Estrada real: 8º dia


14 de maio de 2013 terça feira
Lagoa Dourada-Prados
o caminho para Prados é bem tranquilo

    A noite de sono foi ótima! Quase não senti frio, pois caprichei no forro com o papelão. Essa minha barraca não é própria para o frio. Vou ver depois se consigo comprar uma que também resista a chuva. 
     Planejo sair o mais rápido possível de Lagoa Dourada, pois se não irei torrar todo o meu dinheiro em rocamboles. Mas tenho que esperar o comércio abrir, para comprar sabonete, sabão, creme dental e outras coisas. Tenho que tomar um bom café da manhã, pois pelo que fiquei sabendo, não existe restaurante no caminho para Prados. 
      No centro, percebo as lojas de rocambole abertas, e fico sabendo que elas abrem as seis da manhã e fecham às dez da noite. Muitas pessoas que passam pela BR acabam entrando na cidade só para comprar essa delicia, que foi o melhor que experimentei em toda a minha vida! 
    Ontem estava tão cansado que cheguei a pensar a passar o dia inteiro em Lagoa Dourada, a fim de dar um descanso para minhas canelas. Mas acordei tão disposto que resolvi prosseguir. Na balança da farmácia, constato que engordei um quilo, resultado da comilança de rocamboles, mas já já a estrada real tira ele de volta. 

    O caminho para Prados é tranquilo, 20km de estrada de chão com pouquíssimos carros passando para levantar a poeira. A paisagem é muito bonita para variar, e não canso de tirar fotos. A trilha também é de nível fácil, mas poderia ser melhor se tivesse uma seta dentro dela, pois quando a mata fica fechada, podemos pensar que não estamos no caminho certo. 
   Está tudo tão tranquilo que tomo o meu banho de cachoeira e ainda lavo minhas roupas. O caminho até Prados só é um pouco difícil no final, com subidas um pouco fortes. Como sempre, não paro muito perto do final, a ansiedade para chegar na cidade me faz cometer esse erro e quase sempre chego cansado nas cidades.
    Na entrada de Prados tenho uma bela surpresa: lojas e mais lojas de artesanato com peças muito bacanas,principalmente as esculturas em madeira de animais. Não resisto e saio tirando foto de tudo o que vejo pela frente até a bateria de minha câmera acabar. No centro, tomo um belo lanche e vou ao supermercado para pegar os pedaços de papelão para forrar a minha barraca. Pego  máximo que consigo carregar e começo a procurar um local tranquilo para dormir. O coreto da praça do centro é muito movimentado e resolvo então montar a minha barraca atrás da igreja matriz da cidade. Depois de uma longa subida, chego ao local, mas percebo que a igreja tem uma portaria que é trancada de noite. Acho um cantinho perto da igreja mesmo e converso com os moradores para saber se posso montar minha barraca naquele lugar. Como eles disseram que não se importavam, montei a minha humilde residência por ali mesmo, estava muito cansado e queria dormir cedo. Pedi a um "vizinho" para carregar a bateria da minha câmera e ele foi super gente boa comigo. Me deu algumas mexericas, um pedaço de bolo bem quentinho e encheu minhas garrafinhas de água, dizendo que, precisando de qualquer coisa, é só chamá-lo.




     Barraca montada, resolvo descansar um pouco, mas de repente chega a polícia. E foi aquele baculejo. Tive que mostrar tudo o que estava dentro de minha mochila, fiquei um pouco sem graça. Não encontrando nada demais, foram embora. Depois fiquei sabendo que foi uma outra vizinha que tinha chamado a policia. Foi uma com quem eu não conversei e me olhava com estranheza. Até que entendo o lado dela, afinal eu sou um estranho que, de repente aparece em sua cidade e monta uma barraca perto de sua casa. Os policiais foram muito educados comigo, até entendo o lado deles.
    Terei que fazer um empréstimo durante a viagem. Havia prometido a mim mesmo que só comeria coisas simples durante a viagem, mas não consegui resistir aos quitutes da culinária mineira. Só de rocambole acho que gastei uns quinze reais! 
     No momento em que estava escrevendo este post, uma outra viatura apareceu, com um outro policial. Pergunto se ele não recebeu nenhum aviso de que eu já fui devidamente revistado e identificado por outros policiais e ele me disse que não estava sabendo de nada. Pensei que teria que mostrar tudo de novo, mas ele só me pediu os documentos. Também foi muito educado comigo e me deu até dicas sobre o próximo trecho a ser seguido. 
     Logo depois, a senhora que no início estava desconfiada de mim me oferece um prato de feijoada! Ô coisa boa é ser mineiro! A esposa do vizinho que carregou a bateria de minha câmera até chegou a oferecer um quarto para que eu dormisse com mais tranquilidade, mas, resolvi não aceitar, por que a barraca já estava montada e provavelmente não iria aparecer mais policiais querendo saber o que estou fazendo naquele lugar. 
    Mais tarde, um grupo de estudantes aparece para conversar comigo. Disseram que queriam fazer algumas perguntas para o trabalho da escola deles. Falei sobre esquizofrenia, o blog, religião, a estrada real e outros assuntos mais. Deviam ter entre 15 e 17 anos e fiquei surpreendido com o interesse deles por esses assuntos. A mais comunicativa, que me fez as perguntas, é bem simpática e tem jeito de repórter. Disse que acompanharia o blog( se estiver lendo, pense em fazer jornalismo, parece que você leva jeito para ser repórter). 
    Depois da conversa, vou dormir. O dia, que começou bem monótono e tranquilo, terminou bem agitado. Mas foi um dia feliz.


Comentários

  1. Grande Julio,

    Que bom que as coisas vão indo bem. Sobre a barraca, pro futuro eu lhe sugiro uma Nautika Falcon 2. Não é cara, é bem pequena e leve, ocupa pouco espaço e tem uma resistência muito boa à chuva - além disso, o teto é removível e fica bem fresquinha nos dias de calor.

    Mas se quiser aproveitar a barraca antiga, compre apenas uma lona mesmo, dessas de piscina, e uma cordinha, para armar um teto. E sobre o frio, não tem jeito: É preferível investir num bom saco de dormir, como o Víper da Nautika, que aguenta até 5ºC.

    Boa sorte e boa viagem!

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    Respostas
    1. Obrigado pelas dicas e por seguir o blog. Acho que vou comprar uma nova mesmo e depois um saco de dormir, ai não precisarei de carregar o cobertor. Se a barraca da Nautika não for cara, irei comprá-la, pois no início do ano que vem vou ver se dá para ir para alguma praia. Abraços

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