sábado, 28 de setembro de 2013

Caminho de Sabarabuçu: 2ª parte


24/092013-terça feira
Sabará-Raposos-Honório Bicalho

    Recuperado das dores da primeira parte da viagem e de uma contusão no glúteo, planejo fazer o restante dessa viagem em uma semana, para poder curtir melhor as belas cachoeiras da cidade de Rio Acima.
    Creio que a maioria dos leitores devem estar se perguntando como que uma pessoa pode ter uma contusão no glúteo. Bem, eu vou explicar, ou melhor, tentar explicar essa inusitada situação.
    No abrigo somos todos acordados às cinco horas da manhã. Certa vez, quando dormi na parte de cima do beliche, o guarda municipal, como de costume, começou a acordar a galera no horário habitual. O problema aconteceu por que eu queria me levantar sem antes estar acordado. Então desci do beliche, não pela forma correta, que é pela escadinha. Não sei o que deu na minha cabeça, mas tentei descer me apoiando no  beliche ao lado. Resultado: cai do segundo andar de poupança no chão.
    Na hora até que não doeu muito a queda, ri muito daquela situação, ao ver os outros albergados acordarem assustados com o barulho. Mas, algumas horas depois o músculo começou a doer e fiquei manquitolando por uns dois dias. Mas, para a minha sorte não foi nada de mais grave.
    Voltando a viagem, sai do albergue por volta das cinco e meia, a fim de pegar o ônibus para a cidade de Sabará. O tempo estava nublado, com muitas nuvens no céu. O sol parecia que não ia dar o ar de sua graça na parte da manhã. Pensei em consultar a previsão do tempo na internet, mas logo descartei essa ideia. Mochileiro que é mochileiro de verdade pega a estrada faça chuva ou faça sol. Ainda estava com os sacos de lixo de 100l, que havia comprado na cidade de Cunha-SP, na viagem à Paraty. Esse saco serve direitinho como capa de chuva, é só fazer os buracos para passar os braços e a cabeça.
    Às sete horas já estava em Sabará, rumo à Raposos, distante 12km. O percurso no início é agradável, com retas e muita sombra, o que me deixou mais animado. Mas a alegria durou pouco, pois logo as subidas íngremes, comuns neste caminho, apareceram. A malhação que fiz no parquinho enquanto estive no abrigo me fez bem, estava me sentindo melhor, tanto na parte muscular como aeróbica. Não tenho muita paciência para praticar exercícios, então, para não enjoar, faço meia hora de caminhada e mais meia hora nos aparelhos do parque. Recomendo a todos que moram perto de um lugar que tenha esses aparelhos que façam os exercícios, pois não é cansativo e não enjoa muito, pois são vários aparelhos.
o caminho é bem agradável no início

casa em ruínas
   
A mochila com menos peso também estava ajudando muito. O cantil, que custou 35 reais, também. O porta cantil tem um forro interno que não deixa a água esquentar tanto assim. Valeu a pena comprá-lo. E agora dá para carregar a água na barrigueira da mochila, sem precisar ter que abri-la toda hora que tenho sede. Comprei também meias próprias para caminhada, mais grossas e com menos algodão em sua composição. Isso evita bolhas, pois os pés suam menos. E, o mais importante, o chulé também desaparece. Bem, ficou um chulezinho, aceitável...
    Esses fatores ajudaram muito no rendimento, e cheguei em Raposos por volta das 9:40 da manhã, percorrendo 12km em 2:40 horas. O caminho é cheio de subidas, mas foi tranquilo e agradável o percurso, o sol não estava tão forte assim.
    Aproveitei o tempo para tirar um cochilo em frente a igreja matriz da cidade, até o horário do almoço. Estava fechada, foi uma pena, pois queria ver uma obra do aleijadinho.

Raposos-Honório Bicalho

  Depois do rango, por volta das 11:30hs, já estava de volta a caminhada. São 13,5km de trilhas até o distrito de Honório Bicalho, em Nova Lima. A planilha da estrada real avisa que o grau de dificuldade do percurso é médio, e já me preparo psicologicamente para a batalha contra os meus limites. 
    Muitas vezes, na estrada real, é difícil de se achar o primeiro marco de cada percurso. E foi o que aconteceu neste trecho. Segui as orientações da planilha e dos moradores da cidade, e acabei parando em uma ferrovia desativada, que também terminava em Honório Bicalho. Fiquei nervoso, e me lembrei do primeiro dia da viagem à Paraty, em que também fiquei perdido em uma ferrovia. Mas, como os moradores de Raposos me disseram que ela terminaria em Honório Bicalho, resolvi prosseguir.
perdido na trilha do trilho do trem

