sábado, 11 de julho de 2015

Crentofobia

para que tanto ódio?
    Bem, como a maioria dos leitores já devem ter notado, este humilde blog não fala somente sobre esquizofrenia. Às vezes, como qualquer cidadão comum, costumo dar meus pitacos sobre outros temas também. Afinal, a vida de um portador de esquizofrenia não é somente esquizofrenia, não devemos atribuir tudo o que nos acontece ao transtorno da mente dividida. O blog se chama Memórias de um esquizofrênico e não memórias esquizofrênicas.
    O assunto de hoje é a ferrenha batalha entre alguns pastores e seus seguidores contra os defensores da causa LGBT. Não quis comentar o assunto quando estava no auge da discussão, para evitar polêmicas. Cada um tem o direito de se expressar, desde que não invada o espaço dos outros, e também não precisando discutir, no sentido de brigar mesmo. Não faço parte de nenhum dos lados em questão, tenho a minha opinião própria. Não que eu queira ficar em cima do muro, mas, como já diz a música do grande Zeca Baleiro, "Minha tribo sou eu"...
    Não sei bem quando tudo começou exatamente, mas os ânimos começaram a ficar mais exaltados após a última parada gay, em São Paulo, quando a transexual Viviany Beleboni, de 26 anos, desfilou pela Avenida Paulista encenando a crucificação de Jesus.
    A bancada evangélica em Brasília não gostou nada dessa atitude e chegou a propor um projeto de lei, que torna crime hediondo qualquer ato que seja considerado um ultraje a fé cristã. A pena para esse tipo de crime poderá ser de até oito anos... Enquanto isso os nossos adolescentes continuam a cometer barbaridades sob a proteção de uma lei criada há mais de quarenta anos ou mais.
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/06/1640253-apos-parada-gay-deputado-quer-que-cristofobia-vire-crime-hediondo.shtml
    Como sempre, o pastor mala sem alça, ops, quer dizer, malafaia, não ficou fora da discussão, apesar da cruz ser um símbolo da igreja católica. Os próprios evangélicos são contra esse tipo de simbologia religiosa, não consideram a cruz e nenhum tipo de imagem usada nos cultos da igreja católica. Até que faz sentido, pois, se Jesus morresse esfaqueado, os católicos usariam uma faca no pescoço?
 
    Mas, voltando ao irado pastor, ele, como sempre efusivo e exaltado, deu o seu pitaco, e,não aliviou. Os defensores da causa LGBT não gostaram muito do discurso do pastor e da bancada evangélica, para muitos considerados homofóbicos. O jornalista Boechat teve uma calorosa discussão virtual com o pastor mala sem alça que chamou a atenção do pais inteiro.
    Alguns pastores e líderes religiosos até que compreenderam o ato da transexual e não a condenaram, entendendo que aquela cena foi uma forma simbólica de mostrar para o mundo que todos os dias vários homossexuais são condenados e crucificados pela sociedade. Mas a maioria, evangélicos, como o pastor Feliciano, condenaram o ato, e, numa tentativa de colocar a transexual contra a população, colocou a imagem dela crucificada em outros movimentos e protestos. Entenda melhor esta situação lendo o link abaixo:
http://noticias.terra.com.br/brasil/cidades/viviany-beleboni-transexual-crucificada-processa-marco-feliciano,100bd849da7594157ed5e4c57fd45865gpoxRCRD.html

