quinta-feira, 20 de junho de 2013

Estrada Real: 20º dia


27 de maio de 2013-segunda feira
Passa Quatro-Vila do Embau

    Sou acordado exatamente às cinco e meia da manhã pelo funcionário do albergue de Passa Quatro. Às seis, já estava na rua.
    Tive uma excelente noite de sono, que recuperou minhas energias, mas não o meu ânimo e a vontade de prosseguir na estrada real. O albergue de Passa Quatro é muito aconchegante, limpo e o funcionário fez uma ótima sopa ontem de noite.
    Os tetos dos carros estão molhados pelo sereno da madrugada. Sento-me no gelado banco da praça para esperar o supermercado abrir. Tento, em meus pensamentos, encontrar algo que me dê ânimo para seguir o caminho. Na verdade, ao fazer uma reflexão, o que está pegando tanto não é o ânimo, e sim o receio de entrar em terras paulistas. Não sei como os paulistas irão receber o mineiro aqui. Pelo que pude perceber, os mineiros não têm nenhuma rixa com nenhum outro estado. Com a chegada da internet, pude perceber claramente a rivalidade entre paulistas e cariocas, ao ver os comentários em alguns sites. Por exemplo, quando acontece algo de ruim no Rio, os paulistas entram no site de notícias e fazem comentários bem pesados. O inverso também acontece. Sinceramente, não sei como esses sites publicam esses comentários, e, quando o assunto é futebol, ai é que o nível desce mesmo.


    Me questiono se ganharei alguma coisa se chegar em Paraty, já que o caminho foi bem legal até o momento. Mas também penso sobre como seria se desistisse, já perto do final. Provavelmente não iria me perdoar nunca. É aquela história: nadar, nadar e nadar e morrer na praia. Penso também nos leitores do blog, não iria me sentir nada bem publicando um post informando a minha desistência. Como estou bem fisicamente, resolvo proseguir.
   No supermercado, compro bananas, maçãs, biscoitos. A planilha informa que não encontrarei nenhum restaurante na hora do almoço, a não ser que eu ande bem devagar

   Até Vila do Embau, foram 33km de estrada de terra, trilhas e asfalto. Queria muito calçar o tênis, para poder acelerar a caminhada, mas o dedão do pé ainda não está 100% curado.
   No caminho, saindo de Passa Quatro e entrando no asfalto, não encontro o marco 1218, e tive meio que deduzir o caminho a seguir, pois os motoristas dificilmente param em estradas de asfalto. É muito ruim caminhar na incerteza até conseguir achar o marco seguinte. 
    Por volta das dez e meia já estava na divisa dos estados de Minas Gerais e São Paulo. Foi uma sensação legal que tive, como se estivesse cumprido uma etapa do caminho. As terras paulistas são uma incógnita para mim, e o desconhecido, ao mesmo tempo que me dá um pouco de medo, também me aguça a curiosidade.

    Saio do asfalto e entro em uma trilha na serra da Mantiqueira, que parece terminar em uma solitária propriedade com muitos pés de mexerica. Como não estava mais avistando os marcos, começo a bater palmas para ver se havia alguém em casa para me informar sobre a trilha. Quem me atende é um senhor aparentando ter uns 55 anos de idade, mais ou menos. O cara é super gente boa, com seu jeito de caipira me diz que os marcos da trilha foram jogados no chão há quatro anos atrás e que nunca foram colocados em seus devidos lugares, para orientar o viajante.
os marcos não foram colocados, a esquerda, a barriga do gente boa seu Jair
    Ele então me dá as coordenadas para seguir a trilha, e me alertou sobre as temíveis cobras urutus, que são comuns na região. Cortou um pedaço de árvore e me deu, para que eu pudesse me defender de um eventual ataque dessas cobras. Mas, antes de seguir o caminho, o seu Jair, me convidou para o almoçar. Claro que aceitei, não poderia recusar uma gentileza dessas. Conheci sua esposa, a dona Sônia, que é bem tímida. Conversamos um bom tempo enquanto almoçávamos. E eu sempre achando divertido o jeito caipira do Jair de conversar. 
   -Você é de onde?
   -Belo Horizonte.-respondo.
   - Tudo quanto é pessoa que passa aqui é de Belo Horizonte! Outro dia passou uma mulher com uma bicicleta que só faltava falar!- ele disse, e eu achando maior graça.
    -É que o mineiro gosta de caminhar...
    Foi difícil me despedir do seu Jair. Sua simplicidade e generosidade me deixaram muito feliz e aumentou a minha motivação de proseguir o caminho. Comecei a gostar de caminhar pelo estado de São Paulo.
    Olho a trilha e vejo que ela entra em uma mata bem fechada. Olho a planilha e fico na dúvida; seguir 3,5km de trilhas, com possíveis ataques de cobras urutus e descalço, ou então seguir 6,5km de asfalto, com carros passando a toda velocidade ao meu lado? 
    Nem demorei muito para pensar e escolhi a trilha, é claro. Além de ser mais perto, tenho essa forte ligação com a natureza. Peguei o galho de árvore que o seu Jair havia me dado e me embrenhei pela mata adentro. A trilha realmente entra em uma mata bem fechada, e, sem os marcos, as coisas ficam mais difíceis. Chega a bater um leve desespero em mim, mas logo em frente encontro um cara trabalhando no meio do mato, parece que estava abrindo caminho. Ele me informa que tenho que virar a direita para proseguir na estrada real. Foi sorte a minha, provavelmente iria seguir em frente e não sei aonde iria parar, perdendo um bom tempo até achar o caminho correto. 
    Essa trilha não é difícil de ser percorrida, mas aconselho a quem a deseja seguir, que pense duas vezes e procure se informar antes, se não souber exatamente onde se tem que virar a direita. 
    Não encontrei nenhuma cobra pelo caminho, mas dizem que ela é muito perigosa, e ainda estava descalço, para complicar as coisas.

