segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Cem mil visualizações, Dicas para mochileiros e pesquisa sobre ronco


Dicas de viagens para mochileiros de primeira viagem
    Se você tem disposição para sair viajando por ai, com uma mochila e uma barraca nas costas, ai vão algumas dicas de quem tem um pouco de experiência nesta prática. Também sou um principiante, mas já aprendi bastante coisa nestas minhas andanças. . Para saber como foram minhas viagens é só clicar nos links abaixo:
-Caminho do Padre Anchieta
Estrada Real: caminho velho
Estrada Real: caminho de Sabarabuçu
    A próxima viagem farei no início de janeiro, pelo litoral de São Paulo. Esse caminho se caminho se chama passos dos Jesuítas, e tem um total de 370km.
rota do caminho dos Jesuítas, no litoral de São Paulo


1- Vestimentas
    Não vá viajar com um short da adidas ou com o tênis nike novinho que você acabou de ganhar. Dê preferência a roupas mais usadas, e, se tiverem um rasgadinho, melhor ainda. Caso um meliante o interpele pelo caminho, você poderá dialogar com ele, mostrando que suas atuais condições financeiras não são das mais favoráveis. Provavelmente ele irá se compadecer de sua situação e é até capaz que ele lhe dê algum trocado.

2-mochila

    Não dá para economizar na hora de comprar uma mochila. A primeira que adquiri foi uma do Paraguai e durou menos de dez dias, a costura da alça não suportou o peso. Imaginem se a mochila arrebenta no meio do mato? Vai ter que rezar para aparecer uma carona de um jegue  ou então carregá-la no ombro por um bom período. A mochila trilhas e rumos tem um ótimo custo x benefício. Existem mochilas mais caras do que a da trilhas, ai vai de acordo com a condição financeira de cada um.

3-Peso da mochila
na viagem à Paraty não respeitei o limite da mochila e a costura da alça começou a se desfazer no meio do caminho

    Por falar em peso, é muito importante respeitarmos o limite da mochila. O cálculo do peso é bem simples: basta dividir a litragem da mochila por três. Ex: uma mochila de 50L suportará mais ou menos 16,5kg, já que 50:3= 16.6. Eu carrego um dois quilos a menos, por medida de segurança. E o mais importante em relação ao peso é o nosso próprio limite, é claro. Quantos quilos iremos conseguir carregar na mochila? Quanto pesa a barraca? A manta? As roupas? Também existe um cálculo para isso, de acordo com o peso da própria pessoa, mas sinceramente acho esse cálculo perigoso. Isso vai de acordo com cada pessoa, a idade, as condições de saúde, o percurso, etc. Então só a prática irá resolver esta questão. Vale lembrar que, se a mochila está pesando 10kg na parte da manhã em uma viagem, já na parte da tarde a sensação pode ser de que estamos carregando o dobro, dependendo das condições  climáticas e do percurso também(se tem muitas subidas, etc).

4-Qual mochila escolher?

    Parece que não existe nenhuma complicação na hora de escolher uma mochila, mas não é bem assim. Assim como uma roupa, temos que nos sentir bem ao usar este item, que praticamente fará parte de nosso corpo durante a viagem. Então, na hora de comprar peça ao vendedor para experimentá-la, colocando algum peso dentro dela. Dê uma volta na loja e veja se você está se sentindo confortável. Claro que ninguém vai estar 100% confortável carregando peso, mas, com a ajuda da regulagem das alças e da barrigueira, dá para melhorar um pouco a situação. Qualquer coisa peça orientação ao vendedor.

5-Água

    Nas duas primeiras viagens, carreguei a água dentro da mochila, em duas garrafas de água mineral de 500ml. Em dias quentes, na parte da tarde, só conseguia beber dessa água se não houvesse outra alternativa. Se a mochila não tem na parte lateral um lugar para abrigar as garrafinhas, o ideal é investir em um cantil de 900ml, que vem com uma proteção que ajuda a conservar a temperatura da água. E ainda ela tem um lance que dá para carregar o cantil na barrigueira da mochila, tirando assim um quilo de suas costas, já que um litro de água pesa aproximadamente um quilo. Existe um produto chamado clor-in, que é vendido em lojas que vendem barracas e que serve para melhorar as condições da água em relação aos micróbios.

6- Onde montar a barraca?
fujam das formigas "cortadeiras", elas podem causar um enorme estrago em sua barraca

    Essa é uma questão complicada. Já passei por várias situações inusitadas nessas minhas andanças por causa da minha humilde residência. Se você gosta de acampar no mato e tem uma boa barraca, não tem problema nenhum, com exceção da chuva e das formigas cortadeiras, que parecem ser carnívoras e adorarem detonar uma barraca.
    Mas e se a viagem for em cidades coladas uma nas outras? E a questão da violência?
   Nas minhas andanças, várias vezes montei minha barraca no perímetro urbano das cidades. Isto fez com que eu conhecesse várias pessoas bacanas por ai. Mas também podemos correr certo perigo, pois convenhamos que não é algo comum uma barraca montada em uma cidade, ainda mais se for uma cidade pacata e pequena. Já chamaram a polícia para mim, sem ao menos ter feito nada. Mas não tenho nada a reclamar das abordagens da polícia aqui de Minas Gerais. Depois de fazerem as perguntas de praxe e olharem a documentação, eles sempre conversaram comigo, me dando dicas do caminho a ser seguido.
    Aconselho a montarem a barraca em locais onde não irá atrapalhar a passagem de pedestres. Também é sempre bom bater um papo com os seus "vizinhos", explicando o motivo de estar naquele local. Fiz boas amizades, além de ganhar lanches, bolo, feijoada, um cafezinho, etc.

7-Calçado

     Ai vai do gosto de cada um, tirando o sapato, é claro. Existem botas específicas para trilhas e caminhadas, que evitam torções e derrapagens. Chegam a custar 300 reais ou até mais. Eu, particularmente, prefiro um bom tênis macio e usado, com meias próprias para caminhadas longas. Essas meias são mais grossas e têm menos algodão em sua composição, diminuindo o suor e as chances de bolhas indesejáveis nos pés. Sem contar o chulé né? Eu uso o talco granado no dia a dia para diminuir o mau cheiro, mas, para caminhadas longas isso não é bom, pois esse produto resseca o pé, o que faz com que o mesmo fique ardendo nas viagens. Na próxima  irei experimentar outra marca.

8-Barraca
evite barracas simples
    Por experiência própria, recomendo que não comprem as barracas sem coberturas. Elas não suportam nem uma chuva leve, ficando toda encharcada. Compre barracas com a "casinha" e a cobertura separadas. Uma dica: Não deixa a cobertura na parte de cima encostar na barraca, essa área poderá ficar úmida e até deixar cair alguns pingos em caso de uma forte chuva. Uma solução para isso são os balões de festa. Isso mesmo! Encha os balões(não totalmente)  e coloque-os na parte de cima, entre a casinha e a cobertura. Tem que ser balão de festa hein galera! Não vale ir ao posto de saúde e sair com as duas mãos cheias de camisinhas!

9- Remédios
esses recipientes são ótimos para se armazenar remédios
    Eu sou meio suspeito, como um hipocondríaco, a falar sobre este assunto, mas vou dar o meu pitaco mesmo assim. Leve o essencial. Anti-inflamatório, paracetamol(para dores em geral). Aconselho a comprar a nimesulida, que é um ótimo anti-inflamatório, antes de viajar, pois esse medicamento é encontrado pelo preço de 4 reais em algumas farmácias. Nas cidades do interior, já encontrei a nimesulida por doze reais. E é óbvio que o vendedor não irá abaixar o preço, ainda mais sabendo que você está machucado e precisando muito desse medicamento. Eu também levo o pan nosso de cada dia , já que sou viciado nesse ansiolítico. Costumo guardar esses medicamentos em recipientes de remédios que são usados em conta gotas. Jogo o conteúdo fora e faço uma boa lavagem no recipiente, deixando secar bastante no sol. Se os medicamentos forem parecidos  e você não estiver com a memória boa, compre uma caneta para retroprojetor e escreva o nome do medicamento na embalagem.

10- Informe-se sobre os lugares que irá visitar

     Procure se informar sobre os lugares que irá percorrer, para saber sobre as condições climáticas, pontos turísticos, etc. Assim você não irá passar o frio que passei no sul de Minas Gerais, por não ter comprado um saco de dormir e pensar que não iria fazer frio nessa região fora do inverno. Procure se informar se o local não é perigoso, se não tem muitos assaltos, etc. Não recomendo mulheres a viajarem sozinhas, por questões de segurança. No facebook encontrei uma que  viaja de carona pelo Brasil inteiro, ela realmente é muito corajosa, mas também é fácil arrumar carona né? Ela tem uns 25 anos, é bunitinha... Já arrumou até carona com a polícia. Eu não sou uma simpatia em pessoa, sou caladão, sério, cabeludo, barba por fazer às vezes, os traços meios rudes, ai fica difícil arrumar carona né? Vale a pena dar uma olhada na página dela no facebook:
https://www.facebook.com/100Dinheiro100FrescuraE1000Destinos


11- Alimentação

    Já me recomendaram a carregar uma panela e comprar miojo, mas, na minha opinião, isso não é muito legal. Se temos que nos alimentar bem no dia a dia, imagine caminhando o dia inteiro com um peso nas costas. Devemos manter uma rotina dentro das possibilidades, tomando café da manhã e almoçando nos horários certos. No almoço não pode faltar o tradicional arroz com feijão e carne, além de uma salada. Costumo carregar granola também. Como muita banana, por causa do potássio, que ajuda a prevenir cãibras. Laranja, mamão, maçã também é bom comer.

