sábado, 20 de setembro de 2014

Divagações esquizofrênicas


As pancadas que a vida nos dá


  
futebol, crimes e fofocas sobre famosos, essa é a fórmula do sucesso do jornal...
   Estava meio pra baixo(totalmente, para falar a verdade) quando vi a frase acima em um jornal que costumo comprar, aqui em Belo Horizonte. Ele custa apenas 25 centavos, até que tem algumas coisas interessantes, mas não foge muito do formato que atrai a maioria das pessoas: tragédias, futebol e fofocas de famosos, principalmente mulheres.
    Tirando as fofocas e os crimes, até que dá para se ler alguma coisa: cultura, notícias interessantes e as palavras cruzadas de nível de dificuldade médio.
     Incrível como as palavras tem uma força, um poder invisível e às vezes invencível de nos motivar ou nos afundar mais ainda. 
    Acho que fiquei uns 15 dias nesta fase meio down. Às vezes chego a pensar que sou bipolar. Nem participei do campeonato de futebol entre os "cersams" de Belo Horizonte. Estava muito animado para participar, incentivei a galera para treinar para não fazer feio, mas, no dia da primeira partida estava mais sem graça do que o vilão quando cai o pano. Sou fominha de bola, jogo até me esgotar completamente, mas, quando bate esse desânimo... Semana passada nem pensei em publicar um post. 
    Meu estado de ânimo muda tanto e com tanta facilidade que procuro evitar de marcar compromissos. Há alguns anos atrás um psiquiatra que me atendeu em uma certa emergência chegou a me indicar o lítio. Mas o que me acompanhava normalmente disse que não era necessário. Hoje sei que a esquizofrenia e a bipolaridade tem alguns sintomas em comum e que não é raro o mesmo paciente ter diagnósticos diferentes. 
    Mas, voltando à frase, quando a vi me lembrei do momento em que tentaram me roubar o notebook em São Paulo. Eram três caras: um me derrubou por trás e os outros dois ficaram chutando a minha cabeça. Se reagisse, provavelmente perderia o note. A solução que encontrei foi me encolher como um tatu bola e ver até quando iria aguentar as pancadas, até quando iria resistir. Os caras estavam quase desistindo e, para minha sorte apareceu um senhor de idade que sacou algo de seu bolso e que assustou os meliantes. Se era um celular ou um revólver, não sei dizer... Quase não havia policiais nas proximidades, era dia de jogo de copa do mundo no Itaquerão, e a polícia estava trabalhando para a fifa protegendo os gringos... 
    Não recomendo à ninguém que faça o mesmo. Mas é difícil entregar assim com tanta facilidade algo que conseguimos comprar com tanto esforço. O negócio hoje está tão complicado que daqui a pouco rico vai ter que se fantasiar de pobre para não ser incomodado.
    Quando morava em Ipatinga, resolvi comprar um PC ao invés de um notebook. "Assim o ladrão vai ter  mais trabalho na hora de praticar seus delitos, por causa do monte de fios... " pensei. 
    Hoje em dia minhas compras estão condicionadas aos ladrões. Hoje tenho um celular bom, mas simples. Ele não é touch e não é da Samsumg, o preferido dos assaltantes. Tinha um com tv digital e era touch, mas, certa noite, quando dormi com o rádio do aparelho ligado, um @#$%  cortou a minha barraca e o levou embora. Nem pensei em correr atrás do meliante, até eu abrir os quatro zippers da barraca... 
    Hoje, com esse celular a minha preocupação é menor. Percebo que ele não atrai tantos os olhares da galera como o anterior, que custou bem mais caro. Também já passei da fase de querer ficar tirando onda com celular. Tem gente que fica mexendo no aparelho só por mexer, para mostrar mesmo. 

Preconceito
    O preconceito contra os moradores do albergue é tão grande, que, certo dia, quando entrei em uma sorveteria, uma mulher, ao me ver, ficou assustada e correu até a mesa para pegar o seu celular. 
    - "Eu tenho um celular, não se preocupe, e ele é original..." ironizei.
    - O meu também é original, e custa 900 reais!- disse, com toda a pompa, a moradora do bairro. 
    Essa moradora do bairro 1º de maio, além de ser "mitida", provavelmente não deve pensar muito. Eu estava com uma mochila de 11kg nas costas. Como iria sair por ai para roubar? Ela não tem uma perna, usa prótese, mas com certeza correria mais do que eu com todo esse peso nas costas. 
    Então pensei: por que se sacrificar para comprar um celular e ficar estressado por causa da preocupação de vê-lo sendo roubado? Rico, quando é roubado, geralmente nem liga para o valor do produto, fica mais chateado com o trabalho de recuperar o número e os contatos. 
palavras podem machucar mais do que gestos

