sábado, 2 de maio de 2015

Esquizofrênico: inimputável ou não?

    No último dia 28/04, o paranaense Rodrigo Goulart foi executado na Indonésia, pelo crime de tráfico internacional de drogas.
    Em 2004, ele entrou neste país com 6kg de cocaína, escondidos em uma prancha de surf. Foi julgado e condenado no ano de 2005. Antes da execução, já em 2015, a defesa do réu entrou com um recurso na justiça, alegando que Rodrigo era esquizofrênico, e que não poderia responder pelos seus atos. Ou seja, ele seria considerado inimputável.
    O advogado ainda afirmou que seu cliente ultimamente andava delirando e ouvindo vozes...
    Mas, e no momento do crime? Ele estava surtado? Não tinha a mínima noção do que estava fazendo? A lei é bem clara, para uma pessoa ser responsável por um delito, é preciso de três condições básicas:
    - ter praticado o crime
    - ter entendimento do caráter criminoso do ato
    - ter sido livre para escolher entre praticar ou não praticar o delito.
    Simplificando, ele deveria saber o que estava fazendo, e não ter sido obrigado a praticar o crime.
    Me desculpem se estou sendo sincero demais, mas, na minha opinião, o cara queria vida boa, sem precisar de fazer muito esforço para isso. Queria surfar na Indonésia, comer do bom e do melhor e se hospedar nos melhores hotéis. Enfim, queria fazer turismo e fumar o seu baseado e cheirar o seu pó.
    Rodrigo saiu de uma família de classe média alta do Paraná, era uma pessoa educada e gentil, segundo os familiares e amigos. Mas era ganancioso e, como já disse, usuário de drogas, o que não é uma boa combinação.
    Parece que o vício dominou sua mente, e, para sustentá-lo, resolveu embarcar nesta viagem fatal...
    Foi um caminho que ele mesmo escolheu, o caminho das drogas, que, infelizmente quase termina sempre em três "cês":
    - Clínica de recuperação, Cadeia ou Cemitério...
     "Cê" de cocaína e maconha (cannabis sativa)
    Ele poderia seguir outros caminhos, sua família era bem estruturada financeiramente. Poderia ter estudado e se formado. Mas tentou seguir o caminho que lhe parecia o mais fácil e agradável...
    Seus familiares alegam que ele foi aliciado por traficantes internacionais, que se aproveitaram de seus problemas mentais. Mas ai me pergunto: Ele realmente era esquizofrênico? Se sim, tinha algum retardo mental grave, para não saber que tráfico de drogas é crime? Ainda mais em um país como a Indonésia? Oras, que pais são esses então que deixa um filho que tem um suposto retardo mental tirar um passaporte e sair por ai viajando pelo mundo ao lado de traficantes? Essa alegação de que ele foi apenas um simples laranja nesta história não me convence... Nem todo esquizofrênico tem retardo mental, isso é um dos estigmas da esquizofrenia. E o contrário também ocorre, muitas pessoas afirmam que todo esquizofrênico é muito inteligente, e que pirou por causa dessa condição.
praia na Indonésia
    Ele queria sim era sustentar o seu vício, surfar nas lindas praias da Indonésia, curtir a vida sem responsabilidades. Como disse, foi o caminho que ele mesmo escolheu, e ninguém o obrigou a seguir por essas trilhas perigosas.
   Gostaria de dizer que não sou a favor da pena de morte, mas também não quero ter privilégios nas leis criminais. Quero sim ter acesso a um tratamento digno na saúde mental, ter condições de ter uma melhor qualidade de vida, mas não quero privilégios por ter esquizofrenia. Quero ser respeitado e não sofrer preconceito pelo fato de ser esquizofrênico, mas não quero que passem a mão em minha cabeça e que eu pague caso venha cometer algum crime.
   Voltando ao assunto, creio que a lei avalie a condição mental do indivíduo no momento em que ele cometeu o crime. Ou seja, em 2004 Rodrigo Goulart sabia o que estava fazendo. Se por acaso ultimamente estava delirando, é por que o cárcere privado o enlouqueceu. Afinal, foram 10 anos esperando a sentença ser executada.
   Devemos então tomarmos muito cuidado nesta questão, de decidir se o portador de esquizofrenia seja inimputável ou não em um crime. Tem que ser avaliada a condição mental da pessoa no momento do crime, se estava surtado ou não. Tornar um portador de esquizofrenia inimputável pode gerar precedentes muito perigosos. Imaginem, se um portador de esquizofrenia, que seja violento por natureza, saber que não será punido por nada do que vier a fazer? Mesmo estando estabilizado, ele vai usar esse benefício para fazer o que em entender...
     Alguns portadores ficaram contra essa minha opinião, nas redes sociais. Uma esquizofrênica até me excluiu de sua rede de amigos em uma famoso site. Mas, como já afirmei, não desejei a pena de morte para o Rodrigo, apenas acho sensato que todos os esquizofrênicos sejam tratados como os "ditos normais", se comprovado o fato de que o portador não estava surtado no momento do crime.
Como já afirmei, não quero privilégios, sair por ai fazendo o que bem entender por ser inimputável Seria melhor se o preconceito e a falta de informação acabasse, se fossemos mais respeitados e não tratados como seres agressivos e violentos e desprovidos de inteligência. Não quero ser entupido de remédios e ouvir do psiquiatra que estou estabilizado por estar dopado. Seria melhor, ao invés da inimputabilidade, ter acesso à um tratamento mais digno na saúde mental aqui no Brasil.
    O que acabei de postar pode acabar dando a impressão que estou contra os próprios portadores de esquizofrenia. Não é bem isso, não quero ser tratado com criança, quero ser responsável pelos meus atos. É difícil explicar essa situação? Nós, os portadores, devemos lutar e questionar outros direitos que poderíamos ter, ao invés de privilégios nas leis criminais. Não estou dizendo que existem realmente algumas exceções, que alguns portadores, devido à gravidade do caso, realmente não tem condições de responder por esses atos. Cabe a família tomar as medidas que sejam necessárias.
    Se, por exemplo, um portador de esquizofrenia para de tomar a medicação por conta própria, e entra em surto e comete um crime? Ele não deveria ser punido?
    Mas gostaria de ressaltar novamente que o portador de esquizofrenia faz mais mal a si mesmo do que à outras pessoas. É grande o número de esquizofrênicos que tentam o auto extermínio. Segundo pesquisas, cerca de 10% conseguem tirar a própria vida.
    
