sábado, 25 de maio de 2013

Estrada Real: 10º dia


16 de maio de 2013 quinta feira
São João Del Rei-São Sebastião da Vitória
igreja matriz de São João Del Rei

    Não dormi bem. Ontem, por volta da meia noite, fui acordado por dois policiais. Foi uma pena, pois estava começando a pegar no sono. Eles fizeram as perguntas de praxe: de onde vim, para onde vou, se trabalho ou não, etc. Pediram a minha identidade e depois foram embora. Para piorar tudo, o sino da igreja tocava de quinze em quinze minutos. Sempre quando ia pegar no sono, o sino tocava. Estava cansado demais para mudar  a barraca de lugar e resolvi ficar por ali mesmo. Para piorar ainda muito mais as coisas(pensava que não tinha jeito!), um vascaíno doente ficou perambulando pelas redondezas a madrugada inteira, cantando músicas do clube cruzmaltino. O por que eu não sei, faze tempo que o Vasco não ganha nada. Ou ganhou? Eu estou tão por fora de tudo, mas o campeonato brasileiro nem começou, e esse time do Vasco está muito ruim para ganhar alguma coisa. Só se tiver contratado o Messi e mais dez jogadores de seleção. 
    Por três vezes, algumas beatas, ao verem a barraca montada na igreja, perguntam:
    - O que é isso?
    - É uma barraca de camping...- eu respondia, em tom de brincadeira. 
    Depois de desmontar a barraca, entro na igreja matriz de São João Del Rei, que também é muito bonita por dentro. Desta vez, foi possível tirar fotos. Peço ao vigia para ver o mecanismo que faz com que o sino toque de quinze em quinze minutos, mas ele me diz que somente o sineiro da cidade possui a chave. Queria me vingar do sino, sabotando aquelas engrenagens. Perguntei para várias pessoas ao redor da igreja se existia algum motivo, razão ou circunstância para que o sino tocasse em um intervalo tão curto de tempo, mas ninguém soube me responder. Depois, eu que sou doido né?

  
 
     Ao sair da igreja, adivinhem quem eu encontro? O vascaíno doente, que estava de shorte e blusa de manga curta. Ao me ver, me cumprimenta:
    - E ai primo? Essa noite fez frio hein?
    Tem horas em que me sinto a pessoa mais normal do mundo!
    Muita neblina na cidade. Vou ao banco Mercantil para fazer um emprestimo, pois ultrapassei o meu orçamento inicial para a viagem. Havia combinado comigo mesmo de comer pouco e coisas mais baratas, mas, como já disse anteriormente, não tem como não resistir aos quitutes da culinária mineira. Só  de rocambole foram mais de quinze reais. 
    Muitas vezes, quando saio de manhã das cidades, rola um pouco de stress, por não encontrar o marco inicial do trecho a ser seguido durante o dia. Os moradores, às vezes, dão informações erradas e desencontradas. O melhor é sempre perguntar aos motoristas.
cenário nada animador na manhã em São João
     Ao olhar a planilha do dia, percebo que há um aviso dizendo que falta um marco no meio de uma trilha. Se já pode ser complicado seguir uma trilha com todos os marcos, imagine faltando um? "Ô pessoal da estrada real, assim não dá! Tem quantos anos que está faltando esse marco? Vocês querem que eu carregue um nas costas e o coloque lá? Me ajuda ai pô""
    Resolvo então seguir pela BR, até São Sebastião da Vitória, e assim evito um povoado com o sugestivo nome de Rio das Mortes. Isso é nome de se colocar em um povoado?
    Horas depois, fiz uma análise e me pergunto se evitei a trilha por ter passado maus momentos na trilha de Ouro Preto. Acho que a falta de um marco foi apenas um pretexto para evitar essa trilha. Vou inventar uma nova doença:"stress pós trilha difícil". Toda vez que entro em uma trilha, principalmente de mata fechada, fico um pouco apavorado, suando frio, coração acelerado. Essa doença vai estar no próximo DSM(um livro de desordens mentais, criada pelos americanos) Vou falar com alguns psiquiatras americanos, lá da Carolina do Norte, que são meus chegados e são os responsáveis por classificar(ou inventar?) as doenças. Hoje em dia está todo mundo louco. O último DSM não deixou escapar ninguém. Você, que adora e é viciado em um cafezinho, agora é um doente. Quem não sai do shopping também é, juntamente com aquelas pessoas que adoram e não saem de uma academia. Daqui a pouco, quem não tiver nada que esteja no DSM, vai ser classificado como louco, já que a maioria das pessoas possuem uma desordem mental já classificada no DSM. Ou seja, se a maioria é normal, então quem não tem desordem mental é minoria, portanto, é louca. Pra falar a verdade, eu não dou a mínima para esse tal de DSM. 
    Voltando ao caminho, sigo a BR. São 22km de estrada, que a princípio, parecem fáceis de percorrer.Mas com o tempo, o sol e as subidas íngremes mudam a minha opinião. Por volta do meio dia, já dou sinais de cansaço, mas o pior de tudo são as bolhas e as dores na planta dos pés. A musculatura até que está indo bem. Paro algumas vezes na estrada, mas não adianta muita coisa. Por volta de uma hora da tarde, já estou meio que cambaleando. O sol está de rachar e fico no meu limite, mas faço o possível para chegar cedo a cidade de São Sebastião da Vitória. A BR é muito estreita, alguns caminhões passam bem próximos a mim e o deslocamento de ar que eles provocam chega a me balançar. Não recomendo a ninguém que andem por essa BR.
br complicada de se andar