    Mas, voltando ao assunto, não falo das pancadas da vida no sentido literal. Essas muitas vezes são curadas, nem deixando cicatrizes em alguns casos. Falo de coisas que acontecem que são bem piores do que um soco na cara. O preconceito é uma delas. Até que não sofro tanto preconceito por causa da esquizofrenia, sou aposentado e não tenho que tentar me ingressar no mercado de trabalho. Também posso viver mais retirado, sem ter muito contato com as pessoas. Mas, no momento, como morador de rua o negócio é complicado, é preciso ser forte para relevar certas situações, como o mau atendimento no posto de saúde do bairro 1º de maio. Sou tratado como um lixo quando os funcionários descobrem que moro no abrigo. Creio que os outro albergados também sejam. Sou melhor atendido em outros bairros quando falo que sou morador de rua mesmo e que durmo na minha barraca. Prefiro pagar o metrô e ir para outro posto de saúde para pegar o meu pan nosso de cada dia.
    Algumas pessoas do bairro 1° de maio me parecem ser um pouco prepotentes, sei lá, acho que pensam que moram na Savassi... Já almocei em alguns restaurantes caros em outros bairros, com a minha mochila e com roupas simples, e não sofri nenhum tipo de preconceito, como acontece aqui neste bairro do abrigo. Está certo que alguns albergados aprontam, mas generalizar não é o melhor caminho. Procuro sempre ficar na minha e evito confusão, não mereço ser tratado como se fosse um bandido. Aliás, os comerciantes do bairro provavelmente não falam nada quando avistam um traficante entrando em seus estabelecimentos. 
    Mas não existiu pancada em minha vida tão forte como a esquizofrenia. Parece um direto no queixo, que quase nos leva à nocaute. Ficamos no chão, caídos, atordoados, sem saber o que está acontecendo. A contagem regressiva não dura oito segundos, pode durar meses ou anos, depende de cada um. Os remédios funcionam como um intervalo entre os rounds de uma luta, onde podemos nos recuperar do golpe, que, infelizmente, pode ser o fim da luta pela vida. Recentemente um colega de grupo do facebook faleceu por causa da esquizofrenia. Ele tinha um canal no youtube, cantava bem pra caramba e chegou até a aparecer no programa da Eliana, mas a música era outra sem ser essa do vídeo.


    Sei que vou sofrer um pouco de preconceito por causa da esquizofrenia na hora de alugar um quarto. Não tem como esconder que sou aposentado. Afinal, fico o dia inteiro no meu canto. Vou dizer o que? Vou inventar? Você alugaria um quarto para um portador de esquizofrenia? Vote na enquete, mas vote com a sinceridade, não ficarei magoado com o resultado. Eu entendo um pouco o preconceito em relação a esquizofrenia. Eu também tinha muito preconceito, antes de surtar. Pensava que um vizinho era doido e não esquizofrênico. Ele tinha movimentos involuntários da face e dos membros, e não parava de andar. Às vezes eu o encontrava dormindo nas calçadas da cidade onde morava. Confesso que cheguei a imitá-lo de brincadeira. Ele não dava sinais de loucura. Apenas ficava a maior parte do tempo sentado na calçada em frente de sua casa. Cumprimentava todos, mas seu rosto não expressava nenhum sentimento. 
    Hoje sei que ele andava sem parar por causa da medicação. Ele tomava haldol e a acatisia é uma reação adversa muito incômoda. E os movimentos involuntários são a tal da discenesia tardia, também provocada pelos medicamentos, principalmente os mais antigos. O rosto sem expressão provavelmente é o embotamento afetivo, e hoje eu tenho um pouco disso. 
    Eu tinha aquele preconceito não por ser uma pessoa má, e sim pela falta de informação. Ninguém me falou nada sobre o que era esquizofrenia. Para mim era simplesmente o nome de um disco da banda Sepultura, daqui de Belo Horizonte. Por isso escrevo o blog, mas não quero e nem gosto de aparecer. Se quisesse chamar a atenção faria outra coisa ou abordaria um outro tema que chamasse mais a atenção.
a minha intenção é atingir também quem não tem ligação direta com o assunto...
    A maioria das pessoas chegam a este blog por terem alguma ligação com o assunto, por isso estou saindo por ai colando panfletos do blog. Quem quiser pode fazer o mesmo, não irei reclamar sahsuashasuahsuashs
Queria que um número maior de pessoas entendessem de verdade  o que é realmente a esquizofrenia e que não somos esses monstros que a mídia(ou parte dela) insiste em mostrar. Queria que todos soubessem o quanto ficamos tristes quando somos marginalizados e discriminados. Monstros e loucos vemos todos os dias, basta abrir as páginas dos jornais.