Entenda um pouco a briga entre mala sem alça e o Boechat


    Como já afirmei, não sou defensor da causa LGBT, e também não sou a favor desses "pastores" que se dizem representantes da moral e dos bons costumes. Sou a favor do respeito, cada um é dono do seu próprio corpo e fazem dele o que bem entender, desde que se respeite o direito dos outros. Ninguém é obrigado a ver duas pessoas fazendo sexo em um local público. Não tem como esconder isso, alguns homossexuais tem essa prática, não tem como negar. Claro que heterossexuais também tem essa prática, mas isso é muito mais comum entre os homossexuais. Espero que entendam o que estou tentando transmitir, que é o respeito ao próximo. Não tenho nada contra os homossexuais e nem contra os evangélicos. Só gostaria que alguns homossexuais fossem mais discretos e que os pastores, principalmente lá de Brasília, trabalhassem mais e falassem menos e que tratassem de assuntos mais importantes, ainda mais na atual situação em que se encontra nosso país.
    Creio que nessa questão os dois lados deveriam ceder um pouco. Um pouco mais de respeito de alguns homossexuais escandalosos e mais tolerância dessas pessoas que se dizem "crentes"...
    Conheço evangélicos e homossexuais, e respeito à todos, não vejo nada demais nisso. Jesus que era o filho de Deus andava no meio dos pecadores e escolheu pescadores como discípulos. Pelo que sei, uma das poucas vezes que entrou em uma igreja foi para expulsar os comerciantes que se encontravam no local. Então, por que eu, um cara cheio de falhas e erros, irei me achar melhor do que os outros e passar a condenar tudo o que não concordo e não me agrada? As pessoas, nas redes sociais, estão se polarizando demais, e, como um imã, acabam se repelindo umas às outras. Ou você está no pólo negativo ou no positivo, não tem como ficar no meio.
    Essa polarização começou a tomar uma dimensão maior na última eleição para a presidência do nosso país, sobretudo no segundo turno: Dilma x Aécio, PT x PSDB, ricos X pobres, sulistas x nordestinos, e por ai vai. Não tinha meio termo, tudo muito generalizado.
    Mesmo após as eleições as discussões nas redes sociais ficaram acirradas e tensas. O foco mudou um pouco, com os acontecimentos: a maioridade penal, os justiceiros, e agora a discussão entre os defensores da causa LGBT e de evangélicos que se autodenominam defensores da família.
    Quem sou eu para falar e citar trechos da Bíblia sagrada. Além de não tê-la estudado o suficiente, não me considerado apto para tal ato. Creio que é preciso ter uma vida muito reta para sair pregando lição de moral por ai com um microfone na mão. Mas posso falar sobre o que vi e vivi em todos os meus 46 anos de existência neste planeta chamado terra.