um tornado?
   Estou todo suado, minha calça e a minha camisa estão molhadas, o que dificulta uma carona. Geralmente é difícil se conseguir uma carona na BR, pois os carros passam muito rápido, e as pessoas são mais desconfiadas. Já nas estradas de terra é mais fácil de se conseguir carona. Começo a cantar, xingar, falar alto, para tentar me incentivar. Digo para mim mesmo que já passei por coisas mais difíceis e que não será algums quilometros de estrada que irão acabar comigo. Mas estou em cacos, praticamente me rastejando. Depois de nove dias andando sem parar, meu corpo já começa a dar sinais de cansaço. A noite mal dormida em São João Del Rei talvez tenha contribuido para esse cansaço todo, sei lá. Ou talvez seja o fato de andar pela BR, que cansa um pouco mais do que pela estrada de terra. Além de perigoso, é cansativo andar pela BR, por ser estreita, toda hora temos que nos encostar para deixar os caminhões passarem. Na maioria das vezes, não há espaço para se andar rente a BR, e temos que nos arriscar.
    Estava tão cansado que enxerguei o nome da cidade de São Sebastião da Vitória em algumas placas, mas depois constatei que foi apenas uma ilusão. Após um esforço fora do comum, finalmente chego a cidade. Encontro um restaurante na entrada e ao mesmo tempo que sacio a minha fome, dou um descanso para as minhas pernas. Continuo o caminho logo depois, sem ao menos tirar uma cesta. Logo chego ao último marco do dia, em frente a igreja matriz, onde alguns moradores da cidade estão conversando. Pergunto se posso montar a minha barraca naquele local, já que estava sem condições de ficar andando para procurar um outro lugar. Um senhor me fala que na cidade existe um abrigo, que era só procurar uma tal de dona Zilota.
São Sebastião da Vitória
     Após um descanso, fui atrás da tal dona, mas ela tinha saido para rezar. Vou para o abrigo e fico quase uma hora esperando a dona Zilota acabar de rezar e, quando ela passa por mim, me diz que não toma mais conta do lugar e que era para procurar um tal de João Vitor. Chego a pensar em desistir do abrigo, estava muito cansado, mas resolvo fazer um último esforço. Vou até a casa dele, mas uma mulher me diz que o abrigo fica aberto, que era só entrar e dormir.
    Volto para o abrigo e a porta realmente está aberta. O lugar não é dos melhores, mas para o momento é como se fosse um hotel cinco estrelas. Tomo um bom banho, lavo minhas roupas e vou descansar, pois meus pés estão ardendo de tanto andar. Não sei o por que desse cansaço todo, já havia andado mais de 30km em um dia sem maiores problemas. Será que é hora de parar por um dia?

10 comentários:

  1. Ola colega noite sem descanso é duro.dia agitado mas que bom que no fim tudo deu certo , agra descanse e se renove pra continuar essa jornada muito legal.Abraço da Ana

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    1. Obrigado Ana, eu já estava prevendo essas dificuldades, faz parte do caminho mesmo, mas no fim tudo dará certo.

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  2. Julio,

    Que pena que não passou na trilha entre sjdr x ss vitória, não teria sofrido tanto...é que no asfalto o calor que reflete do piso é muito grande, aumentando a perda de líquido do corpo....o corpo trabalha no limite.

    Preciso de um favor seu:
    Sou aquele senhor do Mochileiros que fez a estrada real em jan/fev...o MARIOLUC....
    "É que na trilha em Passa Quatro x vila Embaú, quando fiz, estava chovendo muito, e não consegui tirar fotos depois da boca do túnel da serra da Mantiqueira até a porteira onde vc vai descer para a vila....."