esta "linda" mulher cortou o pênis do ex-noivo por não aceitar o fim do relacionamento
Eu que sou doido?
     Notícias como a da foto acima são muito comuns e passam quase desapercebidas pelas pessoas. É normal, faz parte do dia a dia. Além dessa "linda" mulher da foto, uma outra cortou o pênis do seu companheiro alegando que iria fazer sexo oral... Homens que matam mulheres também parece ser considerado normal. "Se não vai ser minha, não vai ser de ninguém", é o que esses caras devem pensar. Mas, e quando um esquizofrênico comete algo? Aí é o maior escândalo, vira manchete nacional e alvo de discussões. Nem questionam se o cara não está "dando uma de louco", seguindo a orientação de seu advogado, para cumprir a pena em um manicômio judicial ou então ter a mesma reduzida ou até mesmo ser considerado inimputável.


Adotem o Chimbinha!
juro que não pensei no guitarrista do Calypso na hora de batizar o cachorro, olhei para a cara dele e vi que tinha cara de Chimbinha...
  No início ele se aproximava um pouco de mim, lá no parque. Mas, quando eu me movimentava, ele saia assustado. Na terceira vez que me viu ele não correu. Então o acariciei e a partir daí não largou mais de mim. De manhã, ele chega a ser quase um chato, insistindo em receber um carinho por ter ficado tanto tempo longe de mim. Não me deixa ler o jornal. Quando um outro cachorro se aproxima, mostra os seus dentes e rosna ameaçadoramente. Mas ele é muito dócil e brincalhão e parece estar saudável. Ele é sem raça definida(vira latas mesmo) mas é uma boa companhia. Se pudesse, o adotava. Quem quiser ou souber de alguém e for de BH e se interessar, entre em contato comigo por email. Provavelmente o dog vive feliz no parque, livre e solto, com espaço de sobra para correr.  Os funcionários do parque dão um pouco de ração de pato e resto de suas refeições para ele. Mas creio que Chimbinha deve sofrer com o frio e com as chuvas de noite, e com os cachorros maiores também. Conheço muita gente que gosta dos vira latas, quem sabe não consiga uma casa para o Chimbinha. 
ele é vira latas mas é estiloso...

9 comentários:

  1. Conheço bem essa história... tem dias que dá um desânimo... uma angústia sem tamanho... e o medo, um medo inexplicável... uma solidão... apatia, nostalgia... fica tudo uma confusão... tem dia que essas paranóias me irritam, tenho desânimo de me aproximar das pessoas e das que estão próximas eu me afasto... a solidão as vezes me traz uma paz que bem nenhum nem pessoa nenhuma pode trazer... e um medo imenso a ponto de surtar, a vida é assim, mas tem pessoas que parecem anjos enviados por Deus... em meio á tanta gente preconceituosa, sempre tem aqueles que nos vê não como uma doença, mas como um ser humano... As vezes eu penso o porque desse fardo tão pesado... mas tudo tem um sentido que um dia a gente descobre qual é... força e fé pra ti...

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  2. É... Esses dias conhecí uma pessoa, na verdade já conhecia mas não tinha muito papo.. ela veio com um laudo médico do qual dizia que ela era bipolar.. ela Tava visivelmente com medo... triste, eu contei minha história pra ela talvez até por um desabafo e pra mostrar que ela não Tava sozinha...Foi muito bom ouvir a história dela e falar um pouco da minha, ela me deu o telefone dela... é muito bom saber que podemos contar com alguém... converso com algumas pessoas mas nunca sobre isso por medo do preconceito... e você indiretamente e sem saber.. tem me ajudado muito tmbm... eu achei tão down esse seu último post parecia estar tão pra baixo... mas força pra ti e embora essa nossa cabecinha desconfiada e paranóica sempre diga que ninguém gosta da gente, que ninguém liga pra gente... saiba que tem alguém aqui torcendo por vc...