   É muito cansativo e chato ficar andando no meio das britas grandes, o risco de uma torção no pé é bem grande. Depois de 1km encontro uma ponte, só com a armação para o trem passar. Pensei em passar por ela, me equilibrando nas ferragens, mas, por causa do peso da mochila resolvi passar debaixo da ponte, atravessando um pequeno córrego. Na descida, escorreguei e acabei molhando o tênis, e fui ficando cada vez mais irritado. 
    Mas continuei o caminho, não gosto de voltar atrás nessas situações. Depois de uns 2km andando nas britas encontro outra ponte, também só com a armação para o trem passar. Essa ponte era maior e bem mais alta. "Será que os habitantes de Raposos pensam que eu sou o Homem Aranha?" pensei comigo mesmo. Após analisar bem a ponte e o rio, cheguei a conclusão de que teria que voltar.
    Quando fico nervoso nem paro para descansar e voltei quase que correndo para Raposos a fim de encontrar o primeiro marco deste caminho. Na volta encontrei o cara que me disse que a ferrovia terminava em Honório Bicalho.
    - Você pensa que eu sou um trem?- perguntei, irritado. 
    - Tem um monte de gente que vai por ai... - o cara respondeu.
    - Você não está vendo a mochila que estou carregando? Por acaso você acha que eu sou super herói? 
    E disse outras coisas para ele, sem ofender, é claro. Não gosto de brigas e confusão, mas tinha que desa bafar. Não é nada fácil andar na brita, ainda mais carregando 10kg nas costas.
    Por volta das duas e meia da tarde finalmente encontrei o primeiro marco. Não poderia mais errar se quisesse chegar em Honório Bicalho ainda hoje.
     O caminho realmente é difícil, o meu amigo Lúcio, que já o fizera, me havia alertado sobre as subidas, principalmente depois da cidade de Raposos. Acho que é o trecho mais complicado de todas as "estradas reais" de Minas Gerais.
    Muitas subidas fortíssimas, trilhas cheias de valas, onde só se passa andando. O ciclista que quiser passar por este caminho terá que carregar a bicicleta em algumas partes do percurso. Eu mesmo, na subida mais complicada, tive que apoiar as mãos na coxa para conseguir subir.
subidas complicadas

    No meio do caminho encontrei três motociclistas que estavam fazendo trilha no local. Eles me olharam com um ar de curiosidade e espanto, provavelmente não pensavam em encontrar um "caminhante' por aquelas bandas.
    Perguntaram-me o que eu estava fazendo ali, para onde ia e tals. As mesmas perguntas que a maioria das pessoas me fazem ao me ver com a mochila nas costas nestas estradas de terra de Minas Gerais. Era um misto de surpresa, "estranhamento" e admiração nos rostos dos motociclistas, ao ouvirem o meu relato.
olhem a trilha lá na frente, desanimei só de olhar, mas deu para chegar lá

    Prossegui o caminho até às 16:30hs. Estava cansado, o fato de ter andado por cerca de 6km nas britas me desgastou bastante. Fora as subidas, é claro. Parei para acampar perto de um riacho, uns 5km antes de Honório Bicalho.
    Muitas abelhas curiosas naquele lugar, que pousavam em meu corpo suado, Mas eram pacíficas, ao contrário dos mosquitos que, a cada picada, fazia sair um pouco de sangue na pele. . E o mané aqui tinha jogado o repelente no lixo, só por que não precisou de usá-lo na última viagem...
    Tomei um bom banho no riacho e lavei minhas roupas. A temperatura da água estava ótima, apesar do tempo nublado.
    Se na parte da manhã tudo correu bem, a tarde e a noite foi um desastre. Estava montando a minha barraca em cima de um formigueiro. As habitantes, enormes, não perdoaram e partiram para o revide. Parecia que eram carnívoras. A ferroada delas doía muito e imediatamente mudei o local para passar a noite mais tranquilamente. Para piorar, o K-suco de goiaba que havia comprado em Raposos não vinha adoçado(não achei o Tang) e tive que comer biscoito com água.
    Já de noite, resolvi descansar e dormir, tinha que repor as energias para o dia seguinte. Estava exausto. Vez ou outra escutava um ruído na barraca, e pensei que fossem pequenas gotas de chuva. Se chovesse forte e a barraca não aguentasse, estaria em sérios apuros naquele lugar...
    Minutos depois, uma formiga cortadeira me dá uma ferroada na perna. Estava tudo escuro e não tinha lanterna. Pouco tempo depois, outra ferroada. E mais outra. O barulho que havia escutado na barraca não era de pingos de chuva. Eram as formigas cortadeiras comendo a minha nova barraca nova... snif snif...
    Não tinha como sair daquele lugar. O local era uma subida e não tinha um outro lugar plano, além de ter muitas pedras. E ainda por cima, tudo estava muito escuro. O jeito foi passar a noite, ali, deitado na barraca e me desvencilhando das impiedosas formigas cortadeiras até o dia clarear.
olhem o estrago que as maleditas fizeram em minha humilde residência


25/09/2013-quarta feira
Honório Bicalho-Rio Acima


distrito de Honório Bicalho

    Acordei triturado e moído. Creio que as formigas só foram me dar uma trégua por volta das três da madrugada. Minhas pernas estavam avermelhadas por causa das mordidas dessas sacanas. 
    Choveu um pouco, a barraca até que aguentou bem, o teto ficou um pouco úmido, mas não chegou a dar goteiras. Tenho dúvidas se essas barracas aguentam os temporais de verão.

