sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A chuva


    No início queria colocar outro título para esse post: "The rain", para ficar mais elegante e chique. Mas, depois de refletir um pouquinho, cheguei à conclusão de que isso era bobeira. Afinal, mal sei escrever e a falar corretamente o português, e vou ficar inventado de postar em inglês?
    Quem lê os posts do blog, quase sem erros, pode pensar que escrevo bem, que sou bom em português e tals. Mas a verdade é que o blog, assim, como o word, tem um corretor ortográfico, que não é 100% confiável, pelo fato da língua portuguesa ser cheia de gírias e regionalismos, mas esse corretor já ajuda e muito.
    Bem, neste post irei falar sobre a chuva, mas não é sobre a crise hídrica em específico. Não sei se é culpa de São Pedro ou dos homens, ou se é desse ou aquele partido político. Está uma baixaria a política no Brasil, ninguém respeita ninguém, e não se sabe quem está dizendo a verdade. 
    Resolvi falar sobre a chuva, pois, quando ela cai, lembranças boas e ruins imediatamente povoam a minha mente. E você, o que sente quando a chuva começa a cair?

Na infância

    Nessa fase da minha vida a chuva era uma festa. E naquela época ela caia sem dó e nem piedade em Belo Horizonte entre os meses de dezembro até março. O rio Arrudas transbordava, causando muitos estragos, e alguns carros acabavam sendo levados para dentro do rio pela enxurrada. Mas, fazendo chuva ou sol, lá estava eu jogando futebol na rua (naquela época ainda dava para se fazer isso). Colocávamos duas pedras para marcar o gol, geralmente era um passo grande, e o jogo era jogado sem goleiro. Era muito bom quando caia aquela chuva de verão, de uma hora para outra, e nos dava aquela refrescada em nossos corpos franzinos. Naquela época o tênis kichute fazia o maior sucesso, sendo a chuteira oficial dos peladeiros do asfalto.

   Estraga prazer...
rua típica de São Thomé das Letras

    Quando comecei a trabalhar como operador de som, por volta dos dezessete anos, a chuva começou a tomar um outro significado para mim. Deixou de ser uma brincadeira para se tornar um inconveniente, pois, quando as águas caiam, o público acabava não indo para o evento no número desejado, e o show ficava meio sem graça, isso quando não era cancelado. E, para piorar, ainda se corria o risco de ter a aparelhagem de som danificada. 
   Entrava em depressão quando chegava janeiro, época de pouco serviço. Quinze dias já era suficiente para tirar férias, geralmente em São Thomé das Letras, onde recarregava as minhas energias com o ar puro do sul de Minas Gerais. O problema em viajar também poderia ser as chuvas, que caiam em abundância neste mês do ano. O dilema era ou não viajar nas férias, com receio de que o sol não aparecesse para curtirmos as cachoeiras ou uma praia. Chegava a pensar que Deus poderia sempre fazer com que as chuvas caíssem de noite e, de preferência durante a noite, ou melhor, de madrugada, onde menos pessoas seriam prejudicadas. 

Nos surtos
    Quando estava surtado, no meio do mato, a chuva parecia ser mais um castigo para mim.  Era o mês de janeiro de 2003. Me lembro bem de uma madrugada em que choveu muito forte, só parando com o raiar do dia. Apesar de ser verão, fazia muito frio naquele lugar, talvez por ser alto, pois tive que subir muito até chegar à BR 040. Estava descalço, usando apenas uma calça daquelas de praticar esportes e de camiseta. Creio que alguns leitores devem estar se perguntando: "Mas por que ele não saia do meio do mato, com aquela chuva toda?" Bem, eu estava surtado e, em minha mente, se saísse do meu refúgio poderia ser morto pelos inimigos que só estavam em minha paranoica mente. Cheguei a fazer uma varredura pelo local, para tentar encontra uma gruta ou caverna, mas em vão. Tive que improvisar um teto entre duas pequenas árvores, juntando galhos e mato seco, mas não adiantou muito. 
    Mas, não sei explicar o que acontece direito nos surtos. Quando estou neste estado, não sofro tanto fisicamente, creio que por estar meio fora da realidade. O frio e a fome não me incomodavam tanto como se estivesse em condições normais. Creio que fiquei cerca de cinco dias refugiado no meio do mato, de início fugindo das pessoas que pensava estar me perseguindo, mas, depois de ficar debilitado, passei a ficar o dia inteiro debaixo de uma árvore, questionando com Deus sobre aquela situação, sobre o que estava realmente acontecendo. A fraqueza funcionou meio que como um sossega leão, parei de ouvir as vozes e fiquei quieto, saindo apenas para tomar água. 

