terça-feira, 8 de abril de 2014

Médicos e remédios - parte 1

    Não sou muito de ficar em cima do muro, por isso achei que era necessário comentar em um post a minha relação sobre os medicamentos e os profissionais da área da saúde mental.  Em alguns grupos do facebook sobre transtornos mentais sempre questiono a eficácia dos medicamentos e os efeitos colaterais. Isso gera uma certa polêmica entre os cuidadores e os profissionais. Já os portadores, em sua maioria, se queixam dizendo que os medicamentos não são essa maravilha toda e que não conseguem trabalhar ou estudar sob o efeitos dos antipsicóticos.
    O meu primeiro contato com a saúde mental foi por volta dos sete anos. A minha avó já desconfiava de que havia algo de errado comigo. Eu também desconfiaria se hoje visse uma criança com o meu comportamento naquela época: humor oscilante, muito curiosos, gostava de ler diversos livros. Às vezes ficava com o olhar vago, sem um pensamento fixo. Também ficava nervoso às vezes, chegando a quebrar uma televisão, acho que ainda era preta e branca. Na escola era brigão. Brigava por qualquer motivo e até sem motivo, me achava o rei da cocada preta. ( de onde vem essa frase?) Mas eu só implicava com os alunos menores do que eu. No dia em que impliquei com um cara maior do que eu e levei uma surra, constatei que esse negócio de querer ser o machão do pedaço não iria dar certo não. Como a minha mãe praticamente não falava nada, vivendo em seu mundo, tive que ir aprendendo a viver com as lições que a própria vida nos ensina.
    Mas voltando ao meu primeiro contato com a saúde mental, fui levado para um hospital em Belo Horizonte, para fazer um eletroencefalograma.
    - Vamos ver como que "tá" a cabecinha do Zico?- perguntou o médico tentando me agradar. E conseguiu, já que o Zico para mim é o melhor jogador que já vi jogar.
     Eu não tinha a menor noção do que iria fazer naquele hospital, mas comecei a ficar tenso quando, já na maca, a enfermeira começou a passar um gel em minha cabeça e a colocar aquele monte de fiozinhos. Cheguei a pensar que iria levar um choque para consertar as minhas maluquices de criança.
    - Não precisa ficar apertando os dentes...- me pediu a enfermeira.
    - Ué, como ela sabe? - me perguntei, espantado.
    No final do exame, saiu do aparelho aquelas folhas com as ondas cerebrais. Provavelmente devia estar tudo em ordem, já que depois desse episódio não voltei mais ao hospital.
    E fui levando a minha vida, com as minhas maluquices inofensivas. Não vou falar todas, mas uma que tinha era dizer que tinha um irmão gêmeo para os meus colegas da velha rua Sertões, em Belo Horizonte. Mas não era uma amigo imaginário, eu era os dois irmão gêmeos! Um era mais calmo, sério, certinho e sempre andava arrumado e com o cabelo penteado. Já o outro era exatamente o contrário: agitado, falante, e cabelo todo bagunçado. Um vivia falando mal do outro. Cada dia eu me portava como um irmão diferente. Às vezes até no mesmo dia eu fazia essa troca de identidade, trocando de roupa e incorporando o outro irmão.
    E tive muitas outras maluquices, mas nada de grave. A maioria mesmo era em relação aos pensamentos, não demonstrava externamente o que se passava na minha mente. Mas deu para ir levando a vida, pensando que talvez eu fosse uma pessoa extremamente tímida e um pouco esquisita também.
    Estudei eletrônica e nunca tomei bomba. As professoras me achavam um menino inteligente, mas eu estudava apenas o suficiente para passar de ano e nunca tomei bomba.
    Tive que abandonar o curso de eletrônica no último ano por falta de grana e comecei a trabalhar como operador de som, por volta dos 17 anos. Era algo que eu fazia com prazer, não me importando em virar noites e mais noites carregando caixas de som e ouvindo aquela zoeira toda.
    Mas aos poucos fui me tornando uma pessoas desconfiada e arredia, e os surtos começaram. O segundo foi muito intenso. As alucinações foram tão reais para mim que abandonei o emprego e fui parar nas ruas de BH, depois de uma frustada tentativa de auto extermínio. Fiquei nas ruas de BH por um período de cinco meses ou mais, até estar totalmente recuperado, sem o uso de medicamentos. Mas, analisando tudo o que me havia acontecido, tinha chegado a conclusão de que era necessário consultar urgentemente um psiquiatra, pois desconfiava que havia algo de errado comigo. Cheguei a pensar se alguém tinha colocado alguma droga em algo que havia comido ou bebido.
    Essa minha consulta durou cerca de sete minutos, acreditem! Foi pelo SUS, e, havia muitas pessoas para serem atendidas naquele dia. O psiquiatra me perguntou o que eu tinha:
    - Se soubesse não estaria aqui né?- respondi, um pouco irritado com uma pergunta tão estranha.
    - O que te aconteceu? - foi sua segunda pergunta.
    Ai sim fiquei agitado e confuso, como iria explicar tudo o que havia me acontecido em tão pouco tempo? Então, depois de alguns minutos, a receita e o diagnóstico estavam prontos. 25mg de melleril e o diazepan para me ajudar a dormir.
    Para mim o erro desse psiquiatra não foi ter perguntado como eu estava naquele momento. Estava me sentindo muito bem, havia sido ajudado por muitas pessoas, o que ajudou a espantar os inimigos que estavam em minha mente. Já não tinha receio de conversar com as pessoas e não estava mais com as paranoias. Para se ter uma ideia, havia engordado 20kg em um mês. Havia noites que tinha que agradecer a comida que me era oferecida.
 


