quarta-feira, 16 de abril de 2014

O albergue



vista de cima do Arsenal
    - Primeira chamada! Bom dia senhores! - nos acorda o monitor que fica no turno da madrugada.
    São exatamente cinco horas e cinco minutos da manhã. O sol ainda não raiou e aproveito então para dormir até a segunda chamada, às seis horas da manhã. Metade da galera já se levanta, alguns até às quatro da manhã já estão se preparando para mais um dia no batente.
    Esse intervalo entre as duas chamadas é o tempo que mais senti voar até hoje na minha vida. Passa num instante. É mais rápido do que o tempo que passa quando nosso time está perdendo um jogo decisivo de final de campeonato.
     Raramente a segunda chamada passa das seis horas e cinco minutos. Acordar nesse horário sem um objetivo definido é um pouco chato, sem sentido. Fico pensando no que fazer durante o dia. Como temos o prazo de sair até às seis horas e quarenta e cinco minutos, dou mais uma cochilada de dez minutos.
    Felizmente o horário de verão já se foi e mais felizmente ainda que o horário de verão é no verão né?. Já pensou se horário de verão não fosse no verão e sim no inverno? Como faríamos para nos desvencilhar da coberta quentinha? shasuahsuashasuhasuahsuahs
eu moro na "Favelinha"

mas tem o Alphaville
e o Morumbi
 
    Me levanto às vezes bem, às vezes mal. O cara que dorme no segundo andar do beliche tem noites agitadas, não sei como falar com ele para parar de balançar o beliche, pois ele é nigeriano ou angolano, sei lá. Só sei que fala rápido pra caramba com seus amigos e que às vezes atrapalha o meu sono...
Moro em uma ala conhecida como "favelinha". Tinha esse nome por que era a mais simples, mas, depois de uma reforma, agora é a mais moderna e com o melhor acabamento. Também tem a ala chamada Morumbi e uma outra chamada Alphaville. Em cima do maleiro tem uma ala enorme, mas não sei como é conhecida.
    Depois de escovar os dentes, vou para o maleiro me trocar, pois não podemos voltar para o abrigo antes das quatro horas da tarde. Os africanos têm um pouco de vergonha de trocarem suas roupas, alguns se cobrem com a toalha na hora de colocar a calça.
    Por falar nos imigrantes, senti que existe um certo preconceito contra eles. Não por causa da cor, e sim por que são de outros países. É a chamada xenofobia. Muitos caras não gostam dos africanos, afirmando que eles tiram a vaga dos brasileiros no abrigo e ainda trabalham por menos dinheiro. É uma questão complicada, pois, se analisarmos bem, será que os brasileiros que estão em outros países em busca de trabalho são bem tratados como os imigrantes que estão no Brasil? Mas me sinto triste com a situação deles, e sinto que se sentem marginalizados. Alguns até que não tem esse sentimento, falam bem o português, se enturmam com os brasileiros, mas a maioria tem esse receio de serem discriminados.
lugar do rango bom
telão para assistir o futebol no domingo

    Continuando, vou para o imenso refeitório para tomar o café com leite e um pão com manteiga. Depois, cozinho um pouco o galo até o relógio apontar seis horas e quarenta e cinco minutos, que é o tempo limite para se ficar no abrigo na parte da manhã.  Afinal, o que fazer na rua tão cedo?
    Na saída do abrigo várias vans e topics ficam estacionadas à espera de desesperadas pessoas a fim de um bico. No geral, são trabalhos muito mal renumerados: ficar o dia inteiro em pé segurando uma placa para receber 35 reais. E o almoço é por conta do trabalhador. É um trabalho meio ingrato e desumano, de tempos em tempos passa um carro no local das placas com um cara que fica vigiando se o cara está em pé ou não. Outros bicos são de distribuir panfletos e montar barracas nas várias feiras de rua de São Paulo. Geralmente se paga 30 reais sem o almoço. E, além de montarem as barracas, os caras ainda têm que vender as frutas. Nem comissão tem!
    O meu dia a dia é um pouco monótono. Biblioteca da Mooca com internet discada, almoço no restaurante Bom Prato(1 real) e ás vezes me arrisco a conhecer lugares diferentes de São Paulo. não gosto muito de pegar o metrô, é muito empurra empurra. E ainda tem essa paranoia do encoxa encoxa. Fico pensando que as mulheres estão pensando que eu só entro no metrô pensando em fazer bobice. Deu uma confusão danada uma propaganda de uma estação de rádio dizendo que o horário de pico é ótimo para se xavecar. Afinal foi uma piada de mal gosto, pois, quem, depois de um dia cansativo de trabalho, com a estação lotada, aquele  calor, aquele empurra empurra para conseguir entrar na composição, vai pensar em xavecar? Fala sério né?
    Tem mulher que diz andar de spray de pimenta no metrô de São Paulo, é uma advogada. Uma outra estava querendo fazer uma campanha para todas as mulheres usarem um alfinete em caso de uma encoxada. É uma paranoia coletiva e total nesse metrô maluco de Sampa. Outro dia uma mulher olhou para  mim e fiquei sem reação. Será que ela foi com a minha cara ou me achou um possível encoxador de mulheres? Na dúvida fiquei quietinho. Mas se ela estiver dando bola, certamente vai achar que eu sou gay. Mas e se eu me aproximar, e ela estiver pensando que eu sou um tarado de metrô? É, o melhor a se fazer é ficar quieto no meu canto mesmo.
    Geralmente às quatro da tarde já estou na porta do abrigo, que tem uma história bem bacana.
    Ele foi usado antigamente para receber os imigrantes italianos que vinham para o Brasil trabalhar nas lavouras de café, já que a escravidão havia sido abolida do nosso país. Os imigrantes eram acolhidos e depois levados para as fazendas, alguns se estabeleceram na região, por isso o  bairro da Mooca têm muitos italianos, tutti genti boa.
   O projeto nasceu na Itália, em Turim, com o intuito de ajudar pessoas necessitadas e carentes. Passou a funcionar depois em um arsenal militar desativado, por isso o nome da instituição ser Arsenal da Esperança.
   É um lugar bacana, com boas instalações. Se a pessoa não aprontar nenhuma, geralmente fica por lá cerca de seis meses. Alguns conseguem trabalho na própria instituição, geralmente na área de limpeza, refeitório e lavanderia.
   A comida é boa, as roupas de cama são trocadas duas vezes por semana. A toalha também. As roupas são lavadas por um preço simbólico. Um quilo de roupa é cobrado 10ARS(moeda local), que vale vinte centavos.

