terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Andanças: um ano

 
    Há cerca de um ano atrás sai do conforto do meu quarto na cidade de Ipatinga e resolvi fazer as minhas andanças pelo Brasil afora, mais precisamente pela região Sudeste.
   Algumas pessoas provavelmente acharam que eu estava fazendo uma maluquice, ao sair por ai andando meio sem destino com uma mochila e uma barraca nas costas.
    Mas não foi uma decisão precipitada, pensei muito antes de tomá-la. Ipatinga é um ótimo lugar para se viver. Fui muito bem recebido nesta cidade e sou muito grato pelo atendimento que recebi, principalmente nos primeiros anos, quando ainda estava surtado e pouco sabia acerca da esquizofrenia. A paciência do pessoal do CAPS foi de fundamental importância na minha parcial recuperação.
   O meu quarto era bom, com piso em cerâmica e bem ventilado. A janela dava para a varanda e assim era possível amenizar um pouco o forte calor que é costumeiro se fazer no vale do aço. Tinha uma tv de 20 polegadas da CCE(de tubo), um bom PC, um home theater e um frigobar. Também tinha uma cama com um colchão novinho que havia comprado há pouco tempo. Também havia reformado o meu quarto, lixando, colocando massa e pintado as paredes, com a tinta que ganhei do Cristiano, um vizinho super gente boa que havia por lá.
   Era bem quisto pela vizinhança. Tinha fama de bom pagador, e, por isso, podia comprar fiado em dois restaurantes, no barzinho da esquina, no depósito de material de construção, no armazém  e na vizinha que vendia chup chup.
    Era uma vida relativamente tranquila, apesar de morar próximo ao novo centro, onde se situa a crackolândia de Ipatinga. Só saia de casa para almoçar e às vezes frequentava o centro de convivência para portadores de sofrimento mental da cidade.
   Não era a vida que pedi a Deus, mas também não podia reclamar. As coisas poderiam ser piores. Se não fosse a ajuda de outras pessoas, talvez estaria por ai morando nas ruas sem nenhuma renda ou então nem estaria vivo, pois passei por situações perigosas nos meus surtos.
    Mas infelizmente o crack vem se tornando um grave problema não só de saúde e de segurança pública, como social também. Essa droga atualmente não é só consumida nas grandes capitais, já está trazendo enormes problemas em muitas cidades do interior de alguns estados brasileiros. E em Ipatinga não está sendo diferente. O crack, apesar de ser uma droga barata, vem sendo consumido por pessoas de outras classes sociais.
Ércio Quaresma, advogado do goleiro Bruno, é filmado usando crack em um fórum de Belo Horizonte

     A situação no local onde morava se tornou insustentável. Sabia que um dia iria perder a paciência com aquele inferno todo e poderia ter um atrito com algum usuário que estivesse perturbando a ordem. Várias noites de sono perdidas, brigas entres os crackudos, chegando ao ponto de um atear fogo no quarto de outro. Esta droga traz para o local onde é consumida tanta confusão que nem os traficantes das comunidades do Rio de Janeiro aguentaram. Eles decretaram o fim da venda do crack, pois os usuários de crack cometiam roubos e assim acabava chamando a atenção da polícia.
http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2012/06/traficantes-decidem-parar-venda-de.html

    O usuário de crack, quando está sentindo a falta da droga, chega a roubar pequenos obejetos, nem o meu chinelo que costumava deixar do lado de fora escapou. Fora a música alta. Quer dizer, um certo "estilo musical" que é chamado de funk. É uma afronta aos verdadeiros músicos que passaram vários anos estudando, chamarem aquilo de música. Na minha opinião, música tem que ter nota musical. Não sou moralista e não sou de ficar dizendo o que é certo ou errado, o que é bom ou ruim. O problema de todo funqueiro é que ele acha que todo mundo tem o mesmo gosto que ele, e por isso ainda não sabe o que é um fone de ouvido.