12- Pedra Hume
    Essa é uma dica para quem é desastrado como eu e se machucou e quer que o ferimento cicatrize rápido. Outro dia, ao ver uma bola rolando no parque, o fominha aqui correu atrás dela igual cachorro, mas, só que, na hora de chutar para devolvê-la para a galera, errei o alvo e chutei mais chão do que bola. Resultado: quase arranquei a tampa do dedão do pé. Um colega meu do abrigo me indicou a pedra hume. Não levei muita fé naquele troço parecendo água, mas, acreditem, em quatro dias o ferimento estava seco. Claro que isto não substitui o bom e velho merthiolate, mas ajuda a secar o ferimento. 
 

 Cem mil visualizações do blog

    Pessoal, neste fim de semana o blog atingiu cem mil visualizações. Não tenho como agradecer, palavras seriam muto pouco para isso. Esse blog é para mim uma terapia, além de me fazer me sentir útil em alguma coisa. Além dos amigos que tenho por aqui.
    Pode parecer pouco, mas cem mil é um número expressivo para quem está falando de um assunto que não é assim tão atrativo. Só o nome esquizofrenia causa espanto nos leigos no assunto. Além de tudo, não sou um profissional da área de saúde mental, vários grupos do facebook nem publicam os meus posts.  Não me sinto "o cara", mas fico muito feliz com este número, pois, há doze anos atrás, no meu primeiro surto, não fui dessa para melhor por questão de dias, por não me alimentar, tentando fugir dos inimigos que estavam em  minha mente e das vozes. Cheguei a perder 25kg, mas, como já disse várias vezes, fui muito ajudado por várias pessoas e aqui estou escrevendo este blog. Ainda conta o fato de que, até aos 40 anos, eu nunca havia encostado um dedo em um teclado de computador. Pensava que iria  desconfigurar o PC todo ao encostar em uma tecla errada. Resolvi fazer então o curso de informática, um pouco receoso, pois na sala só havia meninas e caras de 20 anos. O esquizo aqui pensou que iria  passar vergonha, mas o que aconteceu foi justamente o contrário, pois, graças a muito esforço, consegui assimilar as matérias e tirei boas notas, tanto que, no dia das provas, os outros alunos até brigavam para sentarem ao meu lado para pegarem uma colinha....
-obs: gostaria de dizer que o meu livro, Mente Dividida, Memórias de um esquizofrênico, ainda está sendo vendido, pelo preço de dez reais, no formato PDF, no momento não estou podendo imprimir e encaderná-lo. Para adquiri-lo é só seguir as instruções no lado direito da página.



Pesquisa sobre ronco




     Segundo o IPE(instituto de pesquisas esquizofrênicas) 20% da população masculina brasileira ronca. Pude constatar isso após cinco meses dormindo em um abrigo aqui em Belo Horizonte.
    Cada quarto possui dez beliches, comportando assim vinte pessoas. Toda noite sempre tinha que ter um cara que roncasse, isso quando não tinha a infelicidade de dormir em um quarto com dois roncadores. Raros foram as noites em que não havia um roncador. Já perceberam que esses caras pegam no sono com uma facilidade enorme? Era só apagar a luz que o temível ruído começava. Alguns roncavam tão alto que a galera não aguentava e dava um cutucão para o cara acordar. Mas não adiantava, esses caras pegam no sono muito rápido. Na minha opinião, o abrigo tinha que cadastrar todos os roncadores e os colocarem  no mesmo quarto, que teria que ter um isolamento acústico especial, para não atrapalhar os quartos vizinhos. Imagine vinte elementos roncando em uníssono? Ouçam no vídeo acima que ronco tenebroso de um cara que gravei enquanto ele dormia. Não consegui dormir naquela noite.


   No mais, um agradecimento especial a todos os leitores e um feliz ano novo, com muita saúde e paz, que é o mais importante.

















sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Nas ruas: comparações


  Não é a primeira vez que estou por ai nas ruas. Já estive nesta situação anteriormente. Foi no ano de 2002, em razão do meu primeiro surto psicótico. Fiquei nas ruas por um período de cinco meses, perambulando pelas ruas da grande BH, até me recuperar por completo das alucinações brabas que tive. Se não fosse a ajuda de muitas pessoas provavelmente não estaria aqui escrevendo este post. Poderia ser mais um morador de rua, sem nenhuma renda e nenhuma perspectiva de vida.
    Mas hoje em dia, depois de quase dez meses de andanças, posso dizer que muita coisa mudou em relação aos moradores de rua.
    Naquela época fui muito ajudado por diversas pessoas, e, na minha opinião, esse foi o principal remédio para que eu me livrasse de um surto tão intenso e tenebroso. Na minha fuga desesperada para fugir dos inimigos que só estavam em minha mente cheguei a perder 25kg. Não adiantava  mudar de cidade, andar pela BR ou me esconder no mato: aonde quer que eu fosse, as vozes ameaçadoras me seguiam.
    Mas a solidariedade das pessoas conseguiu reverter o quadro psicótico. Pouco a pouco s inimigos fugiram de minha mente e consegui recuperar cerca de 20kg em apenas um mês. Houve noites em que tive que recusar alimento, pois a minha fome estava completamente saciada.
   E a ajuda não era somente material: várias pessoas paravam para conversar comigo e me dar uma força. Confesso que não iria conseguir sair daquela situação se não fosse esse auxílio. Fica até complicado citar essas pessoas, pois foram muitas e eu poderia estar cometendo alguma injustiça.

    Mas hoje em dia muita coisa mudou: o crack, que antes era consumido por pessoas menos favorecidas economicamente, já está se alastrando pelas pequenas cidades do interior do Brasil e já é usado por pessoas que possuem um poder aquisitivo mais elevado. Estive há pouco tempo no pequeno município de Raposos-MG e, um morador da cidade comentou que hoje em dia já não deixa a porta de casa aberta como fazia antes.
    O problema está tão sério que foi preciso implantar CAPS-AD em várias cidades do país. A internação compulsória agora é lei. Os adultos estão com medo até de crianças.
    Principalmente por causa dessa droga as pessoas já não estão tão dispostas a ajudarem um morador de rua. Antes se evitava dar dinheiro aos moradores com receio de que eles fossem comprar cachaça. Hoje em dia a recusa é por causa do crack.  A cachaça, pelo que pude perceber, não traz tantos problemas em relação à roubos, já que é uma droga barata. Alguns moradores de rua dizem que algumas cachaças em certos bares são mais baratas por conterem misturas. Já o crack é uma droga barata que acaba saindo cara, pois o "barato" dessa droga dura apenas alguns segundos, pelo que pude saber através de alguns moradores de rua.
    Outro dia vi uma cena muito triste: uma garota aparentando uns 21 anos, de classe média, chegou a me perguntar se eu sabia onde ficava um ponto de venda de crack. Ela estava bem vestida e trazia uma caixa de sapato cheia de perfumes caros, para trocar pela droga. Com certeza já deve ter se desfeito de outros pertences e de seu dinheiro para consumir essa pedra maldita.
    Conheço um cara lá no abrigo, que veio do nordeste. Ele é gente boa, tem uns 50 anos e trabalha o dia inteiro descarregando andaimes. Ele é magrinho, baixinho, mas é bom de serviço, pois está neste trampo do andaime por mais de um mês. O máximo que consegui ficar foi dois dias, e o que ganhei, além de oitenta reais, foram dores por todo o corpo. Ele me disse que é usuário de crack. Um outro dia chegou a me pedir emprestado um real, ou seja, provavelmente o dinheiro do seu suado suor foi usado para apenas sustentar esse vício.
    O problema maior acontece quando já não conseguem trabalhar e partem para o roubo. Claro que tem caras que podem trabalhar para sustentar o vício, mas não fazem isso por uma questão de caráter mesmo, preferindo roubar o dinheiro de um trabalhador. As mulheres são consideradas boas freguesas pelos traficantes, já que a maioria chega a vender o corpo para fazer o pagamento da droga à vista.
   O crack traz paranoias  tanto para quem usa como para quem não usa. Hoje em dia as mulheres andam apressadas pelas ruas do centro de Belo Horizonte, sempre com uma das mãos segurando firmemente a alça de suas bolsas. Qualquer pessoa que não esteja muito bem vestida pode ser um possível usuário desesperado pelo crack. Essa paranoia para mim é o principal motivo pela rejeição pelos moradores de rua aumentar mais ainda. Claro que existem pessoas caridosas que ainda ajudam os mais necessitados: espíritas, evangélicos, católicos saem pela cidade distribuindo comida, principalmente à noite.

    Fiz estes comentários não como uma reclamação, pois eu mesmo tenho um pouco dessa paranoia, apesar de não andar com muita grana no bolso. Este post é apenas uma observação, pois tenho a minha aposentadoria e estou nesta situação por que acho complicado uma pessoa gastar metade do que ganha para pagar um aluguel de um quarto. Se quiser quarto barato, é só ir em lugares onde o tráfico de drogas impera. Mas eu só quero paz e tranquilidade. Prefiro ficar andando por ai do que morar em lugares complicados. Não estou aqui para que as pessoas me ajudem nas ruas, não é isso. É apenas o que eu vejo pelas ruas, uma droga que pode mudar o comportamento de uma sociedade inteira. Só gostaria de não ser julgado por andar de mochila nas costas e morar em uma barraca. Os piores bandidos andam por ai de helicóptero e estão em em suas mansões.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Falta pouco...