Está virando moda....
    A defesa do serial Killer de Goiânia, Tiago Henrique Gomes da Rocha, acusado de matar 39 pessoas, entrou este ano com um recurso, alegando que o indivíduo é portador de esquizofrenia e que agia sobre a influência de vozes que não sabia de onde vinham...
    Os crimes aconteceram entre os anos de 2011 e 2014. Ano passado, chegou a confessar os crimes, se lembrando perfeitamente dos detalhes (vídeo abaixo), chegando a identificar suas vítimas por números. Segundo a polícia, Henrique é um cara frio e inteligente. 
    Mas agora a história mudou. A defesa também é outra. De início, o primeiro advogado afirmou que seu cliente iria pagar pelos seus atos, caso fossem provados. Mas, agora, com uma nova pessoa na defesa, querem que o caso tenha um outro rumo. Sua defesa alega agora que ele não se lembra mais dos fatos, por estar tomando remédios psiquiátricos.... (já tomei quase todos, tive problemas de memória, mas não nessa dimensão, esqueço uma coisa ou outra, o nome de uma pessoa, um pequeno fato, mas esquecer de que talvez tenha matado pessoas ai é demais...)
    Tiago também cometeu vários assaltos, e, pelo que sei, ser assaltante, ladrão não é um sintoma da esquizofrenia. As penitenciárias estão superlotadas de pessoas "ditas normais".