está virando moda funkeiro usar essa caixa de som pendurada no pescoço

    Então, por causa dessas questões resolvi fazer as minhas andanças. Era algo que estava latente em mim e, se nunca havia feito isso, foi por falta de coragem mesmo. Sempre gostei de viajar, e na minha profissão isso era uma constante. Depois de aposentado, fiquei muitos anos trancado em meu quarto. Me lembro que, há cerca de uns vinte anos atrás, havia lido uma matéria sobre o caminho do padre Anchieta no Espírito Santo. Li a matéria em uma revista e  me imaginei caminhando pelas praias, a brisa no rosto, conhecendo novos lugares. Mas ficou só na vontade mesmo.
    Creio que as experiências que tive durante e após os meus surtos mudaram e muito a minha maneira de encarar as coisas e me fizeram uma pessoa mais forte. Aprendi muita coisa e tirei boas lições dos momentos difíceis pelos quais passei. Vi então que era a hora e o momento de fazer algo que sempre eu pensei em fazer: as andanças.
    Acredito muito em sonhos, e esse que tive foi fundamental para que eu tomasse a decisão final. Sonhei certa noite que estava andando pelos montes e pelas praias. Foi um sonho muito bom e me via alegre como uma criança, andando de um lado para outro sem parar. Podem olhar a data do post que está no link abaixo.  Ele não foi editado, eu escrevi no dia seguinte após o sonho. Então nem pensei duas vezes em vender as minhas coisinhas.
http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2013/01/sonhos-mensagens-do-alem.html
caminho do padre Anchieta, que é muito bem sinalizado
   Primeiro foi o caminho Passos de Anchieta. Foram 100km pelo litoral do Espírito Santo. Não dá para esquecer a viagem de trem BHxVItória, as praias, as lindas paisagens. a aventura que tive na praia deserta, as dificuldades que passei com o pé machucado e outros perrengues.

estrada real
     Constatei, depois da viagem, que não estava tão mal fisicamente, apesar de vários anos sedentários e da idade: 45 anos. Resolvi então fazer algo mais arriscado: o caminho velho da estrada real, que liga os municípios de Ouro Preto-MG à Paraty-RJ. Foram 710km de muita aventura, situações engraçadas, muita natureza e a hospitalidade impar do povo mineiro. Foram muitas dores, cãimbras e cansaço também, mas tudo valeu muito a pena.
    Cada viagem é uma lição para a nossa vida, pois a vida é um caminho em que podemos escolher o percurso. Ora estamos no alto, ora estamos embaixo, passamos por dificuldades, encontramos pessoas para nos ajudar a superá-las e assim chegar ao nosso objetivo.

o complicado caminho de Sabarabuçu
     Também fiz o dificílimo Caminho de Sabarabuçu, que, apesar de curto,  (100km), foi muito proveitoso e bonito: ar puro, belas cachoeiras e pessoas hospitaleiras. Mas é preciso estar em boas condições para fazê-lo sem muitos problemas.
    E também fiz o caminho Passos dos Jesuítas, pelo litoral paulista. Belas praias e muito sol. Pena que o caminho é feito quase em sua totalidade por BR's e asfalto. Mas, para quem tem condições financeiras de se hospedar em um hotel, recomendo que conheçam o litoral paulista, que é muito bonito.
    É isso ai, não me arrependo de ter vendido as minhas coisas e ter saido por ai. Bens materiais podemos recuperar com o tempo, mas a paz é o mais importante. E continuarei com as minhas andanças, é claro.
    Mas no momento preciso dar um tempo nas viagens, tenho que pagar os meus empréstimos com o INSS e alugar um quarto para mim. Andança é bom, mas cansa. Depois das viagens, é preciso repouso, o que eu não fiz, pois tinha que ficar com a mochila nas costas, pois estava morando em minha barraca. Disse em um post anterior que o meu sonho era comprar uma TV de 32 polegadas e um notebook. Uma pessoa me disse, ao ler o post, que tinha uma e outras coisas mais, e que mesmo assim não era feliz. Esqueci de dizer que é apenas um sonho de consumo, nada mais do que isso, não sou tão materialista assim. Creio que, se aparecesse um gênio da lâmpada para um portador de esquizofrenia e lhe informasse que poderia fazer três pedidos, provavelmente o primeiro pedido seria ficar livre desse complicado transtorno da mente dividida. 
   
Frete
Renato Teixeira

Eu conheço cada palmo desse chão
é só me mostrar qual é a direção
Quantas idas e vindas meu deus quantas voltas
viajar é preciso é preciso
Com a carroceria sobre as costas 
vou fazendo frete cortando o estradão

Eu conheço todos os sotaques 
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades 
pois a vida não me cobra o frete

Por onde eu passei deixei saudades
a poeira é minha vitamina
Nunca misturei mulher com parafuso
mas não nego a elas meus apertos
Coisas do destino e do meu jeito
sou irmão de estrada e acho muito bom

Eu conheço todos os sotaques
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades
pois a vida não me cobra o frete

Mas quando eu me lembro lá de casa
a mulher e os filhos esperando
Sinto que me morde a boca da saudade
e a lembrança me agarra e profana
o meu tino forte de homem 
e é quando a estrada me acode

Eu conheço todos os sotaques
desse povo todas as paisagens
Dessa terra todas as cidades
das mulheres todas as vontades
Eu conheço as minhas liberdades
pois a vida não me cobra o frete

Um comentário:

  1. Obrigado Wendell por estar sempre acompanhando o blog. Verdade, se achamos que temos que dar uma virada na vida e mudar, não temos que nos apegar a pequenas coisas, como as que eu tinha, provavelmente eu estaria muito infeliz ainda morando naquele local, cercado de violência e confusão.

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