quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nas ruas: Perrengues


  Nem tudo nessa vida descompromissada de  barraqueiro de rua e nessas minhas andanças por ai são flores. Passei  e ainda passo por algumas situações complicadas, mas, acreditem, estou mais seguro nas ruas de Belo Horizonte do que quando morava em Ipatinga, rodeado por traficantes e paranoicos usuários de crack.
    Certa madrugada fui acordado por três garotos, de aproximadamente quinze anos de idade. Eles "pediram" para abrir a barraca, mas respondi que estava dormindo. Com a negativa, eles começaram a balançar a minha humilde residência, ameaçando botar fogo nela. Procurei manter a calma, sabendo que hoje em dia os menores de idade estão até mais perigosos do que os adultos, por saberem que não irá lhes acontecer nada caso sejam pegos em flagrante cometendo seus delitos.
    Então abri a barraca e sai, cumprimentando pacificamente os três garotos. Um deles, ao me ver, disse:
    -Vamu embora, eu "flagro" esse cara.
    Acho que esse flagro quer dizer manjo, já conheço. Nas ruas fico muito na minha também, procuro evitar o máximo possível confusões e brigas. Belo Horizonte é a capital mais perigosa para moradores de rua. Mas isso não quer dizer que existam por ai grupos de extermínio. A maioria dos incidentes e desinteligências ocorrem entre os próprios moradores, geralmente alcoolizados ou sob o efeito de drogas. Acho que nós(eu me incluo nisso), moradores de rua, temos que nos respeitar mais e parar com essas brigas tolas que só serve para denegrir a nossa imagem. Também conta o fato de Belo Horizonte ter um grande número de moradores de rua, pelo que pude perceber, ao viajar por outras capitais. O povo mineiro é bem acolhedor, e de noite o que não falta são doações, alimentos e uma palavra amiga, de espíritas, católicos e evangélicos, e também de pessoas que não divulgam nenhuma religião.

    Confesso que ultimamente ando estressado com essas confusões da capital mineira. Cada dia é uma manifestação diferente no centro da cidade e em outros locais também. Qualquer coisa agora é motivo para se fechar uma avenida, e o trânsito, que já é ruim, fica um caos.
    Os passeios do centro estão sempre superlotados, e eu, com esse excesso de bagagem, tenho que andar com muita paciência e cuidado para não sair esbarrando nas pessoas. Já estou com saudades de poder andar livremente pelas trilhas e estradas de terra de Minas, respirar aquele ar puro e ouvir o som do silêncio juntamente com o canto dos pássaros. No início do mês que vem estarei percorrendo um trecho de 160km, muito bonito e com muitas cachoeiras, pelo que pude ver em alguns sites. Acho que vai demorar uns quinze dias essa caminhada, vou procurar curtir o máximo cada lugar, não me preocupando muito com o tempo.
      Costumo montar a minha barraca em um local até certo ponto tranquilo, perto do centro. Quando choveu, no mês passado, tive que montá-la debaixo de uma marquise, e dormir perto de alguns usuários de crack. Confesso que fiquei um pouco apreensivo na primeira noite, Cheguei a ouvir um deles perguntar, se referindo a minha pessoa:
    - E ali, não sai nada não?
    - Não. - o outro usuário respondeu.
    Chegaram a perguntar também:
     - E esse cara ai?
     - Ele é gente boa.
     O cara que fez a segunda pergunta a fez em um tom de desconfiança e medo, pelo que pude perceber pelo tom de sua voz. Os usuários de crack também têm medo de dormirem nas ruas. E ainda tudo isso é super dimensionado  pelas paranoias causadas por essa droga tão devastadora.
    Uma usuária, certo dia, chegou perto de mim e começamos a conversar. Ela me disse que tinha mania de perseguição.
    - E você sabe o que te causa isso? - perguntei.
    - Sei.
    - E por que não para?
    - Não consigo. - ela me respondeu, mostrando desânimo.

