quinta-feira, 6 de junho de 2013

Estrada Real: 15º dia


22 de maio de 2013-quarta feira
Cruzília-Baependi-Caxambu
    Acordo não muito animado, apesar de ótima noite de sono. É daquelas manhãs em que não acho graça em nada. Também estou um pouco triste por deixar Cruzília, cidade que me recebeu tão bem. 
    Depois de um dia de folga, é hora de recomeçar. A dor na canela esquerda foi bastante aliviada com o repouso e com a injeção. Há ainda um incômodo e tenho receio que a dor volte. 
    Ontem foi um dia quase perfeito. Quase, por que não existe a perfeição, e também por que machuquei o dedão do meu pé em uma calçada de Cruzília, que, em alguns quarteirões, são bem estreitas. Me machuquei ao ir para o canto da calçada, quando passava uma senhora. Sem querer, pisei bem na quina da calçada e levei um corte bem profundo no dedão. Confesso que deu vontade até de chorar na hora, não pela dor, e sim pelo incômodo que isso irá causar, por não poder usar o tênis. 
    A princípio, pensei que o machucado não fosse tão sério assim, ao vê-lo de noite.  Mas, a luz do dia percebi que era bem mais complicado do que eu pensava. Ainda bem que eu não arranquei a pele, que ficou meio que solta no dedão. Eu sou daquelas pessoas que não para de ficar fuçando os machucados, nunca tive paciência de esperar uma ferida cicatrizar completamente e não paro de ficar mexendo na casquinha, acho que tem muita gente assim também. Acho que vou ter que fazer o restante da caminhada de chinelo. 
    Hoje, o caminho a ser percorrido é bem light. São 26km de estrada de terra, e o melhor, tem lugar para almoçar no meio do caminho. Apesar da folga e da comilança do dia de ontem, creio que ainda estou abaixo do meu peso, só de me olhar no espelho. Mas engordar é fácil, isso não é problema. 
    A estrada para Baependi é legal de se percorrer, só tem muita poeira e algumas subidas fortes no início. Depois do marco 1100 entro em uma trilha, fácil de ser percorrida, mas sem sinalização. Erro o caminho e vou parar no meio de um cafezal. Nesse trecho é só seguir em frente na principal, não entrando a direita para não entrar em uma propriedade privada.

pedra de São Thomé
    Volto a trilha e começo a cantar. Meu humor melhorou depois que o sol apareceu. Acho que a propabilidade de alguém aparecer por aquela trilha é de 0,0000000002% e então começo a "cantar". Primeiro Zeca Pagodinho, usando o colchonete como tan tan e, depois emendo com Another Brick in the wall, do Pink Floyd. Depois do refrão, em uma curva, me aparece uma mulher, vindo do nada, subindo a trilha com uma bicicleta ao seu lado. 
    - Aqui sai na BR, né?- perguntei, meio sem graça. 
    Ainda bem que não era uma cachoeira. Mas também ela não iria se assustar, nem iria ver grandes coisas.