    Se vc puder tirar umas 4 fotos desse trecho e postar no relato de viagens meu no site do mochileiros eu agradeço muito.
    Obrigado
    Marioluc

    Parabéns pelo ótimo relato que está postando...muito bom mesmo.

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    1. Verdade, o caminho em estrada de terra ou nas trilhas é bem mais agradável, é que na planilha está dizendo que falta um marco na trilha. Ai estou meio traumatizado com essas trilhas da estrada real. Também queria chegar de qualquer jeito no horário do almoço e ai não parei para descansar. Vou postar sim as fotos que você me pediu, mas acho que não tirei muitas fotos desse trecho não, choveu também por volta das duas da tarde, nem deu para tirar a foto da ponte que caiu, mas vou dar uma olhada aqui, acho que tirei algumas fotos, mas não muitas, pois o trecho é na maior parte na br. Tive que caminhar com a barraca como capa até Vila do Embau, estranho está chovendo todo dia de tarde.

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  3. BOUA NOITIIIIIIII.....CADA LUGAR ENCANTADOR VOCE TEM CONHECIDO....VALE CADA BOLHA NO PÉ....HIHIHIHI...SAIBA KE MILHOES DE PESSOAS SONHAM EM E SER ASSIM...DESTEMIDO...CORAJOSO E FELIZZZZ... PODE-SE DIZER.....REALIZADO POR FAZER TUDO COMO KEIRA E QUANDO KEIRA....HIHIHI...VAMO KE VAMO...FORÇA NA PERUCA KE KERO VER MAIS FOTINHAS...POIS PRETENDO CONHECER ESSA REGIÃO......SÓ KE DE BUSÃO...RSSSSSSSSSSS.....DEUS TE ABENÇOE...E LHE PROTEJA SEMPRE...AMEM...ABRAXINHU PLA VXXXXXXXX

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  4. Quantas figuras pelo seu caminho, hein! Morri de rir da história desse vascaíno!

    PS: Depositei um dinheirinho referente ao livro na sua conta. Assim que scannear o comprovante, te passo por e-mail, mas não tenho pressa, pode ficar tranquilo de só me mandar quando realmente tiver um tempo.

    Abraços, boa sorte e boa viagem!

    Em tempo: Você tem alguma ideia/previsão de quando estará pisando em terras Paratienses?

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    1. Não precisa scannear o comprovante não, vou lhe mandar o livro assim que abrir os emails, está chovendo, e está uma complicação danada para continuar, estou pensando no que fazer, mas acho que vou percorrer o trecho final de qualquer jeito, mesmo que chova canivetes. Obrigado pela visita ao blog.

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  5. Obrigado Wendell por seguir o blog. Realmente aparece pessoas bem engraçadas pelo caminho. Em relação ao livro, vou lhe mandar por email, não precisa mandar o comprovante. Em relação a previsão de chegar em Paraty, as coisas no momento estão complicadas. Está chovendo muito todos os dias na parte da tarde. No primeiro dia, até que deu para caminhar, por que o trecho era na BR, mas quando o trecho é em estrada de terra e trilha, fica complicada de se andar, ainda mais por que machuquei o dedão do pé e não está dando para calçar o tênis. Vamos ver se o tempo vai melhorar.

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  6. Ola Júlio,

    Obrigado pela resposta.....

    Não tirei as fotos do trecho entre a boca do túnel da serra no topo da serra da Mantiqueira até quando vira para descer a serra....lembra desse trecho, ele é feito ao lado dos trilhos da estrada de ferro......um trecho com o mato alto.....
    Só desse trecho mesmo....

    Vc conseguiu passar pelo rio na ponte que caiu? nós não conseguimos pois o rio estava muito cheio, tivemos que voltar uns 5 kms e pegar um busão para Bragança paulista.

    Obrigado.
    mariolus

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    1. Lembro desse trecho sim, acho que tirei uma foto onde o mato estava alto. Tirei umas fotos também dos marcos caidos, que nunca foram colocados em seus lugares. Depois irei te mandar por email a foto desse trecho. Eu consegui passar sim pelo rio, o pessoal fez uma pequena ponte de madeira improvisada, mas foi perigoso descer até lá, por causa da chuva, estava escorregando muito, e com o peso, um escorregão ali poderia ser complicado, por causa das coisas que estão dentro da mochila. O rio estava alto também naquele dia, e a água descia com muita força, é meio arriscado passar pela água do rio, mas deu para passar na ponte improvisada.

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