quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Evolução?



Museu da loucura

    Ontem, no meu estado atual de tédio extremo, estava mexendo no controle remoto, procurando algo para assistir no TV. Ia pulando de canal para canal, se nada me satisfazia. O tédio não deixa acharmos graça em nada... Mas, de repente me deparei com a reportagem acima, que relata o sofrimento dos portadores de transtornos mentais nos hospícios, há algumas décadas atrás.
    Realmente o que acontecia naqueles lugares não tinha nada a haver com tratamento. Era uma condenação, uma pena, para quem não se adaptava à realidade daquela época. Impotentes e sem saber o que fazer, os alienistas cometiam verdadeiras barbáries em nome do "progresso" da ciência. 
    Os alienistas do passado até chegaram ao ponto de tentar criar uma lei em que os considerados loucos fossem impedidos  de constituírem famílias. (fonte: "Os delírios da razão"- autora: Magali Gouveia Engel). Mais antigamente ainda, alguns chegaram a pensar que a esquizofrenia era nada mais senão do que um acúmulo de sangue no cérebro. O tratamento consistia apenas em tirar o excesso desse sangue na cabeça. Era comum também colocar os portadores em água gelada...
    Hoje, sinceramente, como portador e estudioso do assunto, posso dizer sim que houve uma boa evolução, mas que não foi tão grande assim.
    Da lobotomia física passamos para a lobotomia química, menos agressiva e reversível. Os medicamentos atuais até que conseguem controlar a esquizofrenia, mas o preço a se pagar é alto demais, fazendo com que muitos desistam do tratamento. Aumento de peso, movimentos involuntários dos músculos, fadiga, sonolência, aumento da taxa de colesterol, glicose e triglicerídeos, são alguns dos efeitos colaterais mais relatados.  Sem contar algo que acho que seja o pior de todos, que é a anulação de nossos sentimentos, a chamada lobotomia química. Assistir os jogos de seu time de coração e não achar graça nenhuma quando ele ganha é terrível.... 
    
reclamações como esta são muito comuns...


