Difícil adaptação


  A noite foi muito quente por aqui, suei muito na cama, sem fazer nada. Mas  foi muito tranquilo. Depois das dez horas da noite silêncio total no abrigo. Não há guardas municipais e nem seguranças para manter a ordem no local. Apenas os monitores que exercem essa função primordial. Chego a me perguntar, como, em um local com mais de mil e cem pessoas dividindo o mesmo espaço, a ordem é mantida sem a presença de policiais.
    São pessoas de todos os lugares do Brasil e muitos estrangeiros: alguns vieram de Angola, Haiti, Congo, entre outros países.
    Depois de uma breve reflexão chego a conclusão de que a razão da ordem no abrigo só pode ser uma: ninguém vai ser bobo de perder a vaga em um albergue tão bom. Não duvido que seja o melhor e o maior do Brasil A alimentação é de qualidade, as instalações são muito boas, roupas de cama trocadas duas vezes por semana, inclusive a toalha.
    De manhã tomamos um café com leite um pouco aguado e comemos club social de pizza, sabor mussarela. Esse troço custa uns cinco reais nas redondezas, tem cara que até vende os biscoitos para os ambulantes.
    Já na rua, não sabia para onde ir, o que fazer para passar o meu tempo. À toa, começo a só pensar em comida, mas só besteira mesmo: brigadeiro, pudim, chocolate, e tortas. Ainda bem que parece que não existem tantas padarias em sampa como em BH. Há muitas lanchonetes e barzinhos, mas a maioria vende salgados e bebidas.
    Resolvo conhecer a praça da Sé. É mais uma curiosidade do que animação mesmo. São Paulo não é para mim, não tem nada haver comigo, não é o meu estilo de vida. Pego o metrô que custa três reais,( o de BH custa 1,60!). Mas devemos reconhecer que o metrô de São Paulo faz o de BH parecer uma carroça, além de ser mais amplo e confortável. Até o som é mais nítido.
    Chegando à Sé me impressiono com o tamanho da catedral. Havia muitos policiais e moradores de rua pelas redondezas.  Alguns se levantam e lavam seus rostos na fonte que fica no meio da praça.
   Espero um tempo até dar oito horas da manhã e sair a procura de uma lan house aberta. As ruas começam a ficar movimentadas demais para o meu gosto e, após uma breve procura encontro uma boa lan house no Glicério. Sou o primeiro cliente e fico meio que refugiado por ali até a hora do almoço.
    Não encontro um self service como em BH. Comida à vontade por sete reais, só a carne que é regulada: apenas um pedaço. Assim dá para encher o prato com saladas e verduras e ter uma alimentação mais saudável. Aqui em sampa encontrei apenas o bom e velho pf que varia entre 12 e 18 reais. O prato vem com um pedaço de carne, batatas fritas, arroz e feijão. Analisando os preços das coisas por aqui, chego a me perguntar se realmente economizarei em São Paulo. A única coisa barata que encontrei por aqui foi chocolate em uma loja de doces. As barronas de sufllair custam apenas dois reais. A de diamante negro custa três reais! Chego a me perguntar se o chocolate não é falsificado, mas, ao experimentá-los chego a conclusão de que são originais(palavra de chocólatra assumido!). Depois fiquei sabendo que os donos das lojas conseguem comprar esses chocolates a baixo custo por que estão prestes a vencer. Bem, o meu estômago até hoje não acusou nada de errado.
    Os dias seguintes foram quase que exatamente iguais. Lan house na Sé, chocolate e besteirada para comer. Nenhum sacolão por perto para comprar frutas. Não estou com vontade de conhecer o Ibirapuera, a vida cultural, os pontos turísticos da cidade. Quero apenas encontrar um cantinho para ficar sozinho, pelo menos uma parte do dia.
    Fiquei sabendo do parque da Mooca, mas foi uma decepção conhecê-lo. Poucas árvores, pássaros, enfim, a natureza. O espaço é ocupado por uma sub prefeitura, um CAPS infantil, um posto de saúde entre outras coisas. Já estava ficando deprimido, sem saber para onde ir, e o que fazer. A comilança só aumentava a cada dia.