a cidade de Baependi está toda enfeitada por causa da beatificação de Nhá Chica
     Chego a Baependi por volta das onze horas, mas levo um bom tempo para se chegar ao centro da cidade. Fico surpreso ao olhar a planilha e constatar que andei 18km na parte da manhã. Almoço muito bem em um ótimo restaurante da cidade e ai depois me bate aquele soninho. Procuro um lugar mais tranquilo e, como faltam apenas 6km para se chegam em Caxambu, resolvo tirar uma soneca. Creio que descansei por uma hora, só parando quando um cachorro começou a lamber minha cara querendo brincar comigo. Como ele não estava me dando sossego, resolvo prosseguir. A cidade de Baependi está toda enfeitada com bandeirinhas nas cores verde e amarela, em homenagem a Nhá Chica, que foi beatificada pelo papa e viveu naquela cidade. 
    No caminho para São Sebastião da Vitória, vi, em uma placa na BR, que Nhá Chica nasceu no povoado de Rio das Mortes, perto de São João del Rei. Por que não mudam o nome do povoado para Nhá Chica? Ou um outro nome qualquer, menos de rio da morte.
    O caminho para Caxambu é todo plano, só retas mesmo, quase não passa veículos. Só o início é que tem muitas pedras de São Thomé espalhadas pelo chão e temos que ter cuidado para não pisar nelas e sofrer uma torsão no pé. Chego em Caxambu por volta das três horas da tarde. Acho que foi o trecho mais tranquilo e agradável de se percorrer, tirando a trilha do início. Vou em uma lan house para descansar um pouco. A net é bem lenta, para variar, mas o preço, bem salgado: três reais! Em Cruzília, uma net melhor é 1,25 reais a hora. É a estrada dos reais... 
    Lá pelas cinco da tarde procuro um local para tomar um bom banho. Não encontrei nenhuma cachoeira pelo caminho e, acho que, mesmo se encontrasse, não entraria na água, por causa do frio. Resolvo então ir até a rodoviária para encontrar um chuveiro, mas, o o que eu encontro pelo caminho? Um ginásio de esportes! Sem cerimônia vou entrando na quadra e falo para o pessoal que está batendo uma bolinha sobre a minha viagem, e eles me deixam tomar um banho numa boa. O chuveiro é quente, o dia está sendo melhor do que eu esperava. 
    Na ida para rodoviária encontro um local legal e tranquilo para montar a minha barraca: um velório! Não que estava tendo um velório no momento, é que o local é usado especificamente para essa ocasião. Tem pouco movimento em volta, e, se não morrer ninguém na cidade, creio que terei uma boa noite de sono. 
    Vou ao principal supermercado da cidade para conseguir o imprescindível papelão. O cara que me atendeu foi super legal comigo e me arrumou um monte, tudo arrumadinho dentro de uma caixa de TV de LED de não sei quantas polegadas. 
     Foi um dia legal, sem perrengues, com pessoas legais pelo caminho, e sem muito cansaço durante a caminhada. Vou para a praça lanchar, havia comprado algumas frutas no supermercado. O centro de Caxambu é bem legal e simpático, bem limpo e sem muita confusão. Um cara, ao ver minha mochila, começa a conversar comigo. Ele me pergunta onde pretendo montar a minha barraca e respondo que será no velório. Ele acha engraçado e me diz que na rodoviária, no ponto de táxi, tem um bom lugar para dormir. Respondo a ele que, assim que acabar de escrever, irei para lá. 
    Como disse, foi um ótimo dia. O caminho é legal de se percorrer, não fez muito calor, tem lugar para se almoçar na hora certa. Acho que se a estrada real fosse toda assim, iria ficar meio sem graça. Bem, se a noite vai ser tranquila ou não, só saberemos no próximo post em mais um capítulo de: O esquizo na estrada  dos reais.

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3 comentários:

  1. Julio,

    Seu relato eh uma comedia!

    Essa de dormir num velório foi hilarica, ri demais!

    Seu relato está cada dia melhor!
    Marioluc

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  2. eai parceiro, como esta a noite ai? caramba, pelo jeito voce rancou a cabeça do dedo hein. sera que tem um cicatrizante baratinho nas farmacias? eu nao sei... voce ja trombou com chuva no meio do caminho nessa sua viajem?(tomara que nao)
    flw abraço, vou aguardar o proximo post, mas com essa lan de 3 reais a hora fica dificil em.(o cara quer ficar rico com lan house)

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    Respostas
    1. A noite foi bem legal também, foi daqueles dias quase que perfeito, sem perrengues, pessoas legais pelo caminho, ar puro, belas paisagens. O machucado foi pior do que eu pensava cara, ainda bem que de noite eu não arranquei a pele, que ficou meio que pendurada. Acho que a pele que não arranquei vai ajudar a cicatrizar melhor, além de proteger. Eu já tinha machucado assim antes, e tinha arrancado a pele, e ai demorou pra caramba para se formar os tecidos epiteliais rsrsrs(baixou o médico em mim). Até agora a chuva não apareceu não, é a pior coisa que pode acontecer no caminho, por isso escolhi essa época do ano para fazer essa viagem longa. Até que nessas lans do caminho o preço não é o maior problema, é a velocidade, ai o preço final fica salgado. Teve lan house pelo caminho que demorava quase cinco minutos para baixar uma foto para o blog, se fosse baixar todas dava para chegar em Paraty e voltar ainda rsrsrs Obrigado por visitar o blog parceiro

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