    O restante do caminho para Honório Bicalho também é cheio de subidas fortes, o que me faz pensar que o percurso inverso não é melhor do que o que eu estou fazendo, com mais descidas. Com muito sono e cansaço, chego ao distrito por volta das 9:30hs da manhã. Aproveito o tempo para descansar da noite anterior, que foi bem desgastante. Tive que passar a maior parte do tempo dando peteleco nas formigas cortadeiras que não me davam trégua(dizem que ela é a saúva, sei lá...) Só sei que dói pra caramba a ferroada delas.
    Depois do almoço e de uma barrona de chocolate ao leite, parto para o município de Rio Acima, distante apenas 9km. O caminho, para minha surpresa, é tranquilo neste trecho. Estrada de terra bem conservada, poucas subidas, sendo a maior parte do percurso plano.
caminho tranquilo entre Honório Bicalho e Rio Acima

cidade de Rio Acima

    Apesar do forte calor cheguei à cidade de Rio Acima em bom estado, por volta das 14:30hs. Essa cidade possui inúmeras cachoeiras, mas a maioria situada à uma boa distância. Tem também uma simpática Maria Fumaça, que funciona nos finais de semana. Voltarei em uma outra oportunidade para conhecer esta simpática cidadezinha.
    Pego o ônibus de volta à Belo Horizonte com aquele cansaço gostoso e com a satisfação de mais uma viagem completada com sucesso e sem maiores problemas(tirando as formigas cortadeiras, é claro).
    A próxima viagem será a do passos dos jesuítas, em que percorrerei 370km no litoral de São Paulo.
    Até a próxima viagem pessoal.
-obs: no relato, talvez algumas pessoas achem que dou muita enfase a parte sofrida do caminho, as subidas, as formigas, etc. Mas a beleza e a sensação de estar caminhando em meio à natureza não tem como definir. Já tentei achar as palavras para poder explicar para as pessoas que me interrogam sobre o porque de caminhar tantos quilômetros com um peso nas costas. Mas não consegui, por isso posto as fotos no post, só quem faz e gosta dessas caminhadas é que sabe o que sinto.

Lições do caminho
    Devemos reconhecer nossos limites. Não devemos desistir na primeira tentativa, por mais medonho que possa parecer o caminho. Devemos aproveitar os momentos difíceis para tirarmos lições para uma futura e nova tentativa. Devemos nos preparar mais e melhor, se falhamos na primeira vez.
    Na viagem, tive que reconhecer o meu limite físico, que eu conseguiria carregar na mochila apenas 10kg, devido as fortes subidas. Parei, dei um tempo, me preparei melhor para o restante da viagem, me exercitando no parque. Não desisti e cheguei ao final em boas condições, ao contrário da primeira parte, em que tive que tomar um leve sossega leão para dormir, por causa das dores.


"Eu sou o sujeito de minhas ações
O autor do meu personagem, 
o artesão do meu mundo."

Henri Ey
    

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Número 22 e a loucura

 
  Desde quando fui diagnosticado como esquizofrênico e assumi essa condição publicamente, fui chamado de "22" algumas vezes. Sabia que era sinônimo de doido,  mas levava isso numa boa, mais na brincadeira mesmo. O que me intrigava era o porque do número 22 estar relacionado à loucura. O número 24 era relacionado à homossexualidade masculina, o 13 ao azar ou sorte(dependendo da pessoa, o Zagallo gosta muito desse número) e por ai vai.
    Pesquisando no Dr. Google, vários sites explicavam que o motivo disso é em virtude da carta 22 do tarot ser a do louco. Essa explicação não me convenceu, pois a maior parte das pessoas que me chamavam de 22 sequer sabiam da existência do baralho de tarot.
    Depois que me aposentei, morei um bom tempo em Ipatinga, perto da crackolândia. Convivi com o mundo das drogas, não usando, é claro, e sim morando perto de usuários e traficantes. Não foi opção minha morar em tal lugar, mas, ganhando um salário mínimo não tinha muito o que escolher.
    Analisando a situação, então percebi que os usuários conheciam bem o código penal e então procurei o artigo 22, e as minhas dúvidas foram esclarecidas.


Art 22. É isento de pena o agente que, por doença mental, ou 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo 
da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter
criminoso do fato ou de determinar-se de acordo com o 
entendimento. 
Parágrafo único: A pena pode ser diminuída de 1/3 a 2/3, se o 
agente, em virtude de perturbação da saúde mental ou por 
desenvolvimento mental incompleto ou retardado, não possuía ao 
tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o 
caráter criminos

o caso do cadu ficou famoso em relação a questão de ser ou não inimputável

    Sinceramente, no meu caso, não tenho a pretensão de usar esse artigo e nenhum outro. Eu me responsabilizo pelos meus atos, a não ser no momento de um surto. E como sinto que estou mais na fase dos sintomas negativos, creio que não surtarei, estando em um ambiente calmo e tranquilo. Não tomo os medicamentos, e não quero usufruir dessa lei, caso venha cometer alguma infração, já que tomei a decisão de não tomar os remédios gozando de plenas faculdades mentais. 
    Na minha humilde opinião, todo portador de esquizofrenia que tenha recusado o tratamento e, durante um surto, tenha cometido uma infração, deve ser punido como qualquer cidadão, não sendo inimputável. Somente no primeiro surto, ou quando o portador ainda não tenha sido informado de que têm o transtorno, é que ele deve ser considerado inimputável. Falo isso em relação a esquizofrenia paranoide, não posso falar em casos de catatonia ou outros, pois não me julgo capacitado o suficiente para dar opinião sobre esse assunto tão polêmico. Se o esquizofrênico do tipo paranoico recusa o tratamento, sabendo das possíveis consequências, é justo que seja penalizado como qualquer outro cidadão, sendo recluso em uma penitenciaria psiquiátrica ou manicomial. Um problema que acho muito sério nessa questão são os advogados que pedem para que seus clientes "deem" uma de doido, para não ser punido ou ter uma pena menor. 
     Espero que os portadores de esquizofrenia não tenham me levado a mal com esse post, espero que tenham entendido a minha opinião. Quero e tento lutar de alguma forma por nossos direitos, mas também não quero que passem a mão em minha cabeça, me tratando como se não pudesse ser responsável por meus atos. 
    E você, o que acha  disso? O portador de esquizofrenia deve ser considerado inimputável ou não? Comente, opine, e vote na enquete. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Estrada Real Caminho de Sabarabuçu 1ª parte