    A única vez que tinha visto a palavra esquizofrenia foi quando peguei no disco de vinil da banda mineira Sepultura. Era o nome do álbum e a capa mostrava uma pessoa com uma camisa de força. 
    - Será que tenho esquizofrenia? - cheguei a perguntar para o psiquiatra.
    - É, tem alguns elementos...- me respondeu com uma frieza que chegava a me incomodar, pois queria respostas e soluções para o o meu problema. 
    Depois da consulta, eu me cheguei a fazer esta pergunta . E a resposta foi negativa. Eu não achava que havia necessidade de ficar em uma camisa de força. Não era agressivo, não era um louco, não rasgava dinheiro e também não comia excrementos. Essa era a ideia que eu tinha da esquizofrenia na época, por isso não critico as pessoas que ainda hoje pensam dessa forma. Cabe a nós mesmos portadores, lutar para que a falta de informação ainda reine nos dias atuais. Claro que os profissionais da área de saúde mental também poderiam fazer algo, além de nos medicar. 
    Na época havia procurado algumas igrejas. Pensava que o meu problema era de origem espiritual. Mas, quando ia na frente do altar, mil caiam ao meu lado esquerdo e um monte a minha direita, mas eu não caia.
cheguei a pensar que o meu problema fosse espiritual
     - É, talvez o demônico que esteja em mim seja muito forte e eu precise de um exorcista...- cheguei a pensar, talvez influenciado pelos filmes de terror que havia visto na infância. 
    Essa história é longa e confusa, por isso resolvi escrevê-la em um livro.
    Mas foi assim que me tornei dependente em medicamentos. Será que iria surtar novamente sem os medicamentos? Sinceramente não sei...
     A segunda parte desta relação com os medicamentos e os profissionais no próximo post. 

Algumas músicas são como uma poesia, aliás, a letra é uma poesia, que foi "musicada" pelo grande José Ribamar Coelho Santos, mais conhecido como Zeca Baleiro,


Zeca baleiro 
Nalgum lugar

Nalgum lugar em que eu nunca estive

Alegremente além de qualquer experiência
Teus olhos tem o seu silêncio
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos nalgum lugar
Me abre sempre, pétala por pétala
Como a primavera abre, tocando sutilmente, misteriosamente
A sua primeira rosa, sua primeira rosa



Ou se quiseres me ver fechado, eu e minha vida
Nos fecharemos belamente, de repente
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda parte
Nada que eu possa perceber nesse universo iguala
O poder de tua intensa fragilidade, cuja textura
Compele-me com a cor de teus continentes
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respiras
Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende que a luz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas



Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre
Só uma parte de mim compreende que a luz dos teus olhos
é mais profunda que todas as rosas
Ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

14 comentários:

  1. Parabéns pelo post. Gostei bastante da sua narrativa. Parabéns também pela escolha da música/poesia do Baleiro. É linda!
    Um abraço de uma bipolar,
    Letícia

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    1. Obrigado por participar do blog, somos então companheiros, pois os sintomas são bem parecidos dos nossos problemas. O cd do Zeca chamado "Líricas" tem outras poesias musicadas, é muito bom mesmo

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  2. Julio,

    Acredito que essa maneira leve de encarar a questão da esquizofrenia, não a enchergando pior nem melhor do que é, seja uma forma bem amadurecida de lidar com os fatos como eles realemente se apresentam, isso encontramos nos seus textos. Acho que a coisa é bem por ai.

    Parabens pelo otimo trabalho.

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    1. Obrigado André Correia, realmente senti que a esquizofrenia era na maioria das vezes citada de uma maneira muito ortodoxa e séria. Não sou contra, mas por que não abordar o assunto de uma maneira mais leve e com um pouco de humor, apesar de ser um assunto sério?