    Pessoal, falta pouco para que o blog chegue a marca de 100.000 visualizações! Nunca esperava chegar a essa marca. Nunca me importei com números, a minha intenção ao criar o blog era e ainda é tentar ajudar a desmistificar a esquizofrenia. Então, nesse caso, os números têm uma certa importância, já que quanto o maior número de visualizações, maior o número de pessoas informadas sobre a patologia. Não acho legal colocar um contador de visitas no blog, isso pode ser fraudado, já que a maioria dos contadores dão a opção de não começar do zero, ou seja, a pessoa pode colocar o número que quiser de visualizações.
    Obrigado a todos os leitores do blog, tanto as pessoas que têm alguma relação com a esquizofrenia, como as que apenas acessam para se informar um pouco sobre a patologia. Um agradecimento também aqueles que gostam de ver o relato de minhas viagens. Enfim, um obrigado a todos de coração mesmo.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Quetiapina


  Já fazem cinco meses que estou no abrigo. Fora me dado um prazo inicial de permanência de dois meses. A assistente social não me havia procurado até então, e fiquei até agora quietinho no meu canto, sem fazer nenhum furdunço para não chamar a atenção.
    Mas hoje lá estava ela, sentada na recepção, no horário de entrada, que é entre cinco e oito horas da noite.
    - E ai Júlio, já foi no CERSAM?
    - Eu não, sei que se eu for lá irão me dar haldol...
    -Mas para continuar aqui você tem que estar frequentando o CERSAM.- ela retrucou.
    - Tá legal, eu vou lá sim, mas só vou tomar medicamento se for a quetiapina, pois as pessoas falam muito bem dele.
    Conversamos mais um pouco em sua sala. Ela disse que eu poderia surtar e tals, mas eu disse que existem pessoas bem mais loucas do que eu e que estão andando por ai, e que entrar para o abrigo me fez sentir a pessoa mais normal do mundo. Ela fez o encaminhamento e me deu quatro vales-transporte.
     No dia seguinte, às seis e meia da manhã já estava sentado em frente ao CERSAM nordeste, meio sem esperanças de conseguir a quetiapina, que custa mais ou menos uns oitenta reais.
    Já havia experimentado o melleril, o haldol, tanto em comprimido como o injetável, stelazine, olazanpina, cropormazina, olazanpina, risperidona e mais uns dois que nem me lembro o nome.
    Tirando a cropormazina, não tenho boas lembranças dessas minhas tentativas com os medicamentos. O haldol me causou acatisia e rigidez muscular. O stelazine idem. A risperidona me deixou muito dopado e lenta, além de me dar uma fome danada. Mas nada foi pior do que a minha experiência com a olazanpina, que custa cerca de 700 reais a caixa.
    É uma burocracia danada conseguir este medicamento pelo governo, mas, depois de um mês, chegou para mim uma caixa da olanzanpina. Estava esperançoso, pois, pelo preço, pensei que iria me fazer muito bem, e de que se tratava de um medicamento totalmente diferente dos que eu já havia experimentado. Mas o que me aconteceu foi bastante desolador. Apenas um comprimido me fez ficar deitado dois dias consecutivos. A única coisa que consegui fazer nesse período foi me arrastar até a padaria e comprar um bolo e um "lidileite"
 
    Voltando ao assunto do post, fui muito bem atendido no CERSAM nordeste, para minha surpresa. Uma longa entrevista com dois caras no acolhimento e duas consultas marcadas: uma com a psicóloga Vera e a outra com a psiquiatra Nathália(lembrei dos nomes por que está escrito no receituário).
    A conversa com a psicóloga foi mais ou menos parecida com a do acolhimento. É complicado e um pouco triste ficar relembrando tudo aquilo, mas no geral me senti bem, é sempre bom conversar com alguém. O atendimento também foi muito bom, acho que fiquei meia hora nesta consulta.
    O pessoal lá é tão gentil que conseguiram adiantar a consulta com a psiquiatra e no mesmo dia já sai com quatro caixas de amostras grátis de quetiapina. A psiquiatra também foi super atenciosa, não tenho do que reclamar. A diferença é muito grande em relação ao SUS em outras cidades.
    A Nathália me receitou dois comprimidos de 25mg nos três primeiros dias, aumentando a dose para 100mg no quarto dia. Como as minhas experiências com os outros medicamentos não foram muito agradáveis, resolvi tomar só um comprimido de noite. Estava na cama conversando com os vizinhos do quarto quando o sono foi aos poucos tomando conta de mim. É só isso o que me lembro. Tive uma boa noite de sono e não acordei nenhuma vez de madrugada, mesmo com a presença do galo do vizinho, que todo noite, pontualmente às três horas começa a sua cantoria. O canto é sempre o mesmo, curto e repetitivo. Muitos caras lá do abrigo já chegaram a perguntar se aquela cantoria era uma gravação.
     Dormir eu conseguir, mas o problema foi acordar.
    -Alvorada! Bom dia meu povo!- pontualmente às cinco da manhã, o monitor anunciou o novo dia, que ainda estava escuro, por causa do horário de verão.
    A sensação era de ressaca, e das brabas. Cuidadosamente e vagarosamente desci do beliche. Não tive ânimo para tomar o banho matinal. A única coisa que queria era dormir de novo. Tomei rapidamente o café e foi para o parque tirar um cochilo, para passar a ressaca, que só foi acabar por volta das dez horas da manhã. O efeito da quetiapina só foi sumir mesmo por completo por volta das quatro horas.
    - Amanhã vai ser melhor, pois irei me acostumar com o medicamento aos poucos. - pensei.
    Mas não foi bem isso o que aconteceu. O segundo dia foi mais complicado ainda para me levantar e acabei tirando um cochilo no passeio mesmo, perto do albergue. A ressaca durou o dia inteiro, mas tenho que dizer que a minha mente ficou mais tranquila, apesar de não tomar a dosagem recomendada. A presença de estranhos já não me incomodava tanto assim, estava menos temeroso, as paranoias não me afetavam tanto assim.
    - Que dia irão inventar um medicamento que atue só na mente sem prejudicar o físico? - me lamentei, pois estava me sentindo bem emocionalmente.
    No terceiro dia resolvi não tomar o medicamento, mas fiquei ainda com um pouco do efeito dele. Estava super relax, o dia inteiro deitado no banco do parque, contemplando a natureza, sem dar importância a nada. Naquele estado não iria viajar para São Paulo, parecia que eu estava sob o efeito da maconha, apesar de não estar rindo à toa(já experimentei umas três vezes, mas não uso mais). Estava tudo bem para mim naquele terceiro dia, apesar de um pouco lento.
     Posso dizer que a quetiapina estava me fazendo um bem danado, tenho que reconhecer, não sou radical na minha opinião sobre os medicamentos. Mas no meu caso em específico é complicado usar esses medicamentos. Tenho que acordar às cinco horas da manhã no abrigo e, quando durmo na minha barraca por ai, não posso ficar muito dopado. Se aparecer algum ladrão de madrugada é capaz de roubarem até a minha humilde residência sem eu perceber. Mas para quem tem essa possibilidade de acordar tarde e não se deu bem com outros medicamentos, recomendo que experimentem. Sinto que sou meio fraco para esses antipsicóticos, se fiquei muito sonolento com apenas 25mg, imaginem o que aconteceria se tomasse a dose recomendada, que é de 400mg.
    Um outro efeito negativo que notei foi em relação  as emoções. Se por um lado os pensamentos negativos e complicados foram controlados, as boas emoções também desapareceram. Estava meio robotizado, tanto fisicamente com emocionalmente, não achando graça em nada do que via e no que pensava enquanto estava sob o efeito do medicamento. Provavelmente não iria achar graça nenhuma em sair viajando por ai, nas minhas andanças, ir a um show,etc. É um dilema e dos grandes decidir se toma ou não os medicamentos, é preciso fazer uma profunda análise dos prós e contras, como já disse várias vezes, a expressão "cada caso é um caso" na esquizofrenia tem uma dimensão ainda maior.

   Por fim gostaria de dizer que não sou contra os medicamentos, já teve psiquiatra me enviando comentários pedindo para me retratar de algumas coisas do que posto. O que posto não é a verdade, não sou dono dela, apenas posto o que sinto e o que penso, é algo que gosto de fazer e muitas pessoas acham que o que posto ajuda de alguma maneira a entender esse mundo tão complicado que é a esquizofrenia.
    Gostaria também de agradecer aos grupos do facebook que autorizam o link de algumas postagens minhas. Não sei o motivo de muitos grupos lá do face proibirem a divulgação do meu blog, talvez seja por eu não ser um profissional da área de saúde, e o que já passei e pesquisei não sirvam para nada.
-obs: me desculpem alguns erros de português, algumas palavras repetidas e tals, mas, na lan house é difícil de ficar revisando o texto, pois o tempo é dinheiro nessa situação. No mais, boas festas a todo mundo, feliz natal e também feliz todos os dias de nossas vidas.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Celular LG A395 review