   Existem quatro caminhos da estrada real, aqui em Minas Gerais. Como a maioria já sabe, já fiz um:o caminho velho, entre Ouro Preto(MG) à Paraty(RJ). Esse caminho, conhecido como Sabarabuçu, é o menor dentre os quatro(110km+-). Mas é muito bonito também. Pretendo, futuramente, fazer os outros dois, que têm 500km cada um. 
8 de agosto de 2013
Cocais

    Pego um ônibus em Belo Horizonte, com destino a Cocais, por volta do meio dia. É nesse pequeno e pacato distrito que se inicia o caminho de sabarabuçu, o menor dentre os quatro caminhos da estrada real em Minas Gerais. No meio da viagem, um senhor, aparentando uns 60 anos de idade, senta-se ao meu lado. Carrega um terço nas mãos e constantemente faz o sinal da cruz. Como "bom paranoico" que sou, logo penso que ele não foi com a minha cara e que estava fazendo aquele gesto por minha causa. "Mas então por que ele não se senta em outra poltrona?", me pergunto. Aquilo estava me incomodando, e muito, mas claro que não disse nada para o senhor, já quebrei a cara algumas vezes ao tentar conversar com as pessoas que eu cismava que estavam falando ou planejando algo contra a minha pessoa. Hoje em dia sei lidar melhor com essa situação e uso muito a terapia do "tô nem ai". Isso mesmo, tô nem ai se os meus pensamentos são frutos de minha paranoia ou se o que estou pensando é fruto da realidade mesmo.

    Nunca fui de fazer muito esforço para agradar as pessoas, e não seria agora que me aposentei é que faria isso. Não é arrogância de minha parte, só gostaria que as pessoas gostassem  da minha pessoa do jeito que sou, apenas isso. 
    Voltando a viagem, resolvo então mudar de poltrona, já que o senhor não parava de fazer o sinal da cruz. Ao me sentar no novo lugar, o cara, com um sorriso no rosto, me entrega o jornal que eu havia esquecido . Esse pequeno gesto fez com que minha desconfiança diminuísse , e acabei chegando a conclusão de que o homem era apenas muito religioso e que estava pedindo a Deus para que a viagem transcorresse tranquilamente. É a velha mania de perseguição que me persegue...
    Chego a Cocais por volta das duas horas da tarde e vou logo me informando sobre os dois principais pontos turísticos do distrito: a cachoeira e a famosa pedra pintada, com suas pinturas rupestres, de cerca de seis mil anos atrás(já até apareceu na Globo). Cocais é um distrito bem pacato, distante 100km da capital. Quase ninguém andando pelas ruas de pedra, um ou outro carro passando pela via principal e algumas crianças brincando no parquinho em frente à igreja. Quase toda pequena cidade do interior de Minas tem uma igreja com uma pracinha em frente.
distrito de Cocais
     Depois de um lanche, sigo para a pedra pintada, a fim de tirar algumas fotos. Subida bem íngreme, e logo começo a ficar ofegante, há muito tempo não fazia essas caminhadas. O peso da mochila(13,5kg) parece que vai aumentando a medida que vou caminhando. Depois de 3,5km de pura subida, já bem cansado, consigo chegar a entrada da atração turística, que é vigiada por um casal que mora no local.
    Sou alegremente recebido por um daqueles cachorros de orelhas grandes e corpo espichado, parecendo uma salsicha. O caseiro então aparece e me convida a entrar. Me leva por uma pequena trilha até o lugar onde foram feitas as pinturas. O cachorrinho sempre ia na frente, como já sabendo o que iríamos ver. A paisagem lá de cima é deslumbrante, vale a pena a subida. As pinturas foram feitas no alto de uma pedra, e é preciso focar um pouco a visão para ver e distinguir as figuras de alguns animais.

    Não fico muito tempo apreciando as pinturas, pois queria também ver e tomar um bom banho na cachoeira de Cocais, que fica à 1km de distância da pedra pintada, na mesma subida íngreme. Para o meu azar, a porteira da entrada estava trancada com cadeado. A cerca era de madeira e arame farpado, mas, mesmo assim, resolvi pular a cerca, já que a cachoeira não se situava em uma propriedade particular. Qualquer deslize na cerca poderia me machucar bastante, principalmente as pernas e os países baixos. 
    Depois da porteira, tive que caminhar uns 300 metros por uma descida bem acentuada. Mas valeu a pena, esse lugar também é muito bonito. Não quis arriscar a continuar a caminhada para ver a queda d'água,  por causa do horário(5 horas). Se escurecesse, estaria em sérios apuros. Então, tomei um belo banho (pelado, é claro) na cristalina água daquela cachoeira, que não estava muito gelada. O dia tinha sido muito quente. As cachoeiras do caminho para Paraty são mais congelantes.
vista do alto da pedra pintada
      Depois do banho resolvi ir embora, afinal, tinha que montar a barraca antes que escurecesse. Após uma breve procura, encontro um local plano e gramado, próximo a porteira da cachoeira. Foi uma sensação diferente que tive, ao fincar os ganchinhos na terra. Era a primeira vez que iria acampar no meio do mato.
   Já dentro da barraca ligo o rádio, mas só consigo sintonizar três estações: na primeira,  um pastor não parava de falar, não tinha música. A outra tocava só "breganejo" (respeito a original música sertaneja, mas não  esses "sertanejos" que aparecem por ai). A terceira já apresentava um programa que só noticiava crimes e mortes. Cheguei a conclusão de que seria melhor ouvir os grilos cantarem mesmo.
    Às seis horas da tarde já havia escurecido, não dava para ver muita coisa. Estava um pouco apreensivo, principalmente em relação à temperatura, afinal, já estamos no inverno. Apesar de ter comprado um saco de dormir, não tinha ideia de como seria essa primeira noite no meio do mato.



