O albergue- parte 2


    Depois de cerca de meia hora, o funcionário do abrigo apareceu. Deu um friozinho na barriga ao ver os documentos separados em suas mãos, provavelmente eram os que estavam selecionados e os que não poderiam entrar. Chamou umas vinte pessoas e, depois de entregar os documentos, disse que eles não iriam ficar na pernoite. Que alívio! Pelo menos não iria passar aquela noite nas ruas de sampa. Mas a minha permanência ainda dependeria de uma entrevista com uma assistente social na parte da manhã.
    Entramos para o abrigo na ala do pessoal que fica apenas para a pernoite. A primeira impressão foi das melhores. Tudo muito limpo, inclusive o banheiro, que tem um ótimo acabamento.
    Fomos jantar em um enorme refeitório. Comida boa: arroz soltinho, feijão, moela e alface. Estava sem tempero, mas acho que isso é uma regra, por causa dos hipertensos.
    Por volta das onze horas fomos dormir. Parece ser um padrão, mas todos os albergues que visitei, com exceção do DEIC, tem dez beliches. O lençol estava bem limpo e com cheiro de que foi lavado há pouco tempo. Assim que comecei a pegar no sono, um nigeriano me cutucou e começou a fazer gestos. Deu para perceber que ele queria dormir naquela cama e, reparando em minha volta, percebi que só havia nigerianos no quarto. Tive que sair e fiz sinal de positivo para o cara. Fui expulso do quarto por ser branco. Que discriminação!
    Acordamos às sete horas da manhã e tomamos café com leite. Tinha um pouco de água misturada, mas estava bom. Para comer club social de pizza, sabor mussarela ou queijo, não me lembro direito. Com o sol aparecendo, pude  perceber como é grande esse albergue, com vários prédios de dois andares espalhados pelo espaço, me fazendo lembrar o quartel do exército em Belo Horizonte. Esse lugar servia antigamente de abrigo para os italianos que chegavam ao Brasil em busca de trabalho nas lavouras de café, quando a escravidão foi abolida do Brasil.
    Depois do café, a entrevista com a assistente social. Não estava com o frio na barriga como no dia de ontem. Estava tranquilo. Se me aceitassem no abrigo, beleza. Caso contrário, iria procurar outro ou então voltar para BH. Não iria inventar nada na entrevista e nem fazer drama. Iria contar a verdade, apenas a verdade. Não sei fingir ou mentir, é muito fácil descobrir quando estou fazendo isto. Claro que faço isso de vez em quando, não sou nenhum santo né?
    Quem me atendeu foi uma loirinha, muita educada e com uma voz suave. Acho que toda assistente social é treinada para ter esse tipo de comportamento. Até hoje nunca vi uma assistente social dizer:
    - E ai, fala o que você quer logo por que eu tenho mais o que fazer!
    Tive que contar quase minha vida toda, sobre a infância, se já usei drogas, etc. No final ganhei três meses no abrigo. Não era o que queria, mas foi bom. Gostaria de ficar por ali até depois da copa do mundo. Muitos moradores de rua estão dizendo que o negócio vai ficar tenso para quem insistir em ficar nas ruas nas cidades sede da copa. Dizem que a polícia vai fazer um "convite" para o morador de rua ir para um albergue... Se o cara não aceitar...
    Mas tudo bem, esses três meses vai ajudar a pagar parte do empréstimo que fiz. Logo depois do almoço um funcionário nos levou para fazer uma tour pelo abrigo. Conhecemos os alojamentos para os 1150 abrigados, a lavanderia, a sala de cinema, a biblioteca, a sala de jogos e outros lugares mais. Em comparação a outros albergues, esse é um hotel cinco estrelas! A roupa de cama é trocada duas vezes por semana, assim como a toalha. Assim vou acabar ficando mal acostumado. Por onde andei, vi que os usuários do abrigo são muito respeitados, e tratados com atenção. Isso parece devolver um pouco de esperança e aumentar a auto estima das pessoas.
    Logo após fomos levados para uma sala, onde foram passados slades com as regras da casa: não chegar atrasado e nem bêbado, não sair na porrada com ninguém e sempre respeitar os horários. Acordas até as seis da manhã, tomar café até às seis e meia e sair do abrigo até as seis e quarenta. Ainda bem que todo usuário tem um guarda volume e finalmente consegui me ver livre da mochila. Há horário também para se entregar a toalha e as roupas na lavanderia, para usar o maleiro, para jantar, para usar a biblioteca, enfim tudo é muito organizado. Afinal são 1150 pessoas morando em um mesmo lugar.
    Como era o nosso primeiro dia não foi preciso sair do albergue. A noite conheci o meu quarto. Havia uns 40 beliches ou mais, mas tudo muito bem organizado e limpo. A parede parecia que foi pintada a pouco tempo. A assistente social não poderia ter escolhido uma cama melhor para mim: na parte de baixo e bem no canto lá no fundo. O silêncio impera no quarto, mesmo às oito horas da noite. Quem quiser conversar e ouvir música é convidado a se retirar do quarto, realmente tudo é muito organizado e os usuários parecem respeitar as normas da casa.
   Esse foi o meu primeiro dia no abrigo. Daqui para frente terei que passar o dia nas ruas de São Paulo. Não estou falando mal da cidade, que ela não preste, mas a verdade é que nunca cheguei a querer conhecer essa cidade. Não é o meu estilo, sou mais de lugares tranquilos em que a natureza ainda não foi totalmente destruída. Perguntas surgem em minha mente: O que farei para ocupar a minha mente? Será que encontrarei um local tranquilo para ficar um pouco comigo mesmo?

Comentários

  1. Olá,Julio,estou tentando postar um comentário,mas não estou conseguindo...vou insistir! Abraços,Regina

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode postar a vontade, é que agora os comentários são lidos por mim. Antes no início não era assim, mas depois que comecei a receber ofensas tive que dar uma maneirada. Mas pode comentar o que quiser, sinta-se a vontade, só não publico ofensas mesmo.

      Excluir
  2. tô achando interessante conhecer essa realidade, como o mundo é imenso e como vc é corajoso!

    sorte aí!

    ResponderExcluir
  3. Obrigado, acho que vou acabar acreditando que sou corajoso, rsrsrs Muita gente fala isso, o engraçado é que tenho coragem para certas coisas perigosas, mas para algumas coisas mais simples eu tenho bastante medo. Obrigado pela visita ao blog e vou continuar falando um pouco sobre esse mundo que estou vivendo atualmente.

    ResponderExcluir
  4. http://oindefinidoser.blogspot.com/

    Viva amigo,

    Gostei das suas palavras. A sua realidade é dura e ao mesmo tempo você não se conforma nem para. Força com isso!
    Eu estou a fazer tratamento médico e tem ajudado bastante, a confusão mental é que não desaparece nem a fraca memória.
    Passe pelo meu blog

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, é com prazer que divulgo o seu blog aqui, acho que temos que nos unir para ajudar uns aos outros e assim aumentar o número de pessoas que tenham um conhecimento sobre as patologias da mente em geral. A minha memória de manhã principalmente fica meio fraca, acho que o efeito do diazepan tem que sumir completamente, é que ultimamente tenho que acordar muito cedo, em relação ao que eu poderia acordar antes. Pode ser o ritmo biológico também, acho que funciono melhor a tarde e a noite mesmo. Tudo de bom para vc e que o tratamento dê certo por ai.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Quetiapina

Reflexões diárias do dia a dia

Remédios: tomá-los ou não tomá-los?