 
Bem, hoje eu vou falar de um assunto que não tem nada a haver com a esquizofrenia: celular. Mas aqui é assim mesmo: tudo junto e misturado! Modestamente, acho que esse blog é o mais eclético do Brasil: esquizofrenia, música, viagens, dicas de saúde, crônicas e conversa fiada.
    Aproveitando o 13º salário, resolvi, após muitas pesquisas, comprar o celular LG A395. Me conheço bem, se não gastasse a grana com o aparelho iria passar o mês inteiro comprando besteira. Foi a decisão correta, apesar de receber apenas ligações de cobradores. Na verdade o meu celular é no final das contas apenas um aparelho de MP3. Pobre como eu só liga pra polícia, SAMU, bombeiros, etc.
    Mas esse aparelho que adquiri é bem interessante, é quadrichip, então, quem quiser ligar para mim, fique a vontade, é só clicar em contatos. De preferência, não liguem na parte da manhã, pois o meu estado de ânimo neste período do dia não é dos melhores.
    Gostei muito desse celular. Fácil de mexer, bem simples mesmo. Além de ter suporte para quatro chips, ele possui uma bateria de boa capacidade(1500mHA). E, como a tela é pequena e com pouco brilho, a bateria tem uma duração razoável. Ouvindo música cerca de quatro horas por dia, a bateria só foi acabar no quarto dia. O problema foi fazer a primeira recarga de oito horas, tive que ficar "garrado" na tomada do parque o dia inteiro...  Mas creio que a bateria deva durar uns sete dias ou mais para quem usa o aparelho apenas para fazer e receber ligações.
    O celular vem com um cartão de memória de 2GB, mas o aparelho "guenta" cartão de até 8GB. O som é muito bom e alto nos fones de ouvido e também nos altos falantes, só faltando reproduzir com mais fidelidade os graves e os agudos( mas isso é coisa de ex-operador de som, por isso sou chato nessas coisas de áudio). O único senão na parte de som é que as estações de rádio não ficam com um som bom no viva voz, mas no geral o som é muito bom mesmo.
  • suporte a quatro chips e boa bateria são os destaques positivos do aparelho

    Um problema sério que achei no aparelho foi o brilho da tela e a resolução, que não são grandes coisas, dificultando ler alguma coisa no celular durante o dia em ambientes claros e na rua.Tive que ir para a sombra algumas vezes para enxergar as mensagens de texto. Navegar na internet nem com lupa...
    Estou muito satisfeito com esse celular, pois ele preenche as minhas necessidades. Há algum tempo atrás isso não acontecia. Sempre estava insatisfeito com o meu celular. Queria por que queria estar na moda do celular, o que é bem complicado, pois celular é algo que se desvaloriza com uma incrível rapidez . Cada dia é uma novidade, e o seu aparelho que custou 700 reais dentro de um mês você provavelmente não irá conseguir vendê-lo nem pela metade do preço, isso se ele estiver bem conservado. Hoje não ligo tanto para essas coisas. Claro que é bom ter um ótimo celular, o da moda e tals, desde que se tenha condições para isso. Acho que as minhas andanças estão me ensinando muita coisa...
    Então quem precisa de um aparelho simples, com poucos recursos, mas com a vantagem de ter uma boa bateria e uma boa qualidade de som, este é o celular.
  Link sobre o produto e preços está ai:
http://www.casasbahia.com.br/Celular-Desbloqueado-LG-A395-Preto-com-Quadri-Chip-Camera-1-3MP-MP3-Radio-FM-Bluetooth-Fone-e-Cartao-2GB-2198008.html
Resumindo:                                                                
-Prós:
-bateria de longa duração(1500mHA)
-som alto e de qualidade, tanto no fone de ouvido como no autofalante
-suporte a quatro chips sendo muito fácil de trocar de operadora

-Contras
-tela pequena, de baixa resolução e pouco brilho
-jogos instalados sem graça
-câmera de apenas 1.3 megapixel
-o fone de ouvido não possui microfone
-a tela não é touch, mas isso pode ser uma grande vantagem, já que os larápios contemporâneos desse mundo moderno estão cada vez mais exigentes. Então, se aparecer um elemento desses  em sua frente e se alguém ao seu lado estiver com um celular sensível ao toque, as chances de você ser roubado são bem menores, principalmente se o celular da outra pessoa for da Samsumg.

    Claro que a primeira música que coloquei no cartão de memória foi "one man's dream", do Yanni. Essa já coloquei aqui no blog. A segunda música foi "Adagio in C minor", que, para mim é uma das músicas mais relaxantes que se pode ouvir. Por falar nisso o cara vem tocar aqui no Brasil novamente, só que desta somente em São Paulo. Não percam!
http://www.ingressorapido.com.br/evento.aspx?ID=30480
-obs; juro que não trabalho para o cara, mas ele toca muito e o mais incrível, é autodidata!        


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Papai noel baixou em mim


     Então é natal. Época de reflexões para alguns, e muita comilança e bebedeira para outros. Para muitos é época de tristeza e muita deprê. Para mim é um dia como qualquer outro. Hoje em dia, talvez por causa do embotamento afetivo e outros sintomas negativos da esquizofrenia, já não fico deprimido nessa época. Mas fico um pouco de saco cheio com essas confraternizações temporárias, me soa meio falsa essas mudanças de atitudes e comportamentos por causa de uma simples data, que, como a maioria já sabe, foi inventada pela igreja cristã para também ter uma festa de fim de ano, já que as religiões pagãs da época tinham suas festividades para comemorar o fim da colheita e outras coisas mais.

    Não aguento ver os programas da TV, os especiais de fim de ano(menos o do Roberto Carlos). Aquelas músicas natalinas na harpa paraguaia são difíceis de aguentar. Até a música da Simone foi proibida de tocar em alguns shoppings. No início achei estranho, a música tem uma boa mensagem, mas, me colocando no lugar dos vendedores dos shoppings, realmente é difícil ficar ouvindo a mesma música o dia inteirinho durante um mês.
    Quando criança passa o natal na casa de parentes. Ficava a noite toda sentado no sofá, meio sem graça. Os amigos de minha avó chegavam a comentar:
    - Nossa! Parabéns, seu neto se comporta muito bem!
    A verdade é que eu estava entediado, isso sim, doido para que a festa acabasse.
    Mas guardo uma lembrança curiosa de um natal, acho de 1997. Estava na época trabalhando em uma pequena cidade do interior de Minas Gerais e naquele ano tive que trabalhar em pleno dia 24 de dezembro. Para mim foi uma boa, gostava muito do que fazia, trabalhando como operador de som nas festas, shows, cavalgadas, etc. O dono da firma me incumbiu de receber o pagamento do serviço no final da festa.
    Na viagem de ida para a cidade de Governador Valadares paguei rodízio para toda a equipe, não me importava muito com dinheiro naquela época. E o fato de proporcionar um rango legal para a galera me deixava feliz.
    Já à noite a gororoba foi meio esquisita: por volta da meia noite o organizador do evento apareceu com uma panela de arroz frio com alguns pedaços de pernil que, provavelmente sobraram da ceia natalina de sua família. A galera chiou e o cara teve que comprara alguns hamburguers para matar a fome do pessoal.
Valadares é famosa pelo pico do Ibituruna, onde se pode saltar de asa delta

    A festa foi legal, com boas bandas de rock, principalmente o cover do Rolling Stones. O lugar, uma antiga açucareira desativada e cheia de cupins, estava abarrotada de gente. Muita mulher bonita, Valadares é uma cidade onde até as feias são bonitas.
    No final do evento recebi o pagamento. Não sei o que deu em mim, ao ver a galera carregando as caixas de som. Os caras podiam estar em suas casas com suas famílias, mas não, estavam trabalhando naquele serviço meio sofrido. Resolvi dar cinquenta reais para cada um que estava ralando naquele dia, como compensação de estar trabalhando naquela data.
    No dia seguinte o negócio ficou tenso na firma. O dono, ao receber a grana, me perguntou:
    - Cadê o resto do dinheiro?
    - Dei cinquenta reais para todo mundo.- respondi.
    -Mas por que?- ele perguntou, sem demonstrar muita surpresa, provavelmente já sabia da minha maluquice.
    - Ah! Foi o espírito de papai noel que baixou em mim ué!
    O dono da firma não pensou duas vezes em me mandar embora, é claro. Não voltei atrás na minha decisão e não pedi a grana de volta para os meus colegas de trabalho. Deu, tá dado. E não me arrependo do meu gesto, apesar do dinheiro não ser meu. Acho que faltou um pouquinho de compaixão do dono da firma, que tinha que fazer pelo menos um "agradozinho" para seus funcionários que trabalharam em uma data "tão importante". (para o comércio né?).
    E, para você, o que é o natal? Comente, opine e  não deixe de votar na enquete, que vai estar no lado direito do blog este mês.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Lições que a vida nos ensina


