíblia em filipenses 4:6, 4:7 fala para não nos andarmos ansiosos por coisa alguma e acredito que isso pode nos ajudar pois no próprio livro que você disponibiliza fala que um gene encontrado em esquizofrênicos metaboliza mais dopamina em situações estressantes, e se puder responder obrigado.

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    1. Demorou muito tempo, mais de cinco anos, a começar da primeira tentativa.
      Mudei de medicamento por que os antipsicóticos de segunda geração, além de me darem muito sono, também aumentavam e muito o meu apetite, e não tenho condições financeiras para ficar comendo de tudo o que via pela frente quando estava sob o efeito desses medicamentos. Era algo muito exagerado mesmo, e ainda tem o fato de estragar a saúde comendo daquele jeito.
      Em relação às perícias eu falava apenas a verdade.
      Em relação ao fato de continuar ou não a ter surtos psicóticos, creio que isso depende muito de cada caso. No meu, em particular, sinto que o que está mais me atrapalhando são os sintomas negativos. Mas ainda tenho as mesmas paranoias e pensamentos de quando tive o primeiro surto. A diferença é que me acostumei um pouco com elas, o que não quer dizer que não me atrapalham ainda.
      Realmente a preocupação em ter ou não esquizofrenia pode atrapalhar quase tanto como o transtorno por si só, pelo menos foi o que deu para sentir ao sentir o receio das pessoas nos comentários.
      Em relação à dopamina, posso aceitar a possibilidade sim do aumento da dopamina durante um surto psicótico, mas a esquizofrenia, na minha opinião, é bem mais do que esse desequilíbrio químico do cérebro. Se fosse apenas isso, já teriam descoberto a cura para esse transtorno, a não ser que essa cura não dê lucro para muitas pessoas...
      Esperto ter ajudado em algo.
      Obrigado

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  10. Obrigado, tentei achar palavras para lhe agradecer mas não encontrei.
    São quatro anos escrevendo o blog e só tenho que agradecer a participação de todos, dando depoimentos, relatos, ou simplesmente agradecendo e elogiando. Se não fosse esse carinho dos leitores, provavelmente já teria parado logo no começo.
    Abraços

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  11. Vi um comentário a seu respeito que me deixou muito triste, até onde as pessoas acham que somos frescos ou que estamos fazendo pra chamar atenção ou pra ganhar uma micharia do governo...melhor do nosso bolso ... mas isso não vem o caso. Queria ver alguém que nos julga na nossa pele, sem conseguir dormir pensando o pior sobre nós mesmo ouvido e vendo coisas que nos vimos e ouvimos,se sentir perseguida por todos, medicados ficamos com movimentos todos comprometidos visão turva meio robotico, nossa pessoa sem noção... mas temos que fechar os olhos e os ouvidos para essas pessoas, ignorar por total um ignorante desses
    Abraço

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    1. Olá
      Sim, às vezes recebo esse tipo de comentário. Mas isso só demonstra que são pessoas pouco inteligentes, já que, se fosse uma mentira minha, eu não iria me expor tanto assim. Também já recebi comentários pessoalmente mesmo, de pessoas que nem conheço aqui no bairro, me chamando de vagabundo, de doido, etc...
      Mas hoje estou mais forte, as dificuldades pelas quais passei fazem esses comentários virarem "fichinha" em relação ao que tive que passar e hoje quase não me incomodam.
      Acredito que se uma pessoa ofende uma outra pessoa sem motivo é sinal de que o problema esteja com ela.
      Abraços e pense nisso.

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  12. ola
    gostaria de saber se você pode fazer um post sobre sua família e como era sua relação com ela.
    obrigado por todas as informações que disponibiliza pra todos nos com seu blog

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    1. Basicamente não havia diálogo. Não brigávamos mas também não conversávamos. No livro que escrevi conto mais sobre esse assunto.

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  13. Olá
    Fica difícil descrever em poucas linhas toda aquela loucura que me aconteceu. Até escrevi um livro relatando com detalhes as situações pelas quais passei durante os primeiros surtos, pois foram os mais difíceis, por causa principalmente da falta de informação. Só posso dizer que era tudo real na minha mente as alucinações e paranoias. Hoje já fico na dúvida quando acontece algo ou quando tenho alguma desconfiança.
    Existem sim muitas semelhanças entre a esquizofrenia e o transtorno bipolar, tanto é que muitas pessoas já receberam esses dois diagnósticos ao longo de suas vidas. NO meu caso somente um psiquiatra chegou a me sugerir o lítio, que é para a bipolaridade.
    Em relação a terapia, vou ficar devendo a resposta, pois não sei qual terapia está se referindo.
    Obrigado pela visita ao blog e pela participação, os comentários são tão importantes quanto a própria postagem.

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