neste forno eram queimadas as roupas dos imigrantes que morriam por causa da tuberculose na época

   Enfim, o arsenal dá boas condições para a pessoa se organizar, fazer um curso e conseguir um trabalho. Provavelmente deve ser o melhor albergue do Brasil. Tem uma pequena biblioteca, mas com ótimos livros, quadra de futebol, um enorme refeitório, telão que funciona aos domingos, e outras coisas mais.
    São cerca de 1300 vagas. Depois de três meses cheguei a conclusão de que o abrigo realmente é um arsenal de esperança para alguns, mas para outros é apenas um lugar para passar o tempo. Muitos caras não querem nem pensar em trabalhar, fazer um curso, enfim, tentar mudar de vida. Ai o Arsenal da Esperança tem o nome de Casa de diversão para pessoas que não querem nada com a vida. Infelizmente, esse lance de albergue e abrigo tem um lado negativo, mas isso é tema para um próximo post.
acho que esqueceram o Macaulay Culkin no abrigo... 

7 comentários:

  1. caralho parceiro ganhar 30 conto e ainda ter que pagar o propio rango e foda, e se o cara quiser arrumar um trabalho com carteira assinada como faz para comprovar residencia, o alberg da algum comprovante de residencia

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    1. Verdade, e ainda o cara tem que ficar em pé o dia todo. O albergue dá sim um comprovante de residência, eu mesmo fiz para me consultar e pegar o diazepan. O preço chega a esse valor por que muita gente quer se submeter a isto. Acho que, mesmo se não estivesse aposentado eu iria trabalhar nesses bicos. Eles aproveitam o desespero das pessoas que estão no abrigo, a verdade é essa.

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  2. Obrigado. Ver de perto essas realidades do nosso Brasil tem me ajudado a crescer muito e a tentar ser uma pessoa melhor, que, no momento, é o principal objetivo de minha vida.

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  3. Julio, você já pensou em ser voluntário em uma instituição para animais, ou fazer um curso de artes (música/pitnura)? Acho que em Sampa tem muito, é uma forma de você ocupar seu tempo, também.
    Adorei o texto,como sempre.
    Abraços

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  4. EXISTE ALGUEM MAIS IMPORTANTE AMIGO QUE PRESCISA DE SEU TRABALHO VOLUNTARIADO..MAIS ASSIM COMO A CRUZ VERMELHA VC TBM TEM QUE SE QUALIFICAR.. PRA PODER EXECUTA ESSE TRABALHO..COMO COLABORADOR DESSE TRABALHO JA A 20 ANOS .. TENHO O PRIVILÉGIO DE TE INDICAR COMO SE QUALIFICAR E AINDA ASSIM SENTIR-SE UM MELHOR ESTADO DE ESPIRITO.. AI EM SÃO PAULO EM CESARIO LANGE BETEL ..MAIS ANTES PRESCISA SE QUALIFICAR EM QUALQUEL SÃO DO REINO DAS TESTEMUNHAS DE JEOVA ..SOLICITANDO UM ESTUDO GRATUITO..E COM APENAS ALGUNS MESES ..SE VC PROGREDIR PODERA IR PRO BETEL EM SÃO PAULO EM CESARIO LANGE.O LAR DE BETEL É LINDO SUPER ORGANIZADO..E TODOS SÃO VOLUNTARIOS NESSE SERVIÇO.. INCLUSIVE EU.. POREM EU EM OUTRA CATEGORIA ..LAR DE BETEL ME PARECE EXATAMENTE O QUE VC ALMEJA..TRABALHO SATISFATORIO MORADIA E VERDADEROS AMIGOS .. ESTOU FALANDO DE AMIGOS QUE VC NUNCA TEVE UM ASSIM..AMIGOS DE VERDADE... SOU MUITO FELIZ NO MEU TRABALHO QUE EXECUTO..QUE TALVES VC TABEM POSSA SE QUALIFICAR SE DESEJAR..JULIO ..ABRAÇÃO..TUDO DE BOM..

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  5. OBSVAÇÃO LA VC TBM PODERA FAZER OTROS CURSOS PRA IR PRA OTRO PAIS EXECUTA O MESMO TRABALHO..SO DEPENDERA DE SEU DESENPENHO..O LAR DE BETEL É GRATUITO E ESTA ABERTO AO PUBLICO EM GERAL DESDE QUE VC SE QUALIFIQUE..PODERA ECONOMIZAR SUA BUFUNFA..ATE VC CONSEGUI COMPREENDER A IMENSIDÃO DESTE TRABALHO...

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    1. Obrigado pela dica. Realmente eu estou pensando em fazer o curso na cruz vermelha e se puder ir par outro país ajudar as pessoas, será melhor ainda. Vou dar uma olhada no Lar de Betel. Felicidades por ai.

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