    Nesses dias de chuva, dormindo ao lado dos usuários, pude perceber que a maioria deles pensam em parar, mas não sabem como fazer isso. Gastam quase todo o dinheiro do "corre"(furtos ou recolhendo material para reciclagem) para sustentarem o vício. Falam em irem à clínicas de recuperação, em Deus, e que um dia irão se libertar do vício.
    Com o tempo, acabei me acostumando com essa situação, e consegui dormir mais ou menos tranquilamente. Mas as ruas não perdoam: um cara que dormia na marquise teve o seu tênis roubado durante a madrugada. Comprei a barraca para viajar e também para dormir com mais tranquilidade nas ruas. Provavelmente já teriam roubado a minha mochila e as coisas que tenho se não estivesse dormindo dentro da barraca.
    Na segunda noite que dormi na marquise, fui acordado por um cara meio alterado. Perguntou se eu fumava e se tinha cigarro(esse é o código para se comprar a droga). Disse que não, é claro, mas o cara ficou ofendido com  a minha resposta, parecendo não acreditar que um morador de rua não usasse crack. O cara era tão chato, tão chato, que, para evitar confusão, acabei dizendo que usava crack, mas que já tinha fumado tudo. Nunca irei experimentar essa droga, que, para mim, é quase um suicídio. E o pior, um lento suicídio. Na minha opinião, o crack é uma droga cara, pois simplesmente rouba a vida da pessoa. Por ter um efeito rápido(apenas alguns segundos) e pelo fato de ser muito viciante, o usuário acaba não se contentando com uma única pedra. O resto da história todo mundo já sabe e sente nas ruas o que é isso.
    Outra madrugada, de dentro de minha barraca, ouvi dois assaltantes abordarem um cara, que acabou conseguindo escapar. Um dos bandidos chegou a pedir para o outro atirar. Claro que fiquei quietinho no meu canto, torcendo para que os ladrões não cismassem com minha barraca.
   Em uma outra madrugada vi um cara roubando parte da fiação elétrica da casa onde monto minha barraca, já que a mesma está para alugar. Cheguei a pensar em acionar a polícia, mas não tinha jeito, o elemento certamente iria ouvir a minha chamada, e o esquizo aqui poderia ficar em sérios apuros. Bem que a polícia poderia ter o serviço 190 por SMS. Em algumas situações perigosas, as pessoas não conseguem ou não podem falar ao telefone. Fica a dica ai, homens da lei.
    Após esses acontecimentos, cheguei a conclusão que, por morar nas ruas, não posso ficar bancando o super herói. Infelizmente tenho que fazer vista grossa para esse tipo de ocorrência. Afinal, a polícia é paga para isso né? Os homens da lei não fazem um bom trabalho de prevenção, fazendo rondas, e, quando acontece alguma tragédia, pedem ajuda para a população. Em Ipatinga cansei de bater de frente com os traficantes, mas os moradores do bairro pareciam nem ligar para aquela bagunça toda. Só faltava os traficantes distribuírem senhas para os crackudos, pois a fila para pegar a droga era grande, tudo isso em plena luz do dia. Certo dia, alguns crentes foram a casa de um traficante para orar. Oras, esses caras vivem graças a desgraça alheia, promovendo o terror na vizinhança, e, quando precisam, pedem a ajuda de Deus? Eu já passei fome em minha vida e outras dificuldades, mas, por mais que precise de dinheiro, nunca conseguiria viver traficando, ao ver as pessoas se acabarem com o que eu vendesse.
    Outro dia aconteceu algo que me deixou em um dilema terrível: por volta da meia noite, sai de minha barraca para me aliviar em uma árvore. De repente passa uma garota correndo, com dois caras em seu percalço. Ela estava com um semblante de medo, e eu, ainda meio zonzo por ter acabado de acordar. Demorou um tempinho até eu me ligar que se tratava de uma tentativa de assalto. Fiquei observando os dois caras, que ficaram meio na dúvida sobre o que fazer ao me verem. Pensei em intervir, pois os meliantes eram magros e não muito altos. Mas logo desisti da ideia, pois os caras poderiam voltar depois para se vingarem de mim e me pegarem dormindo. Decidi então deixar as coisas acontecerem e só intervir se houvesse agressão. Felizmente, a garota foi ligeira e conseguiu chegar ao prédio onde mora. Não sabia que éramos vizinhos. Fiquei feliz, pois, de certa forma, meio que sem querer, intimidei os larápios. Dias depois, ao passar por mim, a garota olhou profundamente em meus olhos, numa forma de agradecimento pelo involuntário gesto heroico.
    Mas nada foi pior do que o dia em que tive o celular roubado. Naquele dia havia participado da manifestação contra os gastos na copa do mundo e outras coisas mais. Acho que andei cerca de uns 30km com todo o peso da mochila, e fiquei em pé das três horas da tarde até as dez da noite. Na hora de dormir simplesmente apaguei. Deixei o rádio do celular ligado, o que atraiu o %¨$!*. E não é que o cara  fez um buraco em minha barraca e pegou o telefone? Eu só me dei conta da situação quando ouvi a palavra "rádio". Talvez tenha até conversado com o ladrão, meio sem querer, por ainda estar meio que dormindo. Nem pensei em correr atrás do vagabundo, até que eu abrisse os quatro zippers da barraca...