   Frequentei diversas igrejas evangélicas: algumas gostei muito e me senti bem, outras nem tanto, devido principalmente a rigidez das normas. A impressão que se dá é que termos que ser santos, totalmente puros, sem pecado nenhum, nem em pensamento. Cada denominação tem suas regras, e, em algumas igrejas os homens não podem nem sentar perto das mulheres. Era tudo muito separado: os casados, os solteiros, as crianças e os idosos. Não vejo maldade nenhuma em sentar perto de uma mulher em uma igreja. Essa regra é a própria confissão de que as pessoas só pensam em sexo. "Não podemos sentar perto das mulheres, por que não iremos prestar atenção no pastor e sim na mulher..."
    Hoje em dia, depois dos meus surtos, qualquer lugar que não seja o meu quarto não me é agradável, a realidade é esta. Tenho consciência de que isso vem de mim, mas não sei como resolver esta questão. Então ninguém irá me ver frequentando uma igreja evangélica, mas também não me encontrarão em um baile funk fazendo certas estripulias... Meu mundo é o meu quarto, meu notebook, minha TV e o meu home theather, para me sentir em um cinema quando assisto algum filme... Mas não desisto, vou continuar na luta, mas não vou ficar à espera de que apareça um medicamento milagroso que cure as minhas paranoias sem me detonar fisicamente. Além de não nos detonar fisicamente, esse medicamento milagroso teria que anular as paranoias sem nos deixar meio robotizados, sem emoções. Acho que os cientistas ainda continuam pensando que a esquizofrenia é apenas um desequilíbrio químico. Ai criam inibidores da dopamina e dopam o paciente e ai dizem que está tudo bem. Mas esquecem de outros fatores, com o psicológico. Já vi psiquiatras compararem a esquizofrenia à diabetes, que basta controlar a dopamina e pronto. Creio que estão apenas tratando um dos sintomas. Vou citar a dengue: quando pegamos dengue, vamos ao posto de saúde e o médico nos receita paracetamol para dar uma aliviada nas dores, mas não resolve o problema da dengue em si, e a solução é apenas esperar e esperar... Com a esquizofrenia creio que ocorra o mesmo, trata-se um dos sintomas, que é o aumento da dopamina...
   Mas não poderia de agradecer neste post aos verdadeiros evangélicos que apareceram em minha vida, em alguns momentos especiais. Se foi coincidência, obra do acaso ou intervenção divina, não sei dizer. Me lembro de Laura, de Salvador, na Bahia, que, sem ao menos me conhecer, me acolheu em sua casa por quase um mês, no ano de 1992 (me lembro bem da data, já na época tinha o hábito de escrever algumas memórias..). Estava trabalhando em uma cidade do interior de Minas Gerais, e, do nada me deu vontade de trabalhar em Salvador, em um trio elétrico qualquer, sei lá... Foi um impulso e não tinha nada planejado e ainda cometi a burrice de ir para a capital baiana em pleno carnaval, ou seja, as firmas de sonorização e trios elétricos já estavam com seus quadros de funcionários completos.
    Então, depois de quase um mês em Salvador, dormindo em hotéis, a grana havia acabado. Fui dormir em um banco da praça. E lá estava Laura, pregando em voz alta, para quem eu não sei, pois todo mundo passava direto e nem ligava para o que ela dizia. Mas ela não desistia e não parava um minuto sequer. "Essa mulher é doida..." pensei, de início. Mas, no final da pregação, resolvi ir até ela para que orasse por mim e quem sabe Deus ouvisse minhas preces. Confesso que sou daqueles que pensam mais em Deus nos momentos difíceis. Quando a coisa volta ao normal, esqueço de tudo. É algo parecido com alguns bandidos que, quando são presos, não desgrudam da bíblia nas celas. Chegam a decorar a bíblia quase toda e até conseguem discutir de igual para igual com alguns pastores. Mas, depois que conseguem a liberdade, voltam para o mundo do crime...
    Me lembro que conheci pessoas bastante legais e divertidas quando frequentei a igreja Batista em uma cidade do interior de Minas Gerais, tirando o preconceito que eu tinha, imaginando que todos os evangélicos fossem pessoas carrancudas, moralistas e que não se divertiam.
    Quando estive nas ruas, durante o meu primeiro surto psicótico grave fui muito ajudado pelos evangélicos, mas também por espíritas e católicos. E também por pessoas que não professavam nenhuma religião.
    Me lembro de um casal de evangélicos sorridentes, que, ao me verem sentado na rua, pararam e começaram a conversar comigo. Ficamos um bom tempo batendo papo, e, ao contrário de alguns "crentes" não disseram que eu estava com o "tinhoso" no corpo. Até me deram uma bíblia de uso pessoal deles, pois vários versículos estavam marcados e havia algumas anotações que achavam importantes. O cara até chegou a me levar para a igreja batista da lagoinha, para tentar alguma ajuda que me fizesse sair das ruas. Até hoje guardo com carinho a bíblia que eles me deram.
    Ainda neste primeiro surto grave, fui atendido por um pastor psicólogo da igreja presbiteriana. Estava perambulando pelas ruas do bairro barro preto, quando avistei a placa de um consultório de psicologia, no segundo andar de um prédio. No primeiro andar funcionava a igreja presbiteriana. Era o ano de 2003. Estava começando a me recuperar do surto e já havia perdido quase que totalmente o medo de conversar com as pessoas, a mania de perseguição havia diminuído consideravelmente. Havia também recuperado o meu peso e estava me sentindo muito bem fisicamente, até parece que o jejum forçado no meio do mato durante a crise serviu para dar uma limpeza em meu organismo. (efeito detox?)
     Já havia cortado o meu cabelo e estava fazendo a barba, apesar de ainda estar nas ruas. Naquela época as latinhas de refrigerantes e cerveja ainda davam um bom dinheiro, e conseguia comprar os produtos de higiene e outras coisas mais. Era até meio constrangedor na época o que ocorria nas festas de rua e em shows: o cara lá tomando a sua cervejinha e com um cara ao lado com uma sacola esperando a tão valiosa latinha...
     Também já havia começado o tratamento com o psiquiatra no posto de saúde que havia perto do parque municipal. Também estava fazendo terapia com a psicóloga, que não me falava nada sobre o que eu poderia ter, apenas ficava me olhando. O psiquiatra me ouvia por alguns minutos e logo preenchia o receituário. Estava bem, mas não tinha a mínima ideia do que havia ocorrido comigo nos últimos meses. Pensava que se tratasse de algo espiritual ou que então alguém havia colocado alguma droga em algo que eu havia ingerido. Por esse motivo resolvi entrar na igreja e conversar com o pastor psicólogo.
      Mas ele também não me falou nada sobre esquizofrenia, apenas conversávamos sobre vários assuntos, como música, a infância, etc. Mas aquela atenção que ele deu para a minha pessoa foi importante. Me tratou como um ser humano e não me julgou, mesmo relatando um pouco de toda aquela loucura que havia acontecido comigo nos últimos meses. Saia de lá mais confiante e animado, passando a perceber que o mundo inteiro não estava contra a minha pessoa. Claro que sempre que ia na igreja não deixava de tomar um cafezinho com biscoitos...
    Às vezes o que mais precisamos é ser ouvidos... Infelizmente alguns profissionais da saúde mental não percebem isso, e só sabem nos encher de antipsicóticos... Conversam mais com os parentes do que com o próprio portador.
    E, durante as minhas andanças, depois que sai de Ipatinga, em 20012, conheci um pastor que foi muito legal comigo, pois guardou a minha barraca entre os intervalos de uma viagem para outra. Essa barraca pesa dois quilos e incomoda um pouco quando a mochila está cheia de outras coisas.
    Além destes que citei, conheci vários evangélicos legais, que conversavam comigo como seu eu fosse um ser humano normal, sem nos dar a impressão de que são seres puros e que serão os únicos a serem salvos e que poderão se contaminar.