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    1. Obrigado. Acho que isso é passageiro mesmo, não é a primeira vez. Também já estou muito tempo com essa mochilas nas costas, mas falta pouco para comprar o que quero e assim alugar um quarto.

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  3. Julio,

    Pra quê dizer que vc é esquizofrênico quando for alugar um quarto!

    Diga que aposentou em virtude de uma LER....... ninguém precisa saber da sua doença.]

    Discrminação neste mundo é uma constante, se é branco pq é branco...se é negro pq eh negro...
    se é careca pq é careca.... se é bipolar pq é bipolar...se é rico é pq é rico, se é pobre...se é baixo ou alto...
    e por ai vaiiiiii.....

    Leve a vida numa boa.....

    Vc acha que esses caras que vc vê passar diante de si, dentro de verdadeiros carrões, morando em mansões... estejam felizes da vida..... claro que não, estão sofrendo igual ou até mais do que vc....

    Viva a vida, curta o máximo que vc puder, ela é tristemente curta... passa muito rápido...
    Não perca tempo dando ouvidos aos preconceituosos.

    Vá viajar, Julião!

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    1. Obrigado pela participação e pela força. É que não sou muito bom em mentir, mesmo sendo uma mentira "branca" shauhsaushasuhas. Se a pessoa olhar nos meus olhos e estiver mentindo, fico sem jeito e às vezes começo a rir ou então fico sem jeito mesmo.Se disser que tenho LER e o inquilino acreditar, nunca irá descobrir a verdade, pois sou um cara tranquilo e não apronto. E além de tudo sou um bom pagador, tirando o cartão de crédito, não devo nada a ninguém. Abraços

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  4. vc está certo Julio, talvez vc seja bipolar mesmo, eu tbém evito marcar compromissos pois não sei como estarei nesse dia, por isso faço alguns programas sozinho mesmo, como ir ao cinema e a exposições...sozinho mesmo...se me der na telha até posso chamar alguém p ir, mas como vc disse, não sei como estarei me sentindo no dia e prefiro fazer o programa sozinho pois assim me garanto, estava tbém pensando em me mudar de estado e alugar um quarto p ficar longe da minha família..não longe dos meus pais ..mas de outros parentes como tios, tias e avós q as vezes incomodam..quero distancia de familiares q ficam enchendo o saco...por isso tbém estava pensando e ir p outro estado e alugar um quarto....mas não sei a média de preço...o chimbinha é realmente bem bonitinho, lembra a minha cachorrinha Malu q tbém é vira lata..um forte abraço

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    1. Às vezes chego a pensar em tomar o lítio, mas é bem complicado usar esse medicamento, tem que se fazer exames de sangue com frequencia, pois dizem que a diferença entre a dose terapêutica e a dose que seria danosa é bem pequena. O jeito é ir tentando na base da mente mesmo. Às vezes é bom sim mudar de ares, mas temos que ver realmente se o que nos incomoda não está dentro da gente. Obrigado por estar sempre participando.

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  5. Oi Júlio tudo bem? Sou a Flor, faz tempo q passo por aqui leio seus post, são muito verdadeiros! Sou bipolar tomo muitos remédios luto para não ser afastada do serviço, já fui afastada uma vez e fiquei mal com isso......estou sempre em paranoia com alguma coisa! Tenho ideias fixas na cabeça e qdo fico assim.....demora uma eternidade pra ir embora e me causa muito sofrimento! Admiro seu jeito d viver imagino q não deve ser nada fácil, mas é bastante corajoso! Adorei o cachorrinho! Tenho dois gatos Tb vira lata.....vai divulgando quem sabe Deus não prepara um lar pra ele! Abraços!

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  6. Acho que vc pode ter transtorno esquizoafetivo do tipo bipolar, Julio. Na boa, meu namorado é esquizofrênico e eu não vejo nele algumas coisas que leio aki. Ele até me ajuda muito com a minha impulsividade e agressividade. Ele me controla , me apóia e me diz carinhosamente e ponderadamente quando me excedi em determinadas situações. Minha família tem preconceito por ele ser esquizofrênico. Muitos esquizofrênicos não gostam de namorar mulheres bipolares e fogem delas feito o diabo da cruz. Só sei que me entendo muito bem com ele. Alem de ser bipolar ,eu ainda tenho TOC e dislexia. Ele tá querendo casar comigo. Eu só sei que preciso dele ao meu lado e não me importo com o que as pessoas pensem dele ou tentem nos afastar.

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