    Enquanto espero o mês de janeiro para viajar, vou fazendo as minhas divagações. Gostaria de ser mais falante, sou, além de esquizofrênico, um típico mineiro. Por isso me acho duplamente introspectivo. 
    Como a minha mochila está desnecessariamente pesada, resolvi procurar um local para pelo menos deixar a minha barraca, que pesa cerca de dois quilos. A primeira ideia que surgiu foi tentar achar alguém perto do albergue, mas logo descartei essa hipótese. Infelizmente uma minoria de usuários do abrigo colabora para que haja uma certa rejeição dos vizinhos por nós. Alguns, sem o menor respeito urinam em frente ao abrigo enquanto esperam na fila para entrar. Outros, alcoolizados, brigam por motivos fúteis. Sem contar os palavrões que são ditos aos gritos, independente do horário. Tenho pena do vizinho que mora logo em frente a portaria do albergue. Me colocando no lugar dos moradores do bairro, consigo entender perfeitamente essa rejeição. 
    Mas como já disse anteriormente, a maioria da galera e de paz, gente boa mesmo. Pessoas que querem trabalhar, se livrar das drogas, mas que no geral tem problemas de relacionamento com seus familiares. 
    Então resolvi procurar uma das várias igrejas evangélicas que existem no bairro. Na primeira tentativa não obtive sucesso. Esperei cerca de meia hora até que o pastor da igreja Divina Providência chegar em seu luxuoso carro preto, não sei qual o modelo. Sou da época em que os carros eram bem diferentes uns dos outros, era fácil saber o modelo. O fusca era meio arredondado, o corcel meio quadrado, etc. Hoje já não sei dizer o modelo de nenhum carro, são muito parecidos uns com os outros, com suas formas arredondadas, geralmente nas cores preto e prata ou então brancos. 
    Voltando ao pastor, me senti um lixo quando ele saiu apressadamente do veículo e, antes mesmo que eu lhe desejasse um bom dia, sem ao menos olhar para a minha pessoa, fez o sinal negativo com o dedo indicador. 
    Será que ele estava pensando que eu iria pedir dinheiro? E se estivesse sem mochila e de terno e gravata? Ele me trataria da mesma maneira?
    É óbvio que o pastor e nem ninguém tem a obrigação de me ajudar nesta questão da barraca, afinal foi um caminho que eu mesmo escolhi. Mas não custava nada o pastor ser ao menos um pouco educado e dizer:
    - Olha, infelizmente não posso lhe ajudar, é complicado deixar a barraca na igreja e tals...
    O pastor seguiu apressadamente para o segundo andar da igreja, para ministrar a escola dominical. Fiquei desapontado e bem pra baixo, afinal o que eu tinha feito para ser tratado daquela maneira? Eu, que sempre ajudei algumas igrejas na época em que trabalhava como operador de som sem cobrar um tostão, agora sequer podia deixar a minha humilde residência encostada em algum cantinho da igreja. 
    Confesso que disse "algumas coisas" para um membro da igreja que havia me atendido. Ele disse que o pastor era uma pessoa abençoada, mas sinceramente não foi isso o que ele deixou transparecer, ao chegar mais de vinte minutos atrasado para o trabalho e com a cara de poucos amigos(será que ele tem mania de perseguição como eu?)
   Mas não desanimei, pois tenho dos evangélicos muito mais recordações boas do que ruins. Para falar a verdade, poucas recordações ruins. Um ou outro membro ou pastor moralista que esquece um dos principais ensinamentos da bíblia, que é não ficar julgando os outros. Pessoas que se acham salvas só por que frequentam uma igreja. 
     Então subi dois quarteirões e fui parar na igreja Assembléia de Deus. A escola dominical já havia terminado e os membros conversavam do lado de fora da igreja, onde era servido um lanche. Me convidaram para entrar e, eu, claro não recusei a "boquinha" e comi um pedaço de bolo com refrigerante. Me senti a vontade naquele lugar e conversei com alguns membros que ouviram atentamente a minha história. No final disseram que não podiam me ajudar, que seria complicado se responsabilizar pela barraca enquanto ela estivesse na igreja. Não fiquei chateado, pois, como já disse, ninguém tem a obrigação de me ajudar nesta questão. Só o fato deles conversarem comigo sem pré julgamentos me fez sentir gente outra vez. 
    Me despedi do pessoal e fui atrás de outras igrejas. Algumas já estavam fechadas, outras não funcionavam no domingo de manhã. Já estava quase desistindo quando avistei a placa da igreja Batista Getsêmani. Na porta o pastor conversava com um membro. Cumprimentei-o e comecei a explicar o motivo dessa minha procura. Ele me convidou para entrar e conversamos bastante. Quer dizer, eu conversei, pois ele ouvia atentamente sobre as minhas andanças que comecei a fazer este ano. No final oramos e ele, além de guardar a minha barraca me deu uma bíblia novinha. Prometi retornar em janeiro para buscá-la, a fim de viajar para São Paulo. 
    Voltei para o abrigo com o ânimo renovado e, claro, me sentindo mais leve. Aquele silencioso não do pastor da igreja Divina Providência havia me deixado com a moral baixa. Mas, felizmente um defeito que não tenho é de guardar sentimentos negativos em meu coração. Voltei para a igreja do pastor marrento a fim de pedir desculpas ao membro que eu havia ditos algumas palavras. Mas ele já não estava mais lá. Tudo bem, só espero que ele também não tenha esse defeito e que já tenha esquecido de tudo. 
    -obs: resolvi colocar o nome das denominações por uma questão de justiça, reiterando que tenho enorme respeito pelas igrejas evangélicas. 

    Esses dois poemas foram retirados do livro escrito por usuários do centro de convivência do bairro São Paulo, aqui em Belo Horizonte. 





Sem título
O tempo é imensurável
a cor do tempo é variável
o santo do tempo é Deus
a forma do tempo é redonda
as músicas do tempo são os ventos
os perigos do tempo são os medos
os mistérios do tempo são as surpresas
o tempo é de Deus
autor: Maria auxiliadora Guerreiro Ramos





Brincar com as palavras
Mar rima amar
águas de matas e cascatas
de rios que fluem
em armadilhas de árvores
que vem das ilhas
de raras folhas silvestres
onde perdem o que acham
 de saber voar e revoar sem
trama; sem tira, sem arma e
                                                                          com mira rumo ao alvo de antigas canções ao som de liras.
                                                                          autor: Guilherme de Oliveira Silva

Lançamento do cd Os devotos de São Doidão


Lançamento do cd Os devotos de São Doidão

    Com ousadas releituras de clássicos da MPB e canções inéditas de novos compositores mineiros, o grupo musical São Doidão tem movido sua arte com singularidade estética e irreverência artística em suas performances. O grupo São Doidão convida a todos para o show de lançamento do seu primeiro CD, "Os Devotos de São Doidão. 
-Data: 30 de novembro de 2013
-Horário: 19h30min
-Local: Teatro de Câmara no Cine Theatro Brasil Vallourec, situado na praça sete no centro de Belo Horizonte.
-Ingressos: Entrada franca
-Contato: saodoidao@outlook.com

     Está ai um bom programa para quem não só lida com a saúde mental como também gosta de boa música. Não conheço o grupo ainda mas dizem que os caras são bons e o melhor, é de grátis. Quem é de BH e região não custa nada ver o show, começa cedo e termina cedo. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Divagações esquizofrênicas

 
No mesmo parque, no mesmo banco. Há cerca de quatro meses atrás estava fazendo a mesma coisa que estou fazendo neste momento: escrevendo um post, sem um assunto definido, neste agradável parque ecológico de Belo Horizonte.
    Só que estava mais animado, há poucos dias dormindo no abrigo São Paulo. Ficar montando e desmontando barraca todo dia também cansa, além de ser um pouco perigoso dormir nas ruas de Belo Horizonte, que dizem ser a capital mais perigosa para moradores de rua. Sinceramente não acho isso. Para mim não existe um grupo de extermínio, supostamente contratado por donos de lojas cansados de verem moradores de rua fazendo necessidades na porta de seus estabelecimentos. Ao ler os jornais, dá para se constatar que o motivo das brigas entre os moradores são as drogas, tanto as legais como as proibidas.
    Por isso não tenho tanto medo assim de morar nas ruas de BH. Não me envolvo em confusões e não sinto a menor necessidade de consumir drogas de nenhum tipo. Quer dizer, quase nenhuma, já que o chocolate e outras guloseimas alteram o funcionamento do cérebro(aquele lance da serotonina), nos  deixando mais animadinhos, e isso pode ser considerado uma droga.
    Por falar em animação, não estou muito animado esses dias. Só quero fazer uma coisa: dormir o dia inteiro. Será o horário de verão? Ou a rotina de um morador de albergue, com horário para tudo?
   Acho que são esses dois fatores juntos. Eu sempre detestei o horário de verão, mas no final acabava me acostumando com ele. Mas agora as coisas são diferentes: o pessoal do albergue não dá mole não, o horário para se acordar continua o mesmo: cinco horas da manhã, faça chuva ou faça sol. Até o galo do vizinho insiste em cantar no horário antigo...