    Os antipsicóticos são tão complicados que as reações adversas podem ser confundidas com os próprios sintomas da doença.(li isso em uma bula de um remédio que não me lembro o nome, mas depois vou descobrir para completar o post, pois sempre gosto de citar a fonte). 
    O que fazer então? Não sou a pessoa mais indicada para responder a essa pergunta. Talvez nem exista essa ser na terra. Postei sobre esse assunto em "Remédios: tomá-los ou não tomá-los?. Na minha opinião, isso vai de cada um. Conheço esquizofrênicos que, apesar das paranoias, conseguem ir levando a vida, mas, por outro lado, conheço portadores que, mesmo tomando os medicamentos, às vezes tem os seus surtos e precisam ser hospitalizados.
    Não estou aqui querendo desmotivar ninguém a iniciar ou a parar o tratamento. Conheço também portadores que no início da patologia precisaram tomar doses fortes de antipsicóticos e, que, com o decorrer do tempo, foram diminuindo gradativamente a dose à medida em que se estabilizavam. Isso depende muito do psiquiatra, da equipe que atende a pessoa e, principalmente do portador. Mas, no Brasil, na maioria das cidades, estamos longe de se ter um atendimento digno que possa melhorar um quadro de esquizofrenia. 
    Como não existe uma causa única e definida pra o surgimento da esquizofrenia, também não há um tratamento único para a situação. Cada caso é um caso. Cabe a cada um, juntamente com os familiares, tentar achar um caminho. Na minha opinião, mais importante do que os medicamentos  é o apoio dos parentes e amigos, a ocupação da mente com algo agradável e produtivo, a tentativa de se achar um sentido para a vida, o autoconhecimento, a disciplina e também conhecer a patologia, o que não é uma tarefa fácil. Participo de vários grupos no facebook sobre transtornos mentais, e vejo cada coisa, principalmente de psicólogos(as) que acabaram de se formar e entram para esses grupos a fim de pesquisar e estudar o assunto. Só por que estudaram a teoria por alguns anos se acham os donos da verdade, e não é raro as discussões tolas e improdutivas nesses grupos. Me desculpem os psicólogos, não tenho nada contra a classe, é que, como em todas as áreas, existem os maus profissionais, e, neste caso em específico, esses são orgulhosos e não aceitam a opinião de quem passa por estes problemas, ou seja, o paciente. Na minha humilde opinião, o bom psiquiatra é aquele que se coloca em pé de igualdade com o portador. Depois irei postar sobre o que é uma consulta de via de mão dupla. 
    Já ouvi na net dois psiquiatras afirmarem que a esquizofrenia é como a diabetes: não tem cura, mas se tem o controle. Quem me dera se as coisas fossem tão simples assim na patologia da mente dividida. Não estou querendo dizer que a diabetes seja algo simples, menos dramático. Conheci pessoas com esse problema e sei o quanto é complicado conviver com esta doença. Mas a esquizofrenia, além de ser difícil de se lidar, como já disse, ainda não se tem ainda a descoberta da causa, o que dificulta a solução para uma provável cura. Além de tudo. ainda tem o preconceito da sociedade e o estigma que a esquizofrenia carrega, o que só piora a situação. 
    Os medicamentos não são uma maravilha, como muitos médicos costumam dizer por ai. Creio que o melhor a se dizer a esse respeito seria:
    - É o que temos no momento...
    Assim como atualmente achamos uma barbárie os hospícios de antigamente, torço e espero que em um futuro não muito distante, pensemos o mesmo sobre os medicamentos atuais. No momento, ainda estamos muito longe de se ter um medicamento que controle a esquizofrenia sem ter que se pagar um certo preço para isso. 
    Me desculpem se não agradei a todos neste post. Mas é o que penso e sinto, e também o que passei e ainda passo tentando achar um medicamento que me faça ser como era antes dos surtos, mas que não me faça me sentir um robô. 
    Gostaria de dizer que não faço parte da antipsiquiatria, mas também não faço parte da psiquiatria, simplesmente a minha tribo sou eu...

7 comentários:

  1. Olá Júlio, boa a reportagem sobre Barbacena, eu já passei por essa cidade algumas vezes e não conhecia essa história. Nessas suas pesquisas sobre a nossa doença você encontrou muito material de apoio bom? (Livros em pdf, documentários, filmes, reportagens,etc.) Poderia disponibilizar os links para nos informarmos melhor. Acho que ajuda muito se informar.Desde já agradeço!

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    1. Alguns livros eu tenho lá no grupo que faço parte no facebook. Se quiser é só me add no face e entrar para o grupo, se for portador de esquizofrenia.

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    2. Olá Júlio, eu não tenho Facebook só meu, uso em conjunto com a minha esposa, quando quero usar uso o dela. Nesse grupo você é administrador? Achei vários grupos sobre a doença, mas fiquei em dúvida de qual era o seu grupo. Eu sou portador de esquizofrenia. Até mais!

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    3. É que o grupo é secreto, para que sejam adicionados somente amigos e portadores, para ficarmos mais a vontade.

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  2. Não se encontram muitos blogs sobre psicose, esquizofrenia ou distúrbio esquizoafectivo - como o meu caso - de pessoas que partilhem o que sentem e pensam. Eu também sinto os mesmos efeitos. Nada sinto de prazer. Apesar de não assistir futebol tinha outros interesses que não me motivam. Ou está tudo para baixo, que é o normal, ou está tudo muito apático, sem vida. É muito doloroso. E apesar disto tudo a relação com a família é horrível, do meu ponto de vista. Passe no meu site. Eu encontrei o seu e passo por ele. Partilhemos assim experiências. Abraço.

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  3. eu nao aguento mais a sonera desgraçada, apatia... até perguntei para o psiquiatra, não sei se eu que virei preguiçosa ou é o remédio... a gente muda e nem sabe mais quem é

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    1. Verdade, a situação é complicada mesmo. Por isso pergunto qual evolução é essa, em que as reações adversas dos medicamentos são bem parecidas com os sintomas da patologia...

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