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  3. sou leitor do blog faz algum tempo e é a primeira vez que comento. Quando eu tinha uns 15 ou 16 anos fiquei deprimido e fui medicado com paroxetina contra minha vontade, falaram que era uma droga milagrosa que equilibraria a quimica do meu cerebro mas fiquei muito pior, tive surtos, fiz planos para matar minha familia, matar meus colegas de escola e depois me suicidar, o que salvou minha vida e a das outras pessoas foi conhecer o trabalho de pessoas como Robert Whitaker, Peter Breggin, David Healy, Thomas Szasz, Marcia Angel, e muitos outros que alertaram sobre os perigos dessas drogas psicotropicas, e sobre a falta de base cientifica dos diagnosticos psiquiatricos. Ps desculpe pelo comentario grande, pelos erros de portugues, e ate a proxima :) :) :)

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    1. Fique à vontade para comentar da maneira que achar melhor. Realmente muitas pessoas pensam que alguns medicamentos são milagrosos, como aconteceu com a fluoxetina há alguns anos atrás, era tal a pilula da felicidade e tals. Depois irei pesquisar as pessoas que você citou. Obrigado por participar.

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  4. Recentemente descobri algumas musicas que alertam sobre os perigos dessas drogas uma delas se chama "Bulshit--Anti-Psychiatry and Anti-Medication Song" disponivel no youtube no canal do Daniel Mackler. Parabens pelo blog. :) :) :)

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    1. Obrigado pela participação. Dei uma olhada no canal mas infelizmente o fone não está funcionando. Como é difícil achar uma lan com fones que estejam funcionando! Depois irei ouvir em outra lan house.

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  5. Amigos, indo ainda pela linha da desmistifição com responsabilidade, não existem remedios milagrosos. A medicação não é tudo, mas tem sem duvida sua importancia. Tambem uma coisa que podemos perceber, quando passamos a lidar um pouco com o problema é que os remedios são sempre problematicas no principio até se tornarem um indispensavel recurso na estabilização da vida do paciente e de seu circulo social.

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  6. André, respeito sua opiniao mas parece que vc acredita que essas drogas psicotropicas só causam problemas nas primeiras semanas e que depois tudo fica bem, é exatamente isso que a industria medica/farmaceutica quer vc acredite. Se usadas por muito tempo essas drogas podem causar dependencia, problemas no figado, obesidade, acatisia tardia, problemas de memoria, impotencia sexual, convulsoes, tremores, movimentos involuntarios, psicose toxica, com o passar do tempo parece que a pessoa foi lobotomizada quimicamente.

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    1. Amigo Anônimo,
      Não quero deixar a impressão que sou um defensor dos psicotropicos.
      A unica coisa que eu vou afirmar é que não tem como ser radical em relação a usar ou não remedios na medida que cada caso, é um caso unico.
      Mas é claro que reconheço a importancia de opiniões como a sua, na medida que a sociedade enlouquece as pessoas e depois só quer dopa-las.

      Um abraço.

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  7. Infelizmente cai nessa de ter que usar drogas; acho que aguentei por muito tempo, até que estourou (como todo mundo). Hoje, lendo mais sobre o assunto, percebo que sempre tive sintomas, mas para mim eram normais. A sensação de irrealidade sempre foi constante, mas achei que todo mundo vivesse assim. Fora que eu tenho dúvidas existenciais desde que tenho uns 4 anos (desde que me lembro) e preocupações com o futuro desde essa época! Nunca fui a psicólogo, mas acho que será meu próximo passo :/. Não consigo ter uma vida norma - não digo no sentido de fazer o que os outros fazem, mas sim no sentido de me sentir normal, não ficar pensando em doença ou sobre a existência o dia todo...acho que você entende. Agora não deu mais, e aconteceu o que sempre temi: depender de drogas. Luto agora para não ter que tomar doses mais altas (me fazem extremamente mal), mas é difícil que eu fique com uma "subdose" por tanto tempo,vamos ver. Controlo a ansiedade (um tanto) mas a depressão não passa - eu ODEIO viver... só não me mato ainda por meus familiares, mas não vou viver muito, sei até como irei acabar com essa prisão maldita....
    Com o que você tentou se matar? Com remédios?

    ah, minha música agora é a Lanterna dos Afogados - é tão linda!!!
    Adoro o seu blog, sempre continue com ele!

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    1. Amigo Anonimo,

      Ansiedade, depressão, duvidas existenciais são um problema de todos, a diferença é a forma como cada um lida com essas coisas. Enquanto algumas crianças de 5, 6 anos tiram de letra, macacos velhos como eu, voce e tantos outros pelo mundo nos debatemos com isso pela vida inteira. E tome ansiedade e desconforto.

      É horrivel eu entendo.

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  8. No momento está sendo impossível, pois estou em um albergue, mas sei que vou conseguir voltar a morar em um quarto e comprarei as coisas que eu tinha de novo, ai irei gravar alguns vídeos, apesar de gostar mais de escrever mesmo. Obrigado por participar do blog

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