segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Divagações esquizofrênicas


Domingo...
    -Tá na hora! Não se esqueçam de entregar os lençóis! - nos avisa o monitor do abrigo, nos acordando às cinco horas da manhã em pleno domingo de horário de verão. 
    Se não fosse a violência urbana, continuaria dormindo na minha barraca. Fui feliz enquanto estive nela, por cerca de quatro meses, no bairro Barro Preto em Belo Horizonte. Alguns vizinhos até já tinham se acostumado comigo, me davam água gelada e às vezes frutas. Mas certo noite dormi com o rádio do celular ligado. Resultado: um meliante, ao ouvir a música, passou uma faca ou algo parecido e levou o meu aparelho. 
    A chuva cai com uma certa intensidade, deu para se notar pelo barulho dos pingos caindo no chão. Pelo jeito vai ser assim o dia inteiro. Mas desde o começo do ano não reclamo mais quando São Pedro resolve abrir a torneira do céu. Não tomo o café no abrigo. Foi servido café e biscoitos em uma bacia. A galera pega os biscoitos com a mão mesmo, e alguns deixam cair um monte  na bacia novamente, ao encherem as mãos. No banheiro dá para notar que alguns saem sem lavar as mãos. 
    Vou para debaixo de uma marquise, à espera da padaria abrir. Aliás, foi uma das coisas que mais senti saudades enquanto estive em São Paulo. Lá não tem tantas padarias como em BH. O mineiro que gosta de uma broa de fubá e um pão de queijo sofre um pouquinho na capital paulista. 
    Domingo, para mim, como albergado é um tédio: lan house fechada, e o restaurante popular também não funciona. Não vou aos lugares de doações, onde fornecem almoço para o pessoal dos abrigos e moradores de rua. Não por que eu me ache melhor do que eles, mas não gosto muito de agitação mesmo. Apesar de estar juntando uma grana para alugar um quarto, prefiro gastar do meu próprio bolso para comprar um lanche e ficar no parque mesmo. Em dias de chuva, só existe um lugar para se ficar no parque, debaixo do telhado de uma casinha. Neste domingo quase ninguém apareceu, só um cachorro molhado e rançoso insistia em ficar ao meu lado se abrigando da chuva. 
    Se domingo já é complicado para mim nesta momentânea situação, um domingo chuvoso é um convite a não fazer nada. Nessas horas dá saudades de ver o Globo Rural nas manhãs de domingo. Já perdi a conta de quantas vezes sonhei com um cobertor, uma cama e uma TV. Nada mais. O silêncio também não pode faltar. Domingo que é o verdadeiro dia da preguiça para mim, apesar de não cair na night e ficar de ressaca.
    Mas a minha vida é um vídeo game mesmo. Acho que estou na penúltima fase dessa parte de minha vida. O mais difícil já passei. Foram quase dois anos viajando por ai e morando em albergues. 

Natureza Selvagem?

    O primeiro ano das andanças foi uma maravilha. Estava com um ânimo que há muito tempo não sentia, depois de ficar oito anos trancado em meu quarto em Ipatinga. Estava um pouco acima do peso, devido ao sedentarismo. Mas a alegria e a novidade da liberdade compensavam a falta de preparo físico. 
     Me senti, ao sair por ai, como o cara do filme Na natureza selvagem. Mas, para mim o que está selvagem é o nosso mundo mesmo, principalmente as capitais. Podemos ser atacados a qualquer momento por marginais e usuários de crack. Tenho mais medo deles do que de cobras e outros animais que talvez possa encontrar nas minhas viagens pelo interior de Minas Gerais. A maioria dos animais precisa se sentir ameaçada para atacar uma pessoa. Mas precisamos de tomar banho, de nos alimentar corretamente, de escovar os dentes, não dá para viver no meio do mato para sempre...
    Não tenho preconceito contra os usuários de crack. A maioria quer sair dessa, mas não consegue... Alguns são acomodados mesmo. Mas a verdade, é que tenho medo da pessoa que o crack faz a pessoa ser, ou seja, um indivíduo sem controle e desesperado para alimentar o seu vício, roubando até os próprios familiares. 
    
Preconceito?
     No início de janeiro será a segunda vez que procuro um quarto, como um portador de esquizofrenia. Na primeira vez tive sorte. Estava em uma rua, olhando para a janela de um quarto, quando um senhor parou seu carro perto de mim e me perguntou se estava à procura de quartos para morar. Respondi que sim, e ele me levou à um prédio onde alugava vários quartos. Me mostrou um que era muito bom, espaçoso e com cerâmica no chão. O preço era razoável e me alugou no mesmo instante, sem sequer me perguntar o nome. 
    Hoje sei que o aluguel era relativamente barato por estar perto da crackolândia da cidade. Mas deu para viver tranquilamente por cerca de seis anos. O consumo de crack aumentou e a situação naquele lugar se tornou insustentável, o que me motivou a sair viajando por ai.
    Agora vou procurar um quarto novamente. E, provavelmente terei que falar que sou aposentado e, consequentemente, portador de esquizofrenia. Será que vou ser discriminado? Não seria melhor mentir neste caso? Acho que sim, mas não sou muito bom em inventar histórias...