    Costumo dizer que a esquizofrenia não interfere no caráter do indivíduo. Existem esquizofrênicos bons, maus, honestos e trapaceiros, como na população em geral. Não somos diferentes, temos sim um transtorno mental que pode ser grave se não for tratado adequadamente. 
    Já passei por várias dificuldades em minha vida, principalmente por causa dos surtos. Fui parar nas ruas, não comi o "pão que o diabo amassou", e sim o próprio lixo mesmo. Quase fui dessa para outra, mas, graça à ajuda de muitas pessoas, consegui passar pelo que um pastor me disse ser o "vale da sombra da morte". 
    Sei o que é passar fome, mas nunca passou pela minha cabeça entrar para o tráfico de drogas ou até mesmo a roubar. Confesso que cheguei a pegar alguns doces em um bar, mas isso ocorreu quando estava surtado e com muita fome, com 25kg a menos do meu peso normal. Não estava falando naqueles dias, pois acreditava que as pessoas poderiam ler o meu pensamento. Então, naquele dia, olhei para o dono do bar, como que a pedir os doces. Ele não esboçou nenhuma reação, e senti que iria deixar eu saciar a minha fome. Então abri o pote e peguei uns quatro doces de coco. Fechei a embalagem e coloquei no mesmo lugar e depois sai correndo. Estava tão fora da realidade que pratiquei este "pequeno delito" em frente à delegacia da polícia civil.
     Voltando ao assunto do serial killer, o laudo da justiça classifica Tiago como um psicopata, podendo responder pelos seus atos e que nenhum medicamento irá resolver este desvio de caráter. Ele é tão psicopata que um delegado chegou a afirmar que Tiago chegou a ficar lisonjeado quando foi informado que era o quarto maior serial killer do mundo. Até pediu para que trocassem a foto que seria colocada em um cartaz, dizendo que não estava bonito na foto escolhida. Ele também colecionava recortes de jornais com as notícias de seus "feitos". Analisando o caso, dá para perceber que ele agiu premeditadamente, e que não agiu por estar surtado ou por uma outra doença mental.
     O que tem de esquizofrenia nesse caso? Ele afirmou que sofreu bullying na escola e que foi abusado sexualmente. Já pensou se todos que fossem abusados e que sofreram bullying fizessem o mesmo que esse cara fez?
    Está virando moda criminoso virar esquizofrênico de uma hora para outra...
    Esses advogados do diabo...

Central de Downloads do Esquizo

    Esta semana na central de downloads posto o livro "Revelações de um esquizofrênico", de Jorge Beltrão Nascimento, o famoso canibal de Garanhuns, terra do lula. É uma história que recomendo apenas para quem se interessa pelo assunto, pois o autor dos crimes relata com detalhes tudo o que fazia com suas vítimas. Para acessar este e outros livros, basta clicar na imagem no lado superior direito da página. Suas companheiras também chegaram a participar dos crimes, que era uma mistura de ritual com delírios de ordem religiosa. Uma chegou a colocar a carne humana em salgados para serem vendidos nas ruas da cidade pernambucana. 

4 comentários:

  1. Julio Cesar, adoro seu blog e também sou contra a defesa legal de pessoas normais colocarem-nas como esquizofrênica. Mas a cadeia não está lotada de pessoas ditas normais não. Estima-se que mais de 60% da população carcerária sofra de algum problema psiquiátrico. Pode jogar no google e ver.

    ResponderExcluir
  2. Olha, quando eu disse pessoas "ditas normais" são aquelas que estão dentro de um certo padrão que é ditado pela sociedade. Ou seja, aqueles que não tem um transtorno mental grave e incapacitante como a esquizofrenia.... Problema psiquiátrico muita gente tem, mas na cadeia em geral são problemas leves. Quem está na cadeira na maioria das vezes é por que escolheram um caminho que lhes parecia ser o mais fácil para viver a vida e ter suas coisas, além de crimes passionais e outros....

    ResponderExcluir
  3. Cada vez mais me identifico com a sua forma de escrever, de explicar o que sente. Bastante semelhante comigo, mas nunca tive vozes e apesar de o meu psiquiatra me ter dito que pensou que eu seria esquizofrénico, o diagnóstico acabou por ser de psicose paranoide.
    Estou medicado há 2 anos e a fazer hipnoterapia há cerca de 9 meses. Algo que é diferente, é que nunca ouvi vozes nem tive alucinações visuais. E acima de tudo o medo está muito presente, e estava ainda mais quando tinha surtos.

    Excelente blog.
    Abraço

    ResponderExcluir
  4. Sensacional seu senso de justiça, que muito juiz "normal" deveria ter...Concordo com vc em tudo que foi escrito.
    Parabéns Júlio.

    ResponderExcluir