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Mostrando postagens de Abril, 2014

E agora Júlio?

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Último dia no abrigo. De manhã tomo o tradicional café com leite e pão com manteiga, que parece que não é dormido, e sim hibernado, mas dá pare descer. Na saída entrego o crachá, a chave do maleiro e a toalha. O porteiro me deseja boa sorte e na rua fico sem saber qual destino tomar.
    Fiz poucas amizades neste lugar, por isso foi fácil o processo de despedida. Claro que irei sentir saudades das acomodações do abrigo, que sem sobras de dúvida é o melhor do Brasil, classificado com quatro estrelas pelo viajante maluquinho shasuahsushauhsas
    Tirando o vizinho do beliche, não conversava com quase ninguém no arsenal. A verdade é que sou anti social mesmo, reconheço, e não me encaixo em tribo nenhuma, a não ser os da tribo dos sem tribo que se sentem diferentes de todo mundo.
    O arsenal, por ser tão grande, a distância entre as pessoas se torna maior. Lá tem a tribo da galera que joga o futebol na quadra do abrigo, a dos mais idosos, a da galera que só quer saber da erva danada, a do…

O albergue: lado B

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No último dia 15 fui chamado para conversar com a assistente social do abrigo. O motivo era apenas para me lembrar que o meu prazo estava se acabando. Como sou aposentado, ganhei apenas três meses de permanência, enquanto a maioria ganha seis meses, alguns ficando até mais tempo.      Quando cheguei ao abrigo em janeiro achei justa a decisão, afinal tenho a minha renda, apesar de não ser grandes coisas. Mas quem mandou me endividar? Esses três meses dariam para economizar uma boa grana, pagar o meu empréstimo com o INSS e até comprar uma TV. Também não acho justo ocupar uma vaga de quem está em uma situação mais delicada do que a minha.      Mas com o tempo vi que as coisas não funcionavam exatamente dessa maneira dentro do abrigo. Encontrei um cara de BH que é aposentado e que estava na casa.       - É só dizer na entrevista que você não é aposentado cara. - ele me disse.     Não gosto de mentir, ficar inventando histórias. A assistente social faz inúmeras perguntas sobre nossas vid…

O albergue

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- Primeira chamada! Bom dia senhores! - nos acorda o monitor que fica no turno da madrugada.
    São exatamente cinco horas e cinco minutos da manhã. O sol ainda não raiou e aproveito então para dormir até a segunda chamada, às seis horas da manhã. Metade da galera já se levanta, alguns até às quatro da manhã já estão se preparando para mais um dia no batente.
    Esse intervalo entre as duas chamadas é o tempo que mais senti voar até hoje na minha vida. Passa num instante. É mais rápido do que o tempo que passa quando nosso time está perdendo um jogo decisivo de final de campeonato.
     Raramente a segunda chamada passa das seis horas e cinco minutos. Acordar nesse horário sem um objetivo definido é um pouco chato, sem sentido. Fico pensando no que fazer durante o dia. Como temos o prazo de sair até às seis horas e quarenta e cinco minutos, dou mais uma cochilada de dez minutos.
    Felizmente o horário de verão já se foi e mais felizmente ainda que o horário de verão é no verão né?…

Médicos e remédios: parte 2

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-Obs: como este post é uma continuação do anterior, é aconselhável que leiam a primeira parte para se entender esta segunda parte.

    Como a psiquiatra que havia consultado pela primeira vez não era muito paciente com o paciente maluquinho aqui, resolvi seguir o tratamento no Hospital Raul Soares, no bairro Sta. Efigênia, também em Belo Horizonte.  Também não estava muito satisfeito com o tipo de atendimento que a psicóloga estava me dando: não me informava nada sobre o que eu poderia ter, às vezes me tratando como se fosse uma criança. Não que ela não fosse atenciosa, não era isso, o que eu queria no momento era informação apenas.
    Já no Hospital Raul Soares o atendimento durava cerca de meia hora, o que era um alívio e tanto! Como é bom entrar em um consultório de um psiquiatra e poder conversar normalmente! Com o primeiro psiquiatra, a sensação na consulta é que eu estava falando no celular e que os créditos estavam acabando.
    E os médicos do Raul Soares eram bem mais atencio…

Médicos e remédios - parte 1

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Não sou muito de ficar em cima do muro, por isso achei que era necessário comentar em um post a minha relação sobre os medicamentos e os profissionais da área da saúde mental.  Em alguns grupos do facebook sobre transtornos mentais sempre questiono a eficácia dos medicamentos e os efeitos colaterais. Isso gera uma certa polêmica entre os cuidadores e os profissionais. Já os portadores, em sua maioria, se queixam dizendo que os medicamentos não são essa maravilha toda e que não conseguem trabalhar ou estudar sob o efeitos dos antipsicóticos.
    O meu primeiro contato com a saúde mental foi por volta dos sete anos. A minha avó já desconfiava de que havia algo de errado comigo. Eu também desconfiaria se hoje visse uma criança com o meu comportamento naquela época: humor oscilante, muito curiosos, gostava de ler diversos livros. Às vezes ficava com o olhar vago, sem um pensamento fixo. Também ficava nervoso às vezes, chegando a quebrar uma televisão, acho que ainda era preta e branca…

Paranoica Mente

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Há alguns dias atrás fui há uma consulta no posto de saúde do parque da Mooca. Não posso ficar muito tempo sem o meu, o nosso pan de cada dia.
    O médico foi bem sem educação logo no início:
    - Qual droga você usa?- perguntou, logo de cara.
     Respondi educadamente que não usava droga nenhuma, fazendo um enorme esforço para não dizer outras coisas. Deu vontade de dizer que a única droga que usava era o diazepan mesmo, que foi receitada por um médico sacana que sequer me informou que o medicamento causava uma enorme dependência.
    Quando disse que o motivo de estar ali era apenas para pegar a receita do diazepan, o médico começou a me fazer um monte de perguntas, chegando a ser até um pouco inconveniente. Para que tanta burocracia para pegar um medicamento que se toma há mais de doze anos? Será que não dá para apenas trocar a receita antiga por uma nova? O posto de saúde já vive lotado, não tem cadeiras, vive cheio de pernilongos, temos que esperar cerca de três horas para s…