    Terminada a trilha, sigo a BR052, que é boa de se andar, pois tem um bom acostamento. Só é preciso tomar cuidado nas curvas, pois alguns motoristas passam "voando" e não respeitam o acostamento. 
   No céu, pela segunda vez no dia, um helicóptero sobrevoa a  região. Na minha paranoica cabeça, são pessoas que estão monitorando a minha entrada em terras paulistas. 
    Estava bem fisicamente, sem dores e caminhando com boa velocidade. Mas, de repente, o céu começou a ficar um pouco mais cinzento e a temida chuva começou a cair sem piedade nenhuma aqui do mineiro. Abro a barraca e me protejo do jeito que posso. Até que dá para continuar a caminhar sem me molhar muito, mas o pior de tudo é o frio misturado com a água que cai sem parar. São duas horas da tarde e sigo até Vila do Embau sem parar, para não esfriar o corpo e também é complicado descansar debaixo de água. Com mais duas horas de caminhada, em estradas de terra e asfalto, chego finalmente ao destino do dia. Paro em uma mercearia e procuro me informar sobre onde poderia montar a minha barraca e passar a noite. Alguns moradores dizem que não sabem sobre algum lugar coberto, o que me deixa preocupado, pois o vendedor na hora foi sincero ao falar sobre a barraca, dizendo que a mesmo não aguenta fortes chuvas. Estava também fazendo aquelas perguntas para saber como é o povo paulista, se são atenciosos, receptíveis,etc. Depois de muito perguntar, um morador me indica o ponto de ônibus do distrito.
    Espero a chuva dar uma trégua e vou ao local que me indicaram. O ponto de ônibus é bem amplo, é dá para montar a barraca sem problemas com a chuva. O dia está fechado, às cinco e meia da tarde tudo já está escuro em Vila do Embau. Espero que amanhã o tempo melhore. É a segunda vez que chove durante o caminho, que, para mim, é pior do que o sol forte e o frio. Estou muito ansioso sobre essa minha primeira noite em São Paulo, sinceramente não sei como será a receptividade dos paulistas. Creio que terei muita dificuldade de pegar no sono.
foto tirada às cinco e meia em Vila do Embau


3 comentários:

  1. Grande Julio!

    Que medo dessas cobras aí, hein? Eu ia pedir pra acampar na casa do seu Jair! haha

    Boa sorte em terras paulistanas!

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    1. Verdade cara, pelo jeito que ele falou, essas urutus ai não são brincadeira, me deu até o pedaço de galho de árvore. O seu Jair é muito gente boa, foi complicado de se despedir dele, fiquei conversando, conversando até conseguir dizer que tinha que ir embora. Esse receio de entrar em São Paulo sei que é mais coisa de minha cabeça mesmo, acho que fico com sindrome do estrangeiro quando saio de Minas rsrsrsrs.

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  2. Te desejo uma ótima jornada em terras paulista.Abraço da Ana.

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