09 de agosto de 2013
Cocais-Antônio dos Santos

minha nova casa nova
    A noite foi super tranquila. Quando os grilos paravam de cantar, não se ouvia nada, silêncio total. Nem mesmo ao longe se ouvia uma voz. Não sei por que motivo, mas no mato conseguimos ouvir sons que estão distantes de nós. 
    Quanto à temperatura, não fez o frio que estava esperando. Fiquei meio decepcionado, afinal o saco de dormir me custara 130 reais, e queria por que queria ter motivos para usá-lo. Na viagem à Paraty passei alguns apertos em relação ao frio em algumas cidades, principalmente no sul de Minas. Agora que dormi no meio do mato e em pleno inverno, não fez muito frio, só a manta foi o suficiente para espantar o frio. 
    Acordo por volta das oito da manhã. Havia comprado um relógio do Paraguai, já que não tinha mais o meu amigo celular, que nunca tocava as músicas que eu queria ouvir em determinados momentos, pois já estava meio avariado e só tocava as músicas no modo aleatório. O larápio que roubou o aparelho deve ter ficado meio decepcionado, e ainda bloqueei o celular na operadora. Aconselho a todos a fazerem o mesmo, é rápido e fácil. Se todos bloquearem os aparelhos roubados, provavelmente os ladrões não terão tanto ânimo em nos roubar. 
    Após desmontar a barraca, pulo a perigosa cerca de arame e vou em direção à queda d'água da cachoeira da Cocais. Depois da longa descida caminhei por alguns metros por uma trilha até chegar aos pés daquela maravilha da natureza. O caminho é um pouco cansativo, mas vale a pena o esforço. Creio que a queda deva ter uns quarenta metros de altura. Os habitantes de Cocais me informaram que existem sete quedas no total, uma depois da outra, sendo que a primeira tem cerca de 70 metros. Mas resolvi ficar nessa primeira queda, afinal tinha que pegar estrada na parte da tarde. O tempo estava meio nublado, mas não poderia perder a oportunidade de tomar um banho em um lugar tão bonito. Ao contrário do dia anterior, a água estava muito gelada, mas com o tempo o corpo vai se acostumando com a temperatura e entro bem debaixo da queda, deixando a água cair com força em minhas costas. A mãe natureza é uma ótima massagista, e saio da cachoeira revigorado, com vontade de voltar em uma outra oportunidade, para ver as outras quedas.
árvore meio morta meio viva
     Comi uma bela de uma feijoada em um restaurante do distrito e à uma hora já estava caminhando rumo ao povoado de Antônio dos Santos, distante 20km de Cocais. O caminho é muito bonito, mas muito desgastante. Quando não estamos subindo, estamos descendo. Poucas retas para dar uma aliviada na musculatura. O sol do inverno estava de rachar, e o peso da mochila estava fazendo com que o caminho deixasse de ser um prazer. Chego a conclusão de que o máximo de peso que consigo carregar sem sofreguidão é dez quilos. Na viagem do caminho do padre Anchieta carreguei sete, e foi uma maravilha. Só retas pelo caminho e a sensação era  de que não estava carregando nada. Já na viagem para Paraty foram dez quilos. Incomodava um pouco, mas era suportável. Agora, quase 14 quilos já era demais. Pensei em desistir, pegar um ônibus e voltar para BH, mas, como vocês já sabem, não sou de desistir assim tão fácil. Agora que consegui comprar uma barraca que suporta chuvas, e um saco de dormir para me aquecer, posso dormir no meio do mato mesmo. Por causa do peso e das fortes subidas, irei  caminhar menos por dia, sem pressa, mas irei até o fim. Então começo a cantar "é devagar, é devagar" do Martinho da Vila. Gosto deste tipo de samba, mas não sou muito chegado naqueles pagodes tipo "lá lá lá" e "lê lê lê'.
    Essas músicas têm muita sabedoria. Não é coisa de intelectual, mas é a sabedoria popular, que merece ser respeitada. Não tenho nada contra quem gosta de Sócrates e outros pensadores, mas essa não é a minha praia. São complicados por demais para a minha cabeça já complicada. Já até tentei ler Nieztche, por volta dos vinte e poucos anos, para impressionar as mulheres, dando uma de intelectual, bom de papo,etc. 
Mas confesso que parei na segunda página do livro, sabia que iria pirar se tentasse ler e entender os pensamentos desse cara. 
    Mas, voltando a viagem, resolvo parar de andar por volta das quatro e meia da tarde. Estou bastante cansado, após percorrer 12km de fortes subidas. Já havia caminhado cerca de 5km de manhã, da cachoeira até o centro de Cocais. Ou seja, caminhei 17km no dia. Com o tempo irei melhorar o meu condicionamento físico.
    Consigo encontrar um bom local para armar a barraca, o que não é tão facil assim neste caminho de sabarabuçu. São cinco horas da tarde e já está fazendo um pouco de frio. Creio que esta noite irei estrear o saco de dormir e ter que fechá-lo e ficar dentro dele, apesar de ser um pouco claustrofóbico.
no final da viagem à Paraty, não imaginava que sentiria saudades dos marcos da estrada real