    Mas, para falar a verdade, nem me preocupei muito com o aparelho, que já estava nas últimas mesmo, devido as minhas andanças. O ruim mesmo é  sensação de impotência que experimentamos nessas situações. Quanto ao celular, não irá fazer falta, só recebia ligações de cobradores mesmo. E bloqueei o celular na operadora, ou seja, o ladrão agora só vai ter um negócio que toca música e serve como despertador. A única coisa que sentirei falta é do cartão de memória, com as músicas prediletas. Comprei um radinho do Paraguai, por dez reais. Aqui em BH tem algumas boas estações de rádio.
    Nesses perrengues todos, a polícia tinha que estar presente, é claro. Há cerca de quinze dias atrás eles me abordaram, quando eu estava deitado na barraca, para variar. Eram três. À minha direita, uma policial baixinha e bonitinha. À esquerda um policial, não muito alto e magro. Mas, encostado na viatura um outro policial me olhava com uma cara nada amistosa e com uma arma na mão. Fiquei meio desorientado nessa hora, a vontade que eu tinha era de xingar o cara, mandar ele guardar a arma, e de dizer que eu não era bandido. Não iria conseguir pedir isso com educação, e então fiquei meio gago, tentando fazer gestos, não disse nada do que estava pensando em falar, com receio de que o policial interpretasse isso como um desacato a autoridade. Depois de um tempo, o guarda sacou que eu estava meio em pânico e acabou guardando a arma, para o meu alívio. Já me acostumei com os policiais, depois de tanto me abordarem nessas minhas andanças. Mas, com armas eu sinto que não irei me acostumar nunca. Meu coração ficou aos pulos, principalmente por estar parando de tomar o diazepan. Não quero ficar dependendo do SUS para mais nada, foi complicado demais conseguir os comprimidos da última vez. A saúde em BH está um caos. Os psiquiatras deveriam avisar aos pacientes que essa droga é muito viciante, que atrapalha a memória recente e com o tempo acaba sempre perdendo o efeito, obrigando a pessoa a aumentar a dose. Também o aviso de que o medicamento causa dependência deveria ser bem grande nas embalagens, como acontece com o cigarro, mas até que isso não iria adiantar muito, pois, nos postos de saúde  as pessoas recebem os comprimidos sem a embalagem. Só sei que deveria haver alguma consientização por parte do governo em relação a isso. Ou será que eles estão interessados em vender mais e mais medicamentos?
    Os policiais, além das perguntas de praxe(de onde eu vim, para onde eu vou) vieram com algumas perguntas meio tolas, acho que estavam brincando, só pode:
    -Você é terrorista, tem alguma bomba ai?
    - Tem drogas ai com você?(além do radinho do Paraguai, não carrego droga nenhuma comigo)
    Limitei-me apenas a responder as perguntas, mas deu vontade de explicar que, se fosse um terrorista, um traficante ou um outro bandido qualquer, certamente não iria me esconder em uma barraca perto do centro da cidade.
    A policial também chegou a perguntar se havia um motivo especial de montar a barraca naquele local:
    - Sobrevivência apenas. - respondi.
    Mas confesso que deu vontade de falar que adorava brincar de casinha. rsrsrs
    A conversa até que foi amistosa, não tenho do que reclamar, mas é que isso já está se tornando frequente, a policial depois até perguntou por que eu fico tanto tempo dentro da barraca:
    - É que eu sou um cara mais barraqueiro mesmo...- pensei. rsrsrs
    Meu Deus, ilumine a cabeça dos policiais para que procurem os bandidos nos lugares certos, não sei o que eles enxergam assim de tão anormal e potencialmente perigoso em uma simples barraquinha
    Vou dar uma dica: os maiores bandidos costumam usar terno e gravata e o maior crime que praticam é tirarem vidas de pessoas inocentes, ao desviarem verbas do governo que seriam destinadas a saúde e a educação.
    Geralmente podem ser encontrados em suas mansões de luxo, ou andando de jatinho por ai, pois não costumam ficar muito tempo em seus locais de trabalho(câmaras, assembleias, senado, etc). Inclusive pegaram a mania agora de se "darem" férias.
    Mas tudo isso que relatei não foi em tom de reclamação. Eu que decidi morar nas ruas e assumo as minhas decisões. Foi apenas um relato do que acontece nas ruas de uma grande capital. Tem uma vantagem de não se ter nada: as pessoas nunca terão mais inveja de mim. Quando trabalhava, na cidade onde tive os meus surtos, os outros empregados se preocupavam demais com o quanto eu ganhava, até a esposa do dono da firma chegava a brigar comigo, pelo fato dele não dar tanta atenção e dinheiro a ela. E, quando me aposentei, tive a sorte de conseguir o melhor quarto do prédio, e por ser um bom inquilino e também pelo fato do proprietário gostar de minha pessoa, eu pagava um preço menor do que o restante dos moradores. Tudo piorou quando eu pintei e reformei o quarto e comprei móveis. Parecia que o quarto era em um outro local, tamanha a diferença entre o restante do imóvel. Tive que aguentar muita coisa, pessoas fazendo de tudo para me aborrecerem e tirarem minha paciência, a fim de que eu saísse de lá. E também tinha o fato de eu ser um cara não muito ligado as drogas, eles achavam que eu era o caguete, quando a polícia baixava lá. Mas hoje estou bem, mesmo morando nas ruas, estou mais em paz, tirando esses pequenos acontecimentos que relatei. E também posso morar onde quiser agora. Pelo que pude ver, na internet, os lugares que visitarei nessa próxima viagem são bem legais, quem sabe encontro uma cachoeira e possa morar ali direto?
  