A chuva nas andanças

    Procurei sempre fazer as minhas andanças fora da época das chuvas, mas, na estrada real, quando passei pelo norte do estado de São Paulo e por algumas cidades do sul de Minas Gerais, me deparei com algumas precipitações pluviométricas. E, como ainda era inexperiente na arte das andanças, não estava preparado para essas chuvas. O meu erro foi pensar que o tempo e o clima nas cidades do caminho da estrada real eram exatamente iguais ao de Belo Horizonte. Aqui as estações são bem definidas: verão chuvoso, inverno com um friozinho gostoso (de madrugada se faz uns 16ºC e de dia o sol aparece para nos aquecer). Já no outono e na primavera o clima é agradável e mais ameno. 
    Então, não estava preparado para encarar as chuvas do caminho. Como a maior parte do percurso é feito pelas estradas de terra, fiquei patinando na lama e levando alguns tombos. Não adiantava: se usasse tênis escorregava, se andasse de chinelo, ele ficava grudado na lama. Se ficasse descalço, poderia machucar o pé e correr o risco de ter que abortar a viagem. Às vezes dava para seguir o traçado dos carros, mas mesmo assim era meio complicado. O caminho foi sofrido, mas valeu a pena e faria de novo, sempre quando recordo desse caminho um sorriso aparece em meu rosto, pois as lembranças são muito boas.
    Já na viagem Passos dos Jesuítas, pelo litoral do São Paulo, a chuva foi uma benção. Fiz este caminho no mês de janeiro do ano passado. Pouca chuva, foi o início de ano mais quente na capital paulista desde 1947. Parte do caminho é feito em Br's, e, no asfalto a sensação térmica é um pouco maior do que o que o termômetro indica, creio que deveria estar na faixa dos 40ºC. Certo dia, quando a chuva caiu, apenas coloquei a capa na mochila e continuei o caminho, sentindo o prazer daquela refrescância vinda dos céus. Até aproveite e lavei o meu cabelo andando mesmo...

 A chuva hoje
essa cachoeira é linda, mas, quando passei por ela, estava com pouca água...
    Hoje em dia não reclamo mais da chuva, apesar de sempre lembrar dos maus momentos que tive no meio do mato quando estava surtado. Até quando chove no jogo de corrida do PC, aquelas cenas voltam em minha mente. Mas quando vejo a grama por faltar em parques ou uma cachoeira com água escassa, coloco em minha cabeça que não podemos mais reclamar da chuva. Hoje até gosto quando ela cai, pois, como não faço nada, fico assistindo filminho debaixo da coberta. Não ligo mais para certos detalhes, para mim tanto faz como fez. Não sei se é a maturidade ou o fato de ter passado por situações complicadas, mas, atualmente, já não me importo com muita coisa que vivia esquentando a minha cabeça antes dos surtos. Acho que surtar me fez bem neste sentido, pois hoje sei quem sou e não me preocupo tanto com o que estão pensando ou falando de mim, o que era o meu ponto fraco antigamente. 
    As pessoas, não sei por que (falta de assunto?), vivem reclamando do tempo. Reclamam quando está fazendo calor, reclamam quando chove, e também quando está fazendo frio. Não sei o que elas realmente querem.
      Enfim, não tem como ficar indiferente a chuva. Alguns ficam tristes e melancólicos, já outros gostam do cheiro da terra molhada, do frescor que ela nos traz, o ar parece que fica mais puro... 
   Aprendi, que, assim como o tempo, devemos deixar as coisas em nossas vidas acontecerem naturalmente. Não estou dizendo para ficarmos parados, esperando tudo cair do céu, mas temos que parar de ficar reclamando de certas coisas, pois de tudo podemos tirar proveito, até de acontecimentos negativos. E deixa a chuva cair...

