terça-feira, 21 de maio de 2013

Estrada Real; 6º dia



12 de maio de 2013 domingo
Entre Rios-Casa Grande
    A noite foi bem complicada. Muito frio, pior do que em Pequeri. De madrugada tive que usar duas meias e depois calçar o tênis, senão o meu pé iria congelar. Ao sair de minha barraca, por volta das sete da manhã, só vejo neblina. Ao encher minhas garrafinhas de água na pracinha, penso que está começando a chover, mas são apenas gotas de orvalho caindo de um coqueiro. O frio está tão intenso que não dá vontade de continuar dormindo, e então rapidamente desmonto minha barraca para poder me movimentar e aquecer. 
    Na padaria tomo um cafezinho com pão e manteiga. A menina do balcão é um doce de pessoa, muito alegre e comunicativa. Ficamos conversando enquanto eu tomava o café, e, quando disse o meu destino, perguntou:
    - Você é doido, né?
    Respondi que mais ou menos, e ao me despedir ela me desejou uma boa "viagem maluca" para mim. Muito cativante ela,gostaria de continuar a conversa, mas o caminho de hoje é longo, são 30km de estrada de chão e um pouco de asfalto também. 
muito frio em Entre Rios
     Sigo a planilha e vou até a igreja matriz. Pergunto a um senhor a direção da saída da cidade e ele me manda seguir pela esquerda. Desço direto até a BR, mas não encontro nenhum marco da estrada real. Alguns quilômetros mais adiante, descubro que a saída para Casa Grande era a direita, e não para a esquerda, como o senhor da igreja havia me indicado. Andei 2km a toa, logo hoje que o percurso é mais longo. 
    Os marcos da estrada real e as planilhas têm alguns erros, e, se não prestarmos atenção, saímos fora do caminho, podendo nos perder no meio do mato, o que é um pouco desesperador, pois muitas vezes não tem ninguém por perto para nos ajudar. Na BR, descubro que posso cortar caminho e ir direto para Lagoa Dourada, a famosa terra dos rocamboles. Fico na dúvida para onde ir, quase caindo na tentação do quitute. Afinal, nunca tinha ouvido falar na cidade de Casa Grande,  só sabia que o comentarista da TV Globo, o Casagrande, havia nascido lá. Mas, analisando a situação comigo mesmo, resolvo seguir na integra a estrada real, era o que eu havia proposto no íncio da caminhada. 
    A maior parte do percurso é de estrada de terra mesmo, são 30km, sem lugar para almoçar no meio do caminho. A paisagem também é muito bonita, e não tem como passar sem tirar algumas fotos. Pequenas igrejas, serras, montanhas, enfim, Minas Gerais. Por volta do meio dia, paro em um bar para comer um salgado, mas resolvo bater de porta em porta para ver se alguém me vende um pouco de comida, já que o caminho é um pouco desgastante. Logo na primeira tentativa, já sou atendido e a dona da casa me aparece com um prato com uma montanha de comida, mais do que eu como habitualmente. A comida está ótima, como tudo só para não fazer desfeita, e fico um pouco empapuçado. Durante o almoço, falo sobre esquizofrenia, sobre o meu blog e ela disse que iria acompanhar. Também converso com dois ciclistas que pararam no bar. Falamos sobre trilhas e viagens e fiquei sabendo que existem bicicletas mais caras do que carros. 
    Barriga cheia, continuo o caminho, sem maiores problemas. Estou andando cada dia melhor, até me dou o luxo de parar e tomar mais um banho de cachoeira. Chego a Casa Grande por volta das quatro horas da tarde e ainda dá para ver o jogo da final do campeonato mineiro, entre Atlético e Cruzeiro, para variar. 
    A dona do bar onde assisti o jogo, as saber que eu estava indo para Paraty, perguntou-me se eu estava doido. Muitas pessoas, no caminho, ao ver a minha mochila, me perguntam para onde vou e todas ficam espantadas com a minha resposta. Já me disseram:
    - "Cê" tá animado hein?
    - Você trabalha com isso? ( essa pergunta eu não entendi)
    - Você vai ganhar um prêmio?
    -Você é devoto?
     Teve um cara que, ao ouvir minha resposta, simplesmente não disse nada, só arregalou os olhos. Será que é loucura mesmo andar 700km? O caminho de Santiago na Espanha tem 900km e um monte de gente o percorre. 
     São seis e meia da tarde, o frio está chegando e já armo minha barraca no coreto da cidade. Quero acordar cedo, amanhã também serão 30km a serem percorridos, o que é um pouco puxado para mim. O ideal seria entre 20 a 25km por dia, mas faz parte do caminho. Estou ansioso para chegar a terra dos rocamboles, e experimentar esse famoso quitute tão falado em Minas Gerais. 

Essa música é bem simples, do Zé Geraldo, mas tem tudo haver com o caminho. Gosto muito dela, a música nem sempre precisa ter quantidade de instrumentos para ser bela. Às vezes um simples violão já basta. 



Vou pro campo
No campo tem flores
As flores têm mel
E mais de noitinha
estrelas no céu
O céu da boca da onça é escuro
Não cometa, não cometa, não cometa furo
Pimenta malagueta não é pimentão
Vou pro campo
acampar no mato
No mato tem pato, gato e carrapato
Canto de cachoeira
Dentro d'água pedrinhas redondas
Quem não sabe nadar
não caia nessa onda
A cachoeira é funda e afunda
Não sou tanajura mas eu crio asas
e com os vagalumes eu quero voar
O céu estrelado hoje é minha casa
e fica mais bonita quando tem luar
Quero acordar com os passarinhos
Cantar uma canção com o sabiá
Dizem que verrugas são estrelas
que a gente aponta
Que a gente conta antes de dormir
Eu tenho contado
mas não tem nascido
Isto é história de nariz comprido
Deixe de mentir
Os sete anões pequeninos
Sete corações de meninos
A alma leve
São folhas e flores ao vento
O sorriso e o sentimento
Da Branca de Neve

3 comentários:

  1. Grande Júlio, essa viagem tá ficando cada vez mais bonita! Que bom que as dores deram uma diminuída, mesmo que pra isso você tenha que ter perdido um pouco de peso, rs. Tá certo, se não dá pra tirar nada da mochila, queime as gordurinhas!

    Uma das coisas que mais gosto nessas grandes jornadas é o encontro com as pessoas. Muitas delas serão verdadeiros anjos em nosso caminho, seja oferecendo um copo de água, um prato de comida ou simplesmente uma palavra de motivação. Aproveite cada momento, e não se preocupe com o destino: curta o caminho!

    Abração, boa sorte, estou torcendo por você!

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    1. Verdade, o mais legal da viagem,além de conhecer novos lugares, é também conhecer as pessoas que aparecem pelo caminho. Tem momentos difíceis em que penso em desistir, mas essas pessoas me fazem ter força para continuar. O caminho é como se fosse uma representação da vida real, passamos por bons e maus momentos, e nas dificuldades sempre aparece alguém para dar uma força. Obrigado pela visita ao blog.

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  2. Olá Julio,

    Desistir, claro que não!
    Vai na fé que vc consegue....

    Ainda vai passar por muitas provações, só assim crescemos.....
    abs

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