10 de agosto de 2013
Antônio dos Santos-Caeté

     A noite foi bem fria, mas o saco de dormir realmente faz uma boa proteção e consegui dormir bem. Por volta das sete horas da noite, um cara, em um fusquinha branco, parou em frente a barraca. Deixou os faróis ligados e saiu do veículo. A principio fiquei um pouco assustado, não tinha a mínima ideia de quem poderia ser e o que queria. Escuridão total. Mas o cara era gente boa e quando sai da barraca ele já estava com dois sanduíches de mortadela para me oferecer. Enquanto comia conversamos bastante. Os moradores do caminho têm curiosidade sobre o motivo de uma pessoa estar caminhando por essas estradas e com tanto peso nas costas. Já me perguntaram se sou devoto, se estou pagando penitência, se trabalho na estrada real ou se vou ganhar algum prêmio no final da caminhada. A maioria das pessoas não conseguem entender, dá para perceber isso em suas fisionomias quando falo sobe o meu destino. Só uma pequena parte é que entende e acha bacana esse ato de sair caminhando por ai.



    Tirando a visita do cara do fusquinha, nada demais aconteceu nesta noite. Silêncio e escuridão total.
    A distância entre o distrito de Cocais e a cidade de Caeté é de 40km. Mas ontem, por causa das fortes subidas e do calor, caminhei apenas 12km do percurso, na parte da tarde. A mochila pesada e a falta de ritmo de caminhada também contribuíram para o meu baixo rendimento. 
    Acordei as sete horas com o sol aquecendo a barraca. Pouco antes das oito já estava pronto para partir quando um morador da região, à cavalo, veio até a mim para prosear e me convidar para tomar um café. Coisa de mineiro né? Conhecer os moradores das pequenas cidades e distritos é tão bom quanto caminhar. A residência do cara é bem antiga, estilo casarão mineiro mesmo, com piso de madeira. Tinha muitos cachorros. Morava com sua família, seus filhos estavam jogando vídeo game. Tinha uma parabólica no quintal. Sinais dos tempos, a modernidade chegando aos rincões de Minas. Novamente a conversa sobre a caminhada, sobre o que fazia da vida, etc.
    Depois de saciada a fome, me despeço de todos e começo a seguir o trecho do dia. Faltam 28km para se chegar a Caeté. Com a experiência do dia anterior, planejo fazer o percurso em dois dias, não dá para tirar algum peso da mochila no meio do caminho, só se eu comer a granola toda de uma vez.
    O sol hoje também está de rachar, mas já estou caminhando em um ritmo melhor. Por volta das onze horas chego ao povoado de Antônio dos Santos, mas, para o meu azar, a dona do único bar que oferece almoço está doente. O jeito foi recorrer ao tradicional sanduba de presunto e queijo, com iogurte. De sobremesa, maçã e banana para ajudar a musculatura com potássio.
subidas e mais subidas
    Como não fiquei de barriga cheia, deu para voltar a caminhar sem fazer uma cesta. Após comer uma laranja, meu intestino dá sinais de vida. É só viajar e mudar a rotina que ele sai do ritmo. Foi um pouco complicado para me aliviar, pois esse trecho da estrada real é cercado dos dois lados, e, para piorar, costuma passar carros com uma certa frequência. O jeito foi achar um matinho e contar com a sorte.
    Estou me sentindo bem e já penso em chegar a Caeté hoje mesmo, apesar das fortes subidas que predominam neste trecho, que conta com muitas sombras para nos proteger do sol. Durante a caminhada, vou pensando seriamente em passar alguns dias acampado em alguma das inúmeras cachoeiras de Rio Acima, que é o ponto final desta minha viagem. Não vou seguir o percurso da estrada real por completo, pois, no caminho para Paraty, já conheci o distrito de Glaura. Os dias neste inverno aqui em Minas estão sendo muito quentes, e vai ser ótimo para tomar bons banhos de cachoeira. Rio Acima tem algumas cachoeiras não muito longe da área urbana, então vai dar para desmontar a barraca na hora de almoçar para pegar um rango em um restaurante qualquer da cidade. Chego a pensar se não seria uma boa morar definitivamente perto de uma cachoeira, longe da confusão da cidade grande. Gosto muito de Belo Horizonte, mas as coisas andam meio complicadas, trânsito maluco, violência, etc.
    Em um bom ritmo, para minha surpresa, chego a Caeté antes das quatro horas da tarde. Não estou muito cansado, mas os ombros estão um pouco doloridos. Consigo tomar um bom banho quente no ginásio da cidade e depois passo algumas horas na lan house a fim de saber o que está acontecendo pelo mundo.
    Depois da net, procuro um local para dormir. Encontro uma praça bem legal, com bastante grama, mas tinha um pequeno problema: um tal de Naldo(nem sei quem é, mas parece que tá fazendo sucesso por ai), irá fazer um show bem perto da praça, ou seja, a área vai estar bastante movimentada esta noite. Como na praça da igreja matriz também irá ter show, resolvo montar a barraca na rodoviária, que, depois das nove horas já não tem muito movimento.
chegada à Caeté


11 de agosto de 2013-domingo
Caeté-Sabará

    Não tive maiores problemas em dormir na rodoviária da cidade. Com exceção de alguns moleques que a todo instante balançavam a barraca e depois saiam correndo, não fui importunado por ninguém. 
    De manhã tomo um ótimo desjejum: um pão de sal bem quentinho e café com leite. Depois comi um  mamão, banana e laranja de sobremesa. Ah! E o yakult não poderia faltar né?
interior da igreja matriz de Caeté
      Caeté tem inúmeros pontos turísticos para se visitar, mas seria preciso mais de um dia para visitá-los. Como o município situa-se próximo a Belo Horizonte, deixo uma visita para depois.
  O trecho para Morro Vermelho também é complicado,muitas subidas, mas com belas paisagens. Por ser de manhã, o sol não estava castigando tanto assim, e consegui caminhar em um bom ritmo, chegando ao povoado pouco antes das onze horas.
    Como era domingo, comi no almoço o que tive vontade de comer, como bom mineiro que sou: feijão tropeiro, carne de porco e um ovo tipo disco voador. E, para completar, uma coca bem gelada! Não sou muito de fazer essas estripulias alimentícias, mas sabe como é né? Domingo pode!!!

    Depois do rango, é claro, me bateu um sono danado e tirei um cochilo de meia horinha. Ao meio dia já estava pronto para percorrer os 20km restantes até a cidade de Sabará. O caminho neste trecho é mais tranquilo, não tem tantas subidas. Mas o sol estava de rachar! A umidade do ar parece que está baixa, o clima está muito seco neste inverno aqui em Minas. No meio do caminho já começo a sentir algumas dores musculares nas pernas, principalmente a esquerda, para variar. Realmente o meu limite de conforto é dez quilos é já começo a pensar sobre o que retirar para a próxima viagem(passos dos Jesuítas-SP)
A sede incomoda muito mais do que a fome, acho que a maioria das pessoas concordam com isso. Podemos ficar vários dias sem comer, mas se não bebermos água... Há pouquíssimas casas e fazendas no percurso, e tenho que racionar esse líquido tão precioso. Por volta das quatro horas já estou bem cansado, e penso em acampar antes de chegar a Sabará, mas, analisando a região, vejo que a única fonte de água é a de um rio que talvez sirva de esgoto para o povoado de Morro Vermelho e que acompanha o viajante até Sabará.
    O jeito foi partir para o sacrifício, num cenário desanimador: muito sol e pouca água. Quase nenhum sinal de vida pelo caminho, não passando muitos veículos na estrada. Tirando a vegetação verde, a sensação era de que estava em um deserto, por causa do clima seco e hostil.
    A mistura bombástica do almoço resultou em torpedos com gazes violentíssimos. Era uma rajada que saia a todo momento. Se fosse em um elevador...
    A mochila estava ficando absurdamente mais pesada a cada quilômetro andado, e a dor na batata da perna já me incomoda bastante. Mas com muito esforço e sacrifício chego em Sabará por volta das seis horas da tarde, em frangalhos.

    Como estou muito cansado e com dores, chego a conclusão de que preciso descansar em uma boa e confortável cama. Depois de uma longa procura, consigo achar na cidade um hotel com preço acessível. É a estrada dos reais!
    Lavo minhas roupas e tomo um longo e demorado banho. As dores estão me incomodando muito e resolvo tomar um comprimido que me faz apagar e que só tomo de vez em quando. Amanhã tenho que estar recuperado para prosseguir a viagem.

12 de agosto de 2013-segunda feira
A decisão

    Acordei às sete horas, sonolento e meio dopado pelo efeito dos medicamentos. Não tenho o costume de tomá-los, só uso o pan nosso de cada dia mesmo  Esses medicamentos só tomo quando estou muito estressado e quando preciso dar uma "zerada" em minhas idéias.
     Demoro mais de uma hora para tomar um banho e arrumar a mochila. Uma imensa vontade de não fazer nada tomou conta de mim. Após muito refletir, resolvo desistir do caminho, ou melhor, adiá-lo, pois não sou de desistir assim tão fácil. Missão dada é missão cumprida! Mas, claro que temos que reconhecer nossas limitações e recuar, para depois avançar em melhores condições. Já não sou um garoto(44 anos este mês, já estou aceitando presentes rsrsrs) e sei que tenho que reduzir o peso da mochila para caminhar sem sofreguidão.
    Mas o que mais atrapalhou mesmo foi o efeito do medicamento. Deveria ter tomado uma dose menor. Por experiência própria sei que o efeito só irá acabar por completo à noite, e o mais sensato é voltar para Belo Horizonte mesmo.
    Antes de voltar, dei uma voltinha pelo centro histórico de Sabará para tirar algumas fotos.
centro histórico de Sabará
     Esses medicamentos, além de me deixarem lento e dopado, fazem com que eu me sinta meio robotizado, como se anulassem as minhas emoções. Fico apático e não acho graça em nada, nem mesmo nas belas paisagens desse nosso Brasil.
    Por esses motivos o melhor é dar um tempo e voltar melhor em uma outra oportunidade. Até a próxima pessoal, com o relato da segunda e última parte da viagem.

igreja sem teto, segundo moradores, a obra não foi terminada ou o teto desabou depois de pronto

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Divagações esquizofrênicas


    Estou dando um tempo em um abrigo aqui em Belo Horizonte enquanto não começo uma outra viagem. Esse abrigo não é tão grande e, por isso, é bem tranquilo. Às vezes rola algumas discussões, a maioria das vezes por motivos banais. Aqui têm pessoas de todos os tipos e formatos: idosos, jovens que saíram de casa, usuários de droga que trabalham e usuários de droga que não trabalham, pessoas de outros estados procurando oportunidades de trabalho e até um esquizofrênico, este que vos escreve
    Tenho que tomar muito cuidado, existem algumas regras no abrigo, como em qualquer lugar, mas é algo parecido como em uma cadeia(suponho isso por ouvir nos noticiários, nunca estive preso). A principal regra é ser humilde, não ficar contando vantagens de ter feito isso ou aquilo, de ter alguma coisa, etc. Bem, quanto a isso, até que não preciso me preocupar muito, sem falsa modéstia me considero um cara humilde. Não me acho melhor do que ninguém, já tive até um certo complexo de inferioridade antes dos surtos. Mas uma experiência de quase morte muda muita coisa em nossos conceitos, e hoje não tenho tantos problemas quanto a isso, me sinto um pouco vitorioso por ter saído dos surtos sem prejudicar ninguém.
    Mas, para a maioria das pessoas no abrigo humildade tem um sentido diferente, e qualquer vacilo pode ser motivo para uma discussão e uma provável briga. As pessoas ali já têm uma vida sofrida e não costumam tolerar "pessoas que se acham". Tenho que tomar muito cuidado, por exemplo, ao brincar e zoar um colega. Eles podem estar pensando que estou "tirando" a pessoa e ai pode ser complicado. Só brinco com a pessoa quando a conheço muito bem e, mesmo assim, depois de muita convivência.
    Também é perigoso viajar na pessoa, ou seja, cismar, implicar. Quando um cara diz "cê tá viajando demais em mim hein?" é um sinal de que a paciência dele pode estar se acabando. Acender a luz do quarto, depois das dez horas, então nem se fala. É sinônimo de confusão e a insatisfação é geral. Caguetar alguém já é briga na certa, o melhor é cada um cuidar de sua vida.

    Já estou meio que enturmado e acostumado com a maioria dos caras lá do abrigo, apesar do meu jeito caladão de ser. Sei que algumas pessoas de lá devem achar que sou meio playboy, por não conversar com todo mundo, mas é difícil explicar para os caras que algumas pessoas são mais introvertidas do que as outras. É preciso achar os termos corretos, as palavras exatas, na linguagem deles, para tentar explicar esses assuntos relacionados ao comportamento humano. Se usarmos termos mais acadêmicos, é como se estivermos falando grego. Não dá para dizer esquizofrenia, bipolaridade, transtorno mental, etc. Temos que falar na linguagem que eles usam. Até que tento, mas é complicado, apesar da convivência. Para eles, todo transtorno mental se resume em "doido" e "22".
    Talvez alguns usuários do abrigo estejam me achando "meio playboy" por estar andando com uma mochila de marca boa. Já até me perguntaram o preço dela e tudo, e claro que falei que custava um pouco mais barato. Já disse que sou aposentado para alguns caras, e acho que muitos moradores de rua já sabem disso, mas sinto que há um respeito por minha pessoa, pois sempre procuro ficar na minha. A mochila do Paraguai que comprei não durou nem uma semana, então tive que investir numa trilhas e rumos.
   Um carioca do abrigo com quem converso às vezes me disse para ser mais comunicativo e tal, de parar de usar o relógio( do Paraguai também). Disse que isso pode soar mal, que estou sendo mitido e tudo. Mas, desde quando querer saber as horas é mitidez? Se fosse um relógio de ouro, tudo bem né? Respondi ao carioca que esse é o meu jeito de ser e que estaria fingindo se eu me tornasse um cara mais comunicativo, que se enturmasse fácil com todo mundo. Bem que eu queria ser assim, mas sou um mineiro bem mineiro mesmo.
    Mas, apesar disso, esses dias estão sendo muito bons. Perto do abrigo tem um parque ecológico, com muito espaço e área verde. E o melhor, ele não é tão movimentado assim durante a semana. Está dando para tirar o stress do centro da cidade, está dando até para malhar nos aparelhos instalados no local. Está sendo muito melhor do que andar todos os dias pelo centro da cidade. Aquilo me deixava meio ansioso, e ai vinha a comilança de doces. Já no parque não sinto tanta necessidade do açúcar para o meu organismo. Também o apelo visual ajuda muito, no centro à todo instante vemos aqueles doces e tortas deliciosos.
    Por falar em malhar, estava certa manhã fazendo exercícios quando chegaram algumas senhoras. Me perguntaram as horas e ficaram conversando enquanto se exercitavam. Uma mulher, com um sorriso no rosto, perguntou se eu trabalhava. Com a maior naturalidade, disse que era aposentado e que tinha uns "probleminhas" na cabeça, mas que atualmente eu estava mais ou menos controlado. Nesse momento se fez um silêncio total, e as senhoras não disseram mais nada, só um outro grupo é que conversava sobre shampoos e outras coisas do gênero. Particularmente não ligo tanto para esse preconceito e falta de informação, mas provavelmente a maioria dos portadores não gostam nenhum pouco dessa situação constrangedora. Por isso entendo por que escondem o fato. Não disse para elas que tinha esquizofrenia, isso provavelmente seria até pior, por falta de conhecimento sobre o assunto, que até já foi abordado na novela caminho das Índias, da Rede Globo.
    Mas parece que só isso não foi o suficiente...

-obs: no próximo post falarei sobre a viagem na estrada real, seguindo o caminho de Sabarabuçu.