sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nas ruas: comparações


  Não é a primeira vez que estou por ai nas ruas. Já estive nesta situação anteriormente. Foi no ano de 2002, em razão do meu primeiro surto psicótico. Fiquei nas ruas por um período de cinco meses, perambulando pelas ruas da grande BH, até me recuperar por completo das alucinações brabas que tive. Se não fosse a ajuda de muitas pessoas provavelmente não estaria aqui escrevendo este post. Poderia ser mais um morador de rua, sem nenhuma renda e nenhuma perspectiva de vida.
    Mas hoje em dia, depois de quase dez meses de andanças, posso dizer que muita coisa mudou em relação aos moradores de rua.
    Naquela época fui muito ajudado por diversas pessoas, e, na minha opinião, esse foi o principal remédio para que eu me livrasse de um surto tão intenso e tenebroso. Na minha fuga desesperada para fugir dos inimigos que só estavam em minha mente cheguei a perder 25kg. Não adiantava  mudar de cidade, andar pela BR ou me esconder no mato: aonde quer que eu fosse, as vozes ameaçadoras me seguiam.
    Mas a solidariedade das pessoas conseguiu reverter o quadro psicótico. Pouco a pouco s inimigos fugiram de minha mente e consegui recuperar cerca de 20kg em apenas um mês. Houve noites em que tive que recusar alimento, pois a minha fome estava completamente saciada.
   E a ajuda não era somente material: várias pessoas paravam para conversar comigo e me dar uma força. Confesso que não iria conseguir sair daquela situação se não fosse esse auxílio. Fica até complicado citar essas pessoas, pois foram muitas e eu poderia estar cometendo alguma injustiça.

    Mas hoje em dia muita coisa mudou: o crack, que antes era consumido por pessoas menos favorecidas economicamente, já está se alastrando pelas pequenas cidades do interior do Brasil e já é usado por pessoas que possuem um poder aquisitivo mais elevado. Estive há pouco tempo no pequeno município de Raposos-MG e, um morador da cidade comentou que hoje em dia já não deixa a porta de casa aberta como fazia antes.
    O problema está tão sério que foi preciso implantar CAPS-AD em várias cidades do país. A internação compulsória agora é lei. Os adultos estão com medo até de crianças.
    Principalmente por causa dessa droga as pessoas já não estão tão dispostas a ajudarem um morador de rua. Antes se evitava dar dinheiro aos moradores com receio de que eles fossem comprar cachaça. Hoje em dia a recusa é por causa do crack.  A cachaça, pelo que pude perceber, não traz tantos problemas em relação à roubos, já que é uma droga barata. Alguns moradores de rua dizem que algumas cachaças em certos bares são mais baratas por conterem misturas. Já o crack é uma droga barata que acaba saindo cara, pois o "barato" dessa droga dura apenas alguns segundos, pelo que pude saber através de alguns moradores de rua.
    Outro dia vi uma cena muito triste: uma garota aparentando uns 21 anos, de classe média, chegou a me perguntar se eu sabia onde ficava um ponto de venda de crack. Ela estava bem vestida e trazia uma caixa de sapato cheia de perfumes caros, para trocar pela droga. Com certeza já deve ter se desfeito de outros pertences e de seu dinheiro para consumir essa pedra maldita.
    Conheço um cara lá no abrigo, que veio do nordeste. Ele é gente boa, tem uns 50 anos e trabalha o dia inteiro descarregando andaimes. Ele é magrinho, baixinho, mas é bom de serviço, pois está neste trampo do andaime por mais de um mês. O máximo que consegui ficar foi dois dias, e o que ganhei, além de oitenta reais, foram dores por todo o corpo. Ele me disse que é usuário de crack. Um outro dia chegou a me pedir emprestado um real, ou seja, provavelmente o dinheiro do seu suado suor foi usado para apenas sustentar esse vício.
    O problema maior acontece quando já não conseguem trabalhar e partem para o roubo. Claro que tem caras que podem trabalhar para sustentar o vício, mas não fazem isso por uma questão de caráter mesmo, preferindo roubar o dinheiro de um trabalhador. As mulheres são consideradas boas freguesas pelos traficantes, já que a maioria chega a vender o corpo para fazer o pagamento da droga à vista.
   O crack traz paranoias  tanto para quem usa como para quem não usa. Hoje em dia as mulheres andam apressadas pelas ruas do centro de Belo Horizonte, sempre com uma das mãos segurando firmemente a alça de suas bolsas. Qualquer pessoa que não esteja muito bem vestida pode ser um possível usuário desesperado pelo crack. Essa paranoia para mim é o principal motivo pela rejeição pelos moradores de rua aumentar mais ainda. Claro que existem pessoas caridosas que ainda ajudam os mais necessitados: espíritas, evangélicos, católicos saem pela cidade distribuindo comida, principalmente à noite.

    Fiz estes comentários não como uma reclamação, pois eu mesmo tenho um pouco dessa paranoia, apesar de não andar com muita grana no bolso. Este post é apenas uma observação, pois tenho a minha aposentadoria e estou nesta situação por que acho complicado uma pessoa gastar metade do que ganha para pagar um aluguel de um quarto. Se quiser quarto barato, é só ir em lugares onde o tráfico de drogas impera. Mas eu só quero paz e tranquilidade. Prefiro ficar andando por ai do que morar em lugares complicados. Não estou aqui para que as pessoas me ajudem nas ruas, não é isso. É apenas o que eu vejo pelas ruas, uma droga que pode mudar o comportamento de uma sociedade inteira. Só gostaria de não ser julgado por andar de mochila nas costas e morar em uma barraca. Os piores bandidos andam por ai de helicóptero e estão em em suas mansões.

Um comentário:

  1. Valeu Wendell por estar sempre por ai lendo os posts. Como você disse não sabemos onde isso vai parar. Internaram várias pessoas por causa da copa do mundo, mas e depois? Existe realmente um tratamento contra essa droga? Nas ruas pude perceber melhor como está difícil de ser resolver este problema. Obrigado mais uma vez e vou dar sim uma olhada nos textos.

    ResponderExcluir