"descansando no parque"
    Deixei para caminhar e me exercitar na parte da tarde. De manhã deixa de ser um prazer para virar uma obrigação. É uma obsessão saudável minha, essa que tenho em relação ao peso. A balança tem que estar entre 82 e 83kg. Não me importo mais se as pessoas me acham magro ou gordo demais, me preocupo mais com as minhas taxas de triglicerídeos e de colesterol, além de me sentir bem, é claro. Vontade de escrever também já não tenho, atualmente não estou publicando posts toda semana. Hoje fui na padaria e tomei um generoso copo de café, dois pães com manteiga, um pão de queijo e um chocolate de sobremesa(diamante negro). Fiquei mais animado e resolvi escrever este post, mesmo sem ter um assunto definido. É um post simples, sem nada planejado, vou escrevendo e pronto, o que sair, saiu. Por isso se chama divagações esquizofrênicas. Mas será que estou precisando de me drogar para ter vontade de escrever alguma coisa?
     Cheguei a tentar fazer alguns bicos, de trabalho pesado. Não tenho receio de publicar isso, mesmo sendo aposentado pelo INSS. Já estou com 45 anos e sei que não aguento mais serviços pesados. Ainda tenho essa paranoia de que as pessoas querem a qualquer hora inventarem alguma coisa para que eu perca o meu benefício. Tentei fazer uns bicos para comprar um celular, mas resolvi desistir. As dores físicas era um problema, mas pude perceber que estava começando a enxergar inimigos quando trabalhava. Imaginava que os meus colegas do abrigo estavam contra mim no trabalho, tentando me derrubar, etc. Pensava que falavam mal de mim para o chefe. E isso é um problema e tanto. Parei de conversar com os caras no segundo dia. Dizem que a medicação resolve isso, mas e a lentidão e o desânimo que ela causa? Penso também que o pessoal do abrigo e mais o mundo inteiro querem me denunciar para o INSS, inventando algo para tirar a minha aposentadoria. Tenho a consciência tranquila que apenas estou recebendo um direito meu, pois, enquanto tive condições, trabalhei e muito. Aliás, ficava deprimido quando chegava o mês de janeiro, pois era uma época de pouco serviço para a área de sonorização.
    Talvez a rotina seja desanimadora. Às quatro da manhã(no horário de verdade...) me levanto, tomo um banho frio para acordar e tomar o café. O banho na parte da manhã é proibido, dá até advertência para o infrator. Me seco com o lençol da cama, acho que o monitor sabe que faço isso, mas deixa passar essa pequena infração. Depois do café geralmente vou para o parque, escutar os sabiás, bem-te-vis e outros pássaros cantarem. Me sinto em casa nesta pequena reserva ecológica: poucas pessoas, muitas árvores e tranquilidade. De manhã ouço todo dia o programa "emoções" na rádio América, que toca as músicas do Roberto Carlos, principalmente as mais antigas, com a qualidade de som precária, com os instrumentos antigos. Mas acho legal essas músicas nas versões antigas, ainda mais quando estou meio nostálgico.
    Às onze horas almoço no restaurante popular. Antes passo no pequeno supermercado do bairro para tomar o meu yakult do dia a dia.  Depois do rango, se conseguir não comprar nenhuma besteira para me empanturrar, volto para o parque e fico por lá até as cinco horas da tarde, para voltar para o albergue.
    Lá pelas onze horas escuto um programa no rádio que toca música clássica por uma hora e meia. É uma sensação diferente escutar esse tipo de música entre as árvores do parque.
   De noite é muita fila no abrigo. Fila para entrar, fila para deixar a mochila no guarda volumes e pegar a toalha. Uma longa fila para o banho e mais uma para entregar a toalha. Depois a fila para o jantar e um outra para pegar o lençol para forrar a cama.
    Depois das filas é hora de dormir. Ou melhor, tentar dormir. Pode conversar e deixar a luz acesa até as nove horas da noite.
    Dormir no abrigo é um exercício e tanto de paciência, acho que é um teste de convivência. Tem um cara lá que comprou uma caixinha de som do Paraguai que tem entrada para cartão de memória, rádio FM e tudo mais. Só faltou a saída para fone de ouvido! E adivinhem o qual o gênero "musical" preferido do cara? Uma pista: é aquele que tem uma batida repetitiva e letras "muito inteligentes", sendo os temas principais a droga e a pornografia(não mencionei sexo pois isso é algo sadio e quase uma necessidade). Mas o cara é gente boa, pois não gosta muito de falar da vida alheia, o que eu considero uma qualidade e tanto.
    Me sinto um estranho no ninho em qualquer lugar, mas no albergue essa sensação é maior ainda, apesar de ter muita gente boa por lá. Como já disse anteriormente, há vários tipos de pessoas usando o abrigo: caras que estão à procura de emprego, vindos de vários lugares do Brasil, ex-detentos que não tem oportunidade de emprego, e outros que fogem só de ouvir essa palavra. Tem caras que estão no mundo das drogas e que tentam se livrar dela, e outros que não querem nem fazem nenhum esforço para se livrar do vício.. Têm mães solteiras, à procura de uma ajuda para cuidar de seus filhos. Tem um cara lá que é garçom e que sabe falar vários idiomas fluentemente e que está temporariamente desempregado.
    Também tem os chamados trecheiros no abrigo, que ficam andando por ai pelo nosso Brasil sem um destino definido. Eu gostaria de me tornar um trecheiro, andar por ai, sair da rotina, já que tenho a minha renda e nem um passarinho para cuidar. Quando morei quase um ano em um albergue de Ipatinga ficava com um pouco de inveja, ao ver os trecheiros entrando e saindo sem parar, indo para vários lugares do Brasil. Eu era considerado um pardal, por não sair do lugar. Não quero ser um pardal, já joguei muita coisa fora em prol da minha liberdade. Liberdade principalmente de ser quem eu sou realmente. Vou tentar alguma maneira de receber o meu pagamento pela caixa econômica, para poder retirá-lo em qualquer cidade do Brasil e até em casas lotéricas. Estou muito ansioso para que chegue o mês de janeiro, para fazer a viagem para São Paulo e percorrer os Passos dos Jesuítas Tenho um pouco de receio ainda de andar por São Paulo, acho que é perigoso, mas deve ser coisa de minha cabeça....

    Ainda ouço um pouco as vozes, mas ultimamente elas estão mais quietinhas. Não tenho vozes de comando, a maioria das coisas que ouvia eram pessoas me ameaçando e falando mal de mim. Hoje não dou muita importância a elas, mas às vezes fico em situações no mínimo estranhas, pois não sei se o que eu ouço é realidade ou não, então tenho que ficar calado em certos momentos. Tinha uma mulher lá no abrigo, que também usava os serviços do estabelecimento, que, quando me encontrava, ficava me olhando. Ela é bonita, alta e tem um corpo muito bonito. Me perguntava o por que de estar olhando para mim, era muita areia para o meu caminhãozinho. Sempre quando a encontrava ficava meio tenso, querendo conversar com ela. Certa vez ouvi uma voz dizer:
    - Se você não quer tem quem queira!
    Fiquei paralisado, não tinha certeza se era real ou não. E se fosse verdade? Mas e se fosse imaginação minha e eu conversasse com ela? Certamente me acharia um louco e por isso não dei muita bola para essa voz que ouvi e que até hoje não sei se foi real ou não.
    Também têm vários esquizofrênicos no abrigo, pelo que pude perceber com o tempo e a convivência. Aliás, o  índice de esquizofrênicos no abrigo é bem maior do que o da população mundial, que é de 1%. Acho que no abrigo atualmente tem uns cinco portadores, além de mim.
    Tem um esquizofrênico que frequenta o cersam, mas ele vive dormindo, quase não fala e dificilmente janta. Toma o medicamento por volta das sete horas e já vai dormir. Tem um outro, que é baiano, que parece ter umas viagens místicas, fazendo previsões e mais previsões, se dizendo vidente da "Tchecoslováquia de Salvador" e que veio da Nigéria. Disse que a Argentina irá ganhar a copa do mundo de 2014 e que o Brasil só será campeão em 2022 na França. Mas geralmente as previsões dele são sempre tragédias: assaltos, catástrofes, etc. Mas no geral o cara é tranquilo, não mexe com ninguém é só conversa com quem lhe dá atenção.
    Tem um outro cara que é esquizofrênico e que voltou agora a tomar os medicamentos. Disse-me que as vozes de comando voltaram e está com medo de surtar novamente. Expliquei para ele que talvez seja o ambiente do abrigo que o esteja deixando estressado e dei algumas dicas de como controlar a situação. Também fiquei conhecendo um outro portador de esquizofrenia, aparentemente normal, não apresentava sinais que tinha a patologia, não apresentava lentidão e se articulava bem. Só descobri que tinha a patologia quando o vi carregando uma sacola cheia de medicamentos. Um outro que conheci, foi um cara que ficava conversando e gesticulando sozinho, mas que é super tranquilo também. Como o albergue tem capacidade para 90 pessoas, o índice é de quase 7%, bem maior do que a média mundial. Mas a explicação para isso é bem simples: o abrigo, como o próprio nome indica, é para acolher e ajudar as pessoas, e nós, esquizofrênicos, em algum momento de nossas vidas precisamos de muita ajuda para tentar superar essa patologia complicada.
    Pude constatar, pelo dia a dia, que os esquizofrênicos dão uma lição de como se comportar em ambientes como do abrigo. Até hoje não vi nenhum problema ou confusão causado por nós. Já os ditos normais do abrigo costumam tomar suspensões e várias vezes já brigaram uns com os outros. Sem contar os temas das conversas, que geralmente são crimes e cadeia. Mas tem muita gente boa por lá, alguns são exemplos de vida, mas não irei comentar aqui por não ter autorização deles para isso.

Futebol
    O campeonato brasileiro de 2013 "acabou" faz tempo, sem muita festa por aqui. Esse título já estava definido há muito tempo mesmo. Muito previsível, com essa fórmula de pontos corridos: todo mundo joga contra todo mundo e quem fizer mais pontos ganha. Muito certinho e geralmente ganha o melhor. Alguns devem estar se questionando: mas isso não é justo? Claro que sim, parabéns ao Cruzeiro por ter sido o melhor time, por ter se preparado bem para o longo e difícil campeonato. Mas cadê a adrenalina, o frio na barriga dos jogos decisivos e importantes? O jogo dramático final, com a taça de campeão ao lado do gramado? Hoje em dia o time é campeão sem dar a volta olímpica com a taça, sem aquele jogo que é um verdadeiro teste para cardíacos! Mas não, os mais "inteligentes" preferem a fórmula dos pontos corridos, dizem que na Europa é assim e temos que copiá-los. Mas eles esquecem que na Europa é outro padrão de vida, e o dinheiro corre solto nos clubes. Até parece que os clubes brasileiros não estão endividados e que estão nadando em dinheiro. Olhem só a comparação de média de público entre um campeonato "mata-mata" e o campeonato de pontos corridos do ano de 2012.
antigo Maracanã lotado, isso sim era democracia


    Média de público do campeonato brasileiro de 1980: 20.792
    Média de público do campeonato brasileiro de 2012: 13.148
    Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:P%C3%BAblicos_no_Campeonato_Brasileiro_de_Futebol

    Contra os números não tem como argumentar né? No dia em que o Brasil for um país justo, sem mensalões, e com as dívidas dos clubes pagas,  ai sim poderemos pensar em fazer um campeonato de pontos corridos, igual a Europa. 
    Os times que não tem chance de título estão fazendo jogos sem importância, verdadeiros amistosos, apenas para cumprir tabela. Estádios com pouco público, muito dinheiro jogado fora. A emoção deste campeonato está em ver quem irá cair para a segunda divisão...
    Depois eu que sou o doido...
    Saudações esquizofrênicas!