-Música: "Chove chuva"
-Artista: Biquini Cavadão

-Obs: como no blog falo sobre diversos assuntos, estou fazendo uma seleção dos posts mais visualizados e comentados, mas somente os que estão relacionados ao tema esquizofrenia. Estou no momento adaptando os textos para o formato de livro, pois no blog a linguagem é um pouco diferente, coloco vídeos e imagens para melhor ilustrar algumas situações, etc. Enfim, estou revisando e fazendo pequenas modificações em alguns posts para serem colocados em um livro, e creio que dentro de um mês estarei disponibilizando-o para quem se interessar. O título será "Divagações esquizofrênicas" e, como já disse, falará somente sobre esquizofrenia, com a seleção dos posts mais visualizados.
Já o livro Mente Dividida continuo disponibilizando normalmente, para adquiri-lo basta enviar um email com o assunto "livro" para  juliocesar-555@hotmail.com

8 comentários:

  1. Muito bom! É muito importante que se fale sobre a esquizofrenia, pois muitas pessoas não sabem o que é, nem como ela ocorre, e pela falta de conhecimento criam-se os preconceitos.

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  2. tu eres um homeless esquizofrenico burro.

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    1. Sim, sou um desprovido de inteligência. Mas me responda, o que um ser tão inteligente e superior como você "estas" a ler o que escrevo?

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    2. Falta de um tanque de roupa suja pra lavar mesmo, aí vem insultar os outros...burro é você, inseto, não fala nem o português direito! seu blog é 10 Júlio. ..tirou muito do preconceito que eu tinha, achava que todo esquizofrênico era agressivo, mas não é bem assim... leio todas as suas postagens... Força pra ti.

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    3. Obrigado por me defender, mas na verdade essa pessoa é um pouco contraditória e deve estar pior do que eu, pois, se eu não gosto de um blog, simplesmente não o leio. Agora, este ser superior e cheio de inteligência, que diz não gostar do blog, além de lê-lo, ainda se dá o trabalho de fazer o login para comentar. Não quero que o mundo inteiro goste do que escrevo, recebo críticas que nem publico aqui, resolvi publicar este comentário pois é uma pessoa no mínimo muito incoerente.

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  3. Olá! Gostei muito do seu blog, pois me ajudaram a esclarecer muitas coisas!!! Tenho uma irmã que sofre de esquizofrenia, ela já tomou vários remédios, que causaram efeitos colaterais como coceiras e manchas pretas na pele.Hoje ela não quer mais tomar remédio , então resolvemos diluir na água para ela tomar, mas assim que ela bebe ela vai vomitar.Nós da familia não sabemos como lidar com a situação, muitos estão pensando em interná~la, será que esta atitude é correta? Desde já agradeço a atenção! E parabéns pelo seu blog, que esta ajudando a muitos a entender sobre a esquizofrenia!

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    1. Eu que agradeço pela participação e visita ao blog. Em relação á sua irmã, a minha opinião sobre internação só é válida quando o portador representa perigo para outras pessoas e principalmente para si mesmo. Se for o caso dela, a melhor solução seria internar sim, mas procure se informar o máximo sobre onde vai interná-la. No que se refere a colocar os medicamentos misturados com alimentos ou água, isso depende muito do caso, pois, se ela descobrir, vai piorar a situação e a confiança que ela term em vocês vai diminuir. Tente dialogar com ela, mas nunca diga coisas do tipo: "isso é coisa de sua cabeça, não é a realidade". Isso geralmente não adianta muito, pois as alucinações são muito reais e os pensamentos de perseguição também. Espero ter ajudado em algo.

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    2. Me ajudou bastante!! Graças a Deus ela não nos agride e nem a si mesmo,só ouve vozes e tem alucinações,mas seu conselho foi bem válido! Muito obrigada e tudo de bom!

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