    Já os "crentes", aqueles aqueles que se acham salvos apenas por frequentarem uma igreja, procuro não me aproximar, pois o discurso é sempre o mesmo. Ser "crente" é fácil, dizem até que o "capiroto" é crete, pois acredita na existência de Deus. Falo daqueles crentes que andam com a bíblia debaixo do braço e sabem de cor cada versículo da Bíblia, mas que não poem em prática o que está escrito neste livro. Procuro me afastar de "crentes" que se negam a fazer um trabalho de faculdade por que o tema era a cultura afro brasileira. Isso sim é intolerância...
   Gostaria de parabenizar os verdadeiros evangélicos, que saem pregando a sua fé em todos os lugares e para todas as pessoas, independente da classe social e aparência física. Já vi pastores que pregam em comunidades carentes onde o tráfico de drogas é intenso.
http://acritica.uol.com.br/noticias/Amazonas-Manaus-Cotidiano-Polemica-alunos-professores-trabalho-escolar-afro-brasileiro-evangelicos-satanismo-homossexualismo-espiritismo_0_808119201.html#.Uj3L143dwPi.facebook
     Espero que tenham entendido a intenção da postagem. Respeito quem se dá o respeito, seja ele evangélico, ateu, homossexual.  Infelizmente as redes sociais, o facebook mesmo, não sei por que os jornalistas tem medo de dizer facebook, está se tornando um ringue, cada um de seu lado, tudo polarizado como pedaços de imã, que, quando se aproximam acabam se repelindo.
   Pode até parecer que trabalho para o Zeca Baleiro, creio que essa é a terceira vez que posto esta música, que mostra que não devemos sair por ai generalizando tudo o que vemos nas redes sociais.
Cada pessoa é única e tem a sua maneira de ser e pensar, vamos respeitar a decisão de cada um, o mundo seria uma droga se todos fossem exatamente iguais.

3 comentários:

  1. Não podemos generalizar ou totalizar se preferir, virou moda rotular todos os crentes só porque um pastor falou asneira, como se cada cabeça no mundo pensasse por todos, francamente!

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    1. Parece que vc não leu o post inteiro, eu procurei diferenciar "crentes" dos evangélicos....

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    2. Verdade, procurei da melhor maneira possível explicar essa diferença, infelizmente algumas pessoas não entenderam....

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