   Como neste post falei do Roberto Carlos e o uso de drogas, me lembrei de uma música dele que me identifico muito. Fala sobre as drogas. Não tenho vergonha de falar que sou um eterno careta. Viajo nas ondas do mar, fico louco para viajar por esses lugares lindos do nosso Brasil.


Abro a camisa e encaro esse mundo de frente
Olho p'ra vida sem medo sabendo onde vou
Digo que não que não quero
Passo batido, acelero
São outras coisas que mexem com a minha cabeça
Por isso
Esqueça.

Meu grande barato é o cheiro da brisa do mar
Me ligo na onda do rádio do meu coração
Viajo na luz das estrelas
Me sinto feliz só de vê-las
E fico contente de ser
Esse grande careta
Careta
Careta.

Droga quem afinal é você
Que está se entregando e não vê
Que a vida oferece outras coisas
Droga
Por tudo, por nada e porque
Nadar nessa praia pra que?
A vida oferece outras coisas.

Às vezes quem sabe de tudo tem mais pra saber
Que a porta tão larga na entrada se estreita depois
E quando lá dentro se apaga
A luz da estrada perdida
É duro esmurrar as paredes
Buscando a saída
De volta p'ra vida.

Talvez você ache uma droga essas coisas que eu falo
Mas certas verdades nem sempre são fáceis de ouvir
Não custa pensar no que eu digo
Eu só quero ser seu amigo
Mas pense no grande barato de ser um careta
Careta
Careta.

Droga quem afinal é você
Que está se entregando e não vê
Que a vida oferece outras coisas.

Droga, por tudo, por nada e porque
Nadar nessa praia pra que?
Você não merece essas coisas.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Esquizofrenia e egocentrismo


   Mania de perseguição é um dos sintomas da esquizofrenia. É muito mais comum do que pensamos, mas não necessariamente quem tem mania de perseguição é esquizofrênico. Existem graus de mania de perseguição, que vai desde uma cisma, passando para uma neurose e indo até a psicose.
    Egocentrismo é a principal característica de alguém que se acha o centro do universo. Mas o que uma coisa tem a haver com a outra?
    Bem, analisando a mim mesmo e a outros amigos portadores de esquizofrenia que já conheci pessoalmente, pude perceber que o pronome "eu" é citado algumas vezes,  acho que um pouco acima do que deva se considerado dentro dos padrões da normalidade.
    Eu já tive um pouco disso no passado, e, com um pouco de esforço e atenção consegui diminuir esse pronome pessoal do meu dia a dia.
    Será que todo esquizofrênico é egocêntrico? Existe uma relação esquizofrenia x egocentrismo?
    Para tentar explicar essa questão, vou dar a minha opinião sobre o egocentrismo, pois sobre a mania de perseguição já publiquei dois posts.
    Na minha humilde opinião, sem olhar o Dr. google, creio que egocêntrico é o sujeito que se acha o centro do mundo e também se acha o melhor em tudo. Vive comentando os seus feitos e suas qualidades. O motivo de falar tanto em si mesmo eu não sei, mas chego a pensar se não é insegurança, carência, necessidade de atenção, etc.
    Mas eu não sou e nunca fui um "cara que se acha", então por que pensava que era o centro das atenções?
    Para mim, fazendo uma auto-análise, a resposta para essa questão está nesse sintoma da esquizofrenia que é bem desagradável, que é a mania de perseguição.
    Eu não achava, tinha, e às vezes ainda tenho, a certeza de que as pessoas estão sempre olhando para mim, em qualquer lugar que eu esteja. Penso que as pessoas estão me seguindo e que sabem de tudo o que eu estou fazendo. Ou seja, então tenho que ser um santo. Se por acaso cometo um deslize, já penso que todos já estão sabendo o que eu fiz. Quando uma pessoa me encara então já penso que ela está meio que me censurando. Penso também que se a pessoa está me encarando é para roubar os meus pensamentos. Pode parecer loucura, mas tenho um pouco disso até hoje. Ter consciência do problema ajuda e muito, mas não quer dizer que a questão esteja resolvida.
   Voltando ao assunto egocentrismo, o fato de sentirmos que estamos sendo observados faz com que pensemos que somos o centro das atenções, mas nem sempre de uma forma positiva.

    Achamos que existem câmeras por todos os lados nos vigiando. Para piorar a situação, isso é uma realidade nos grandes centros, por causa dos assaltos. Mas quem tem a mania de perseguição se sente observado em qualquer lugar. Quando estava surtado, no meio do mato, pensava que alguém me observava ao longe, usando um binóculo.
   Enfim, sentir que estamos sendo observados  e controlados nos faz sentir que somos o centro das atenções, mas,como disse, nem sempre de uma forma positiva. Mas isso não tem nada a haver em  nos achamos o máximo em tudo.
 
    Esse post eu escrevi há duas semanas atrás. Não o publiquei pois não fiquei satisfeito com o resultado e com o conteúdo, e principalmente por achar que não explicava a relação esquizofrenia e egocentrismo. Cheguei a conversar com amigos virtuais que também têm esquizofrenia, o que me deu alguma luz sobre o assunto.
    Após dias e mais dias matutando e refletindo sobre o tema, cheguei a conclusão de que, algumas vezes, nós, esquizofrênicos, somos muito desconfiados e não nos abrimos com qualquer pessoa. Quando encontramos alguém em quem confiamos, sentimos uma enorme necessidade de falar de nós mesmos, o que pensamos, o que fizemos, ou simplesmente para desabafar mesmo. Nos sentimos mais aliviados depois de uma boa conversa, afinal não é fácil encontrar alguém que nos ouça e entenda, sem que façam chacotas de nossas paranoias. Então poderíamos dizer que seria meio que um egocentrismo involuntário, já que estamos fechados para o mundo exterior, e vivemos mais em nossos mundos.
    Acho que a maioria das pessoas precisam de alguém para conversar, isso é normal, mas no caso da esquizofrenia é um pouco mais complicado, pois, como já disse, somos extremamente desconfiados.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Os 12 passos do esquizofrênico, conhecido ou não

   
    Como já mencionei em meu livro, não tenho a pretensão de criar um manual de como se curar da esquizofrenia. Até hoje tenho alguns sintomas da patologia que atrapalham um pouco a minha vida social, principalmente.
    A minha intenção é apenas repassar um pouco do que aprendi com o passar dos anos, através dos estudos e da "prática" mesmo, no convívio com o transtorno. Vale ressaltar ainda que, na esquizofrenia, a expressão "cada caso é um caso" tem um sentido bem maior.
    Muitas entidades e associações têm usado os 12 passos dos alcoólicos anônimos para ajudarem as pessoas a controlarem seus vícios, impulsos e outras coisas mais: os narcóticos anônimos e os comedores compulsivos são alguns exemplos.
    Quando realmente tive a certeza de que era a esquizofrenia que assolava os meus pensamentos, não entrei em pânico e tampouco fiquei revoltado. As psicólogas com quem fiz terapia nunca falaram abertamente comigo sobre o assunto. Apenas  faziam algumas perguntas e anotavam algo em uma folha de papel. Fiquei cerca de três anos com muitas dúvidas, chegando a pensar algumas vezes se o que eu tinha era um problema de origem espiritual.
    Só tive a certeza que era portador de esquizofrenia no ano de 2005, ao fazer a minha primeira perícia no INSS. O psiquiatra havia me passado o laudo e li atentamente o relatório, que falava numa tal de F-20, que não era caminhonete.
    A primeira coisa que fiz foi procurar um CID na  biblioteca municipal de Ipatinga(MG), e, a partir daí, comecei a me conhecer melhor, entendendo um pouco a patologia da mente dividida.
    Não fiquei revoltado com a situação, já que estava encontrando algumas respostas para o meu jeito meio estranho de ser e agir. Me achava um cara esquisito, as pessoas com quem eu convivia também achavam. Pensava que era timidez excessiva. Depois que acabei cedendo a tecnologia e conheci o mundo da informática, pude, pela internet, estudar mais e melhor o assunto. Foi muito benéfico para mim, participar de várias comunidades no orkut e conhecer pessoas que tinham os mesmos problemas que eu tinha. Não tenho vergonha de dizer que tenho esquizofrenia, acho que existem coisas piores(políticos, por exemplo).
    Certa vez, depois de um surto, fui levado para uma clínica de recuperação para viciados em drogas e álcool, apesar de não ter nenhum envolvimento com essas substâncias. A verdade era que o dono queria me aposentar e me interditar, e eu teria que passar o resto dos meus dias naquele lugar.
    Mas não aguentei ficar um mês confinado dentro daquela casa, que mais parecia um big brother. Tive que ficar falando muito no ouvido do proprietário até ele não aguentar mais e me liberar.
    Foi complicado ficar trancado dentro daquela casa, não havia uma horta, um campinho de futebol para aliviar o stress. Mas foi lá que conheci os 12 passos dos alcoólicos anônimos e, desde então comecei a pratica-los, adaptados a minha realidade, que é a esquizofrenia.
     Primeiramente irei citar os doze passos e comentá-los. Depois, irei adaptar os passos para a esquizofrenia,  sem pretensão de criar um manual para o portador. É óbvio que, antes de pensarmos em adotar esses passos, é muito importante temos a certeza que o que temos é esquizofrenia. Às vezes, os profissionais da área de saúde mental demoram anos para se chegar a um diagnóstico. Não é raro psiquiatras darem diagnósticos diferentes para um mesmo caso. É muito comum, por exemplo, haver divergências sobre o que uma pessoa tem é esquizofrenia ou transtorno de humor, pois os sintomas são bem parecidos.

Primeiro passo
"Admitimos que éramos impotentes perante o álcool, que tínhamos perdido o controle de nossas vidas."
    Adaptando o passo para a esquizofrenia, seria como admitimos que temos a patologia e que precisamos de ajuda. Esse é o mais difícil passo. Como admitir sermos um "louco", ter uma doença de doido? Devido ao preconceito e falta de informação, temos em mente que esquizofrenia é sinônimo de loucura, agressividade, falta de capacidade de realizar uma simples tarefa. Rasgar dinheiro e outras coisas mais também fazem parte desse "pré conceito".
    Nesse caso, a informação é muito importante. Ao conhecermos melhor a esquizofrenia, veremos que as coisas não são bem assim. É claro que um portador de esquizofrenia surtado pode ser agressivo e representar perigo para a sociedade, mas, o que a maioria das pessoas desconhecem é que o portador de esquizofrenia é agressivo com ele mesmo e as chances de uma tentativa de auto extermínio são grandes. Segundo pesquisas, 10% dos esquizofrênicos comentem suicídio. Acho que a porcentagem de tentativas é bem grande, mas não consegui achar uma fonte confiável sobre as estatísticas das tentativas.
http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=105
    Uma vez conhecendo melhor a esquizofrenia, a pessoa passa a se conhecer melhor. Não ter orgulho e admitir que precisa de ajuda é consequência. Claro que não precisa sair por ai espalhando para os quatro cantos que é portador da patologia, o importante é admitir para si próprio e para as pessoas em que você confia e que possa te ajudar nessa situação.


Segundo passo
"Viemos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia devolvermos à sanidade. 
    Bem, eu não tenho o costume de falar sobre religião, para evitar discussões que não levam a nenhum lugar. Tenho minhas crenças e convicções, mas o mais importante é a pessoa ter fé, independente de crença e religião. E ter fé em si próprio, o que é muito importante também. 
    Creio que muitos portadores já devem se ter perguntado: "Mas por que logo eu?" "O que eu fiz para merecer tal castigo?" Eu também já me fiz esta pergunta, pensando que poderia ter feito algo em uma outra encarnação, sei lá. Mas, analisando o mundo em nossa volta, vamos perceber  que não somos os únicos a sofrer e ter problemas. 
    Esse passo vai da crença de cada um, e também da não crença, respeito a opinião de quem é ateu ou agnóstico. Vou evitar me aprofundar nas questões espirituais dos doze passos, pois a minha intenção aqui no blog não é a de tentar convencer as pessoas a terem a mesma opinião do que a minha. 


Terceiro passo
"Decidimos entregar nossa vontade e vida aos cuidados de Deus, na forma em que o concebíamos".
    Como já disse no segundo passo, não vou entrar muita na questão espiritual. Mas creio que, além da fé, é preciso agirmos e fazermos a nossa parte. É uma batalha a ser vencida contra a esquizofrenia. O conhecimento sobre o "adversário" é uma boa tática a ser usada. Não me refiro a uma briga no sentido literal, pois na verdade o que temos que fazer é aprender a lidar e conviver com a esquizofrenia, já que, até hoje ela ainda não tem cura. 


Quarto passo
"Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos"
    Esse passo não consegui achar uma ligação direta com a esquizofrenia. 
    Creio também que não exista uma relação direta esquizofrenia x cárater. A patologia não interfere no caráter do indivíduo, ou seja, os portadores de esquizofrenia podem ser bons ou maus, honestos ou não, como todas as outras pessoas. 

Quinto passo
"Admitimos perante Deus, perante nós e perante o outro ser humano, a natureza de nossas falhas. 
    Esse quinto passo é bem complexo. A primeira parte, relativa a espiritualidade, como já disse, não vou comentar, respeitando a crença de cada um. A segunda parte é admitir a natureza de nossas falhas. Adaptando esse passo a esquizofrenia, seria como assumirmos para nós mesmos que temos a patologia. É difícil, mas sem esse passo não iremos procurar ajuda. É óbvio que no caso da esquizofrenia não é aconselhável sair por ai falando para todo mundo que temos o transtorno. Ainda mais se a pessoa estiver o mercado de trabalho, o preconceito é tão grande que, se por acaso a esquizofrenia fosse considerada deficiência, o portador, ao procurar trabalho, dificilmente conseguiria emprego nas empresas que oferecem vagas para deficientes, pois estas, provavelmente irão dar preferência a outros tipos de deficiências.
   Mas conversar sobre o assunto com pessoas de confiança ajuda e muito. Sei que é difícil um esquizofrênico confiar em alguém, somos assim por natureza(e eu que sou mineiro então?) mas a família é muito importante nessas horas. Se já é difícil enfrentar a esquizofrenia com a ajuda de amigos e familiares, imaginem sozinho.

Sexto passo
"Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter"
    Mais um passo com conteúdo espiritual. Não posso entrar em detalhes, mas, creio que, para evoluirmos, é preciso agir e fazermos a nossa parte. Deus, ou o ser superior, não nos dá tudo, apesar Dele ter poder  para fazer isso. Ele quer que demonstremos o que desejamos. O caminho nós escolhemos, ou não?
    Devemos assumir nossos erros. Muitas pessoas, ditas religiosas, costumam falhar e cometer atos e depois botarem a culpa de suas falhas no "tinhoso". Certa vez um pastor foi pego com uma garota de programa na saída de um motel, e, ele, arrependido, disse que a culpa foi do demo que o ficou tentando. Ai é fácil né? Botar toda a culpa no capeta...
    Voltando a esquizofrenia, esse passo seria para pedirmos a Deus para nos ajudar a lidar melhor com a patologia, e claro, devemos fazer a nossa parte, buscando o tratamento e ajuda. 

  
Sétimo passo
"Humildemente rogamos à Ele que nos livrasse de nossas imperfeições"
    Esse passo é bem parecido com o anterior, só que, em vez do caráter, é citada as nossas imperfeições. 
    Para isso, como sempre, temos também que trabalhar e pensar a nossa maneira de ser. Primeiro temos que reconhecer nossas imperfeições e pontos fracos. E, para isso é preciso humildade para sabermos que não somos perfeitos. 
    Muitas pessoas confundem o termo humildade com a questão financeira e a posição social do indivíduo. É muito comum ouvirmos dizer que uma pessoa é humilde pelo fato de ser pobre e ter pouca instrução. Tem muito pobre por ai que faz um sacrifício enorme para comprar uma roupa de marca para sair por ai tirando onda. E tem muito cara rico que é humilde, nem aparentando ter a grana que tem. Humildade para mim é não se achar melhor do que os outros. Quanto a questão espiritual, a minha opinião é a mesma do sexto passo. Tudo bem, temos as nossas crenças, o ser superior tudo pode, mas temos que fazer a nossa parte, para que a cada dia nos tornemos uma pessoa melhor. Mas sem essa de querer ser perfeito, pois, para mim isso já é paranoia. 
    Também acho que o mundo seria um imenso tédio se tudo e todos fossem perfeitos. A vida é um aprendizado, e aprendemos diariamente com os nossos erros e falhas. 


Oitavo passo
"Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a ela causados"
    Na minha humilde opinião, essa é uma questão complicada, pois o sentimento de culpa exagerado, às vezes pode ser um dos componentes da esquizofrenia. Até hoje tenha essa questão mal resolvida em minha vida. Gostaria de reparar alguns erros do passado, mas chego a me perguntar se não estou exagerando no meu sentimento de culpa. Mas,  tendo culpa ou não, é sempre bom conversamos com as pessoas para esclarecer e resolver as pendengas do passado. Sempre ficamos com a alma mais leve quando pedimos desculpas a alguém que tínhamos por acaso prejudicado, mesmo quando não tivemos intenção. Desconfio de pessoas que dizem nunca terem se arrependido de algo que fizeram no passado. Elas são perfeitas? Nunca erraram em suas vidas? 
    Mas se por acaso a pessoa que pedimos desculpas for rancorosa e não nos perdoarmos? Bem, o mais importante foi feito, o pedido de desculpas e o sincero arrependimento. Se a pessoa não quer nos perdoar, isso já é um problema mais dela do que nosso. O principal é termos a consciência tranquila, ao admitirmos que erramos e nos arrependemos. 
    Em relação a esquizofrenia, esse passo serve para analisar se estamos prejudicando alguém ao não admitirmos a patologia e ao não procurarmos ajuda. Familiares, amigos, namorados(as) são as pessoas que mais sofrem quando não aceitamos a nossa condição. Muitos pais de portadores, preocupados com seus filhos, compraram o meu livro com o intuito de conhecer melhor a patologia da mente dividida. Também fazem parte de grupos como a ABRE e outros, a fim de trocar experiências e conhecimentos. 
  
Nono passo
"Fizemos reparação direta dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-la ou a outrem".
    Bem, esse passo, aplicado à esquizofrenia, significa fazermos uma auto análise para decidir se precisamos de tratamento ou não. Devemos analisar se estamos fazendo mal aos nossos parentes e amigos por causa de nosso comportamento. Nem sempre é possível reparar os danos acontecidos em um passado distante, mas uma mudança de atitude juntamente com uma demonstração sincera de arrependimento fazem esquecer muitas coisas que fizemos.

Décimo passo
"Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos 
prontamente".
    Essa é a continuação do nono passo. Mas, como disse anteriormente, não devemos nos ficar culpando pelos erros do passado. O que passou, passou. Creio que alguns portadores já sofrem em demasia com o sentimento de culpa exagerado. Se os nossos pedidos de desculpas não forem aceitos, o melhor a ser feito é esquecermos o fato e tirarmos lições para que o erro não volte a acontecer. 


Décimo primeiro passo
"