    Dessa maneira não iria economizar grandes coisas para voltar à BH. Quero e sonho ter uma TV de LED de 32 polegadas e um notebook com saída HDMI. Muitos poderão pensar que sou materialista demais, que não penso em outras coisas. Eu sou um cara que não frequenta baladas, e quase não saio de casa. Por isso quero ter de volta as coisas que eu mesmo vendi, mas que não me arrependo nunca de ter feito. Sair do meio das drogas de Ipatinga foi a melhor decisão naquele momento de minha vida. A televisão para mim não é somente um monte de componentes eletrônicos comandados por um controle remoto. Ela me proporciona uma variedade muito grande de emoções e sentimentos que ultimamente tenho evitado de ter com as pessoas. Gosto de filmes e confesso que já chorei e ainda choro no final de alguns deles. Os programas de humor, os shows e outras coisas que ainda existem de bom na TV aberta me fazem sentir bem em um quarto não muito grande. Para quem é do signo de libra e gosta de artes, a TV é imprescindível.
    Já o notebook é a minha ligação com o mundo exterior. A internet não é algo ruim, como muitos pregam por ai. Ela pode ser usada tanto para o bem como para  o mal. Eu mesmo, com o blog, tento de alguma forma ajudar as pessoas a entenderem um pouco melhor essa patologia tão complicada. Pelos comentários, acho que faço isso, pelo menos tento. Sem contar que uma net é no final uma economia, principalmente para quem gosta de música, livros, jornais, etc. Sem contar que ela foi de fundamental importância para o estudo e  o melhor conhecimento da patologia, o que ajudou e muito a me conhecer melhor.
    Voltando à sampa, os primeiros dias estão sendo complicados. Nada para se fazer, nenhum lugar tranquilo para ficar em paz, apenas fiquei andando perdido de um lado para outro nesta selva de pedra, entre um monte de gente apressada que mal para na rua para te dar uma informação.

     Esse vídeo tem tudo haver com a minha atual situação, estou triste, tristinho, mais solitário do que o paulistano. Parece que as grandes metrópoles tem essa característica, de fazer com que as pessoas se sintam sozinhas, mesmo em meio a multidão.


Eu tava triste, tristinho
Mais sem graça que a top-model magrela
Na passarela
Eu tava só, sozinho!
Mais solitário que um paulistano
Que um canastrão na hora que cai o pano
Tava mais bobo que banda de rock
Que um palhaço do circo Vostok
Mas ontem eu recebi um telegrama
Era você de Aracaju ou do Alabama
Dizendo: Nêgo, sinta-se feliz
Porque no mundo tem alguém que diz
Que muito te ama!
Que tanto te ama!
Que muito, muito te ama
Que tanto te ama!
Por isso hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Hoje eu acordei
Com uma vontade danada
De mandar flores ao delegado
De bater na porta do vizinho
E desejar bom dia
De beijar o português
Da padaria
Mama! Oh Mama! Oh Mama!
Quero ser seu
Quero ser seu
Quero ser seu
Quero ser seu papa!

Comentários

  1. Oi!
    Sou uma frequentadora assídua do seu blog. Gosto muito do que escreve, da sua visão das coisas.
    Bem, queria te dar uma sugestão de como passar ao menos um dos seus dias em São Paulo. Na estação Carandiru do Metro tem uma biblioteca bem legal. O espaço é bem amplo e tem lugar para sentar, descansar, mesinhas, etc. Lá você poderá usar a internet, ler livros, revistas, jornais e mais, pode pegar um aparelho emprestado na propria biblioteca, escolher um filme (tem muitos) e assistir. A tela é pequena, mas dá para escolher uma poltrona e ficar curtindo filmes. Ah, e olhe a programação, tem sempre umas atividades, como curso de xadrez, etc.
    http://bibliotecadesaopaulo.org.br/
    Daí você pode almoçar no Bom Prato de Santana. A comida é boa e balanceada. Dá para ir a pé, não é perto, mas dá para ir numa boa. Chegue cedo e bom apetite!
    http://www.guiadedireitos.org/index.php?option=com_content&view=article&id=824&Itemid=191
    Abraço

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    Respostas
    1. Obrigado pelas dicas Monica. Vou dar uma passada nesse parque e na biblioteca. A net da biblioteca do parque da Mooca é bem lenta, mal dá para ver os emails. Abraços

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