Divulgação do livro
    No último dia 12, houve um evento no espaço Suricato para divulgar o meu livro. Não apareceu muita gente, o livro não foi um sucesso de vendas, mas não fiquei decepcionado. Foi algo muito positivo para mim, pois considero que obtive uma pequena vitória: consegui falar para um grupo de pessoas, sem precisar tomar o pan nosso de cada dia! Foi até positivo não ter aparecido tanta gente, pois fiquei um pouco nervoso, mas deu para falar alguma coisa. 
    Por volta do ano de 2003 eu não conseguia nem sair de casa, em uma pequena cidade do interior de Minas, sem antes tomar um diazepan. E não raramente tinha que engolir mais um no meio do caminho até o centro da cidade. Não foi fácil falar, com o nervosismo não consegui decorar o que eu tinha que dizer, e tive que recorrer a uma colinha. Mas o mais importante foi feito, que é falar um pouco sobre a esquizofrenia. Não sei quanto tempo vai demorar e se estarei aqui para ver, mas sei que um dia esse preconceito e o estigma que cerca a esquizofrenia irá acabar. E sei que estou fazendo a minha pequena parte neste processo. 

                                                                   Música: Rise
                                                              Artista: Eddie Vedder

Erguer-se

Tal é o jeito do mundo
Você pode nunca saber
Apenas onde colocar toda a sua fé
E como ela crescerá

Vou me erguer
Queimando buracos negros em memórias negras
Vou me erguer
Transformando erros em ouro

Tal é a passagem do tempo
Rápida demais para se envolver
E de repente engolida por sinais
Abaixe-se e observe

Vou me erguer
Encontrar minha direção magneticamente
Vou me erguer
Jogar minha pressa no buraco

3 comentários:

  1. Obrigado xará, realmente considero não uma pequena vitória, mas, olhando o fato de que eu estava quase morto há doze anos atrás, estar falando para um grupo de pessoas é uma grande vitória mesmo. Espero continuar melhorando a cada dia e poder lutar e ajudar em alguma coisa a tentativa de uma sociedade mais justa e compreensiva.

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  2. Júlio,
    Parabéns pelo evento de divulgação do livro. Tenho certeza que foi um sucesso.
    Apesar da vulnerabilidade de um portador de esquizofrenia, vejo que és muito forte e determinado. Torço para que você consiga alugar seu quarto logo. Já morei de aluguel em várias cidades da Bahia. Em todas tive que assinar contrato. No entanto, não me recordo de ter que informar minha profissão. Se essa informação for solicitada, não se sinta obrigado a dizer que és aposentado e, muito menos, um esquizofrênico. As pessoas não podem invadir a sua privacidade, intimidade. Você tem opções, caso não queiras se expor. Dizer sua profissão é uma delas, ainda que não a exerça. Se eu fosse aposentado, não teria problema de dizer - em se tratando de um caso específico, como o do contrato. Todavia, expor a razão da aposentadoria é, juridicamente, desnecessário. Mas, como sabemos que existem os curiosos, se fores indagado à respeito, cabe-lhe o direito de dizer o motivo específico (patologia), motivo geral (questão de saúde), assim como o direito de omitir, mentir. Percebo que tens personalidade para decidir sobre isso e muito mais. Apenas dei meu ponto de vista, respeitando sua posição. Quanto ao preconceito e ao estigma, são frutos da falta de conhecimentos e de atitudes de portadores. Você, como portador do transtorno tem atitudes que desmistificam tabus, ajudando a rompor preconceitos. Se outros também tivessem a coragem de se expor, mostrando que é possível conviver com a doença, que é possível - em alguns casos - estudar, trabalhar, casar etc., o caminho seria mais curto. Contudo, sabemos que os que optam pelo anonimato o fazem por questões pessoais, de trabalho e de direito. Cada caso é um caso. Eu frequento o N/A - neuróticos anônimos. Na sala tem um companheiro que diz "se a pessoa veste uma camisa com a frase Cachaceiro ou Mulherengo não há problemas; difícil é usar Neurótico; imagine o escândalo se fosse Esquizofrênico". Como os seres humanos são providos de intintos de sobrevivência, muitos usam mecanismos de auto-defesa por meio de ferramentas, como auto-negação. Não desmerecendo os anônimos, vejo sua atitude digna de louvor. Mais do que corajoso, tu és um vitorioso. Tudo de bom pra você.

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    1. Obrigado pela participação.Eu procuro ver o outro lado, o da pessoa que aluga o quarto. Esse mundo atual está complicado demais, principalmente por causa das drogas. Se eu fosse o dono, gostaria de saber mais sobre a pessoa e até referências, com o objetivo de manter o local tranquilo e saudável de se morar. O problema é o preconceito quando eu falar a verdade.

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