5 comentários:

  1. Seus posts são um deleite! Vamos lendo, lendo, e nem nos damos conta que lemos bastante já. Aliás, seus textos nunca são o bastante.
    Li seu livro em 2 dias. Muito bom! Deveria publicar.

    Boa sorte aí com tudo.
    Abraço.

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  2. Ola
    Adorei ler tudo que voce escreveu, tenho certeza que é uma daquelas pessoas que se páramos a conversar nem damos pelo tempo a passar, é muito sensato!!!! Admiro muito isso no ser humano, infelizmente é algo raro nos dias de hoje
    Desejo que tudo corra bem na sua vida. Um abraço

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    1. Obrigado Anabela pela visita ao blog. Até que nem sou muito de conversar, só depois que acabo me acostumando com a pessoa que perco um pouco a timidez. Tudo de bom para você por ai também.

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  3. Parabéns JUlio você escreve muito bem, suas narrativas, e experiências de vida são interessantes

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    1. Obrigado
      Nem sei se escrevo bem, mas as experiências que vivi realmente são interessantes, tudo o que passei foi complicado de se passar, mas não lamento nada, talvez minha vida teria sido muito monótona se tudo ocorresse da maneira considerada certa pela sociedade, ou seja, ter trabalhado como técnico de eletrônica, casado, ter filhos, etc...
      Escrevi um livro sobre os surtos psicóticos que tive e outras passagens que achei interessante. Na parte direita superior tem todas as informações, basta clicar na imagem para ser direcionado para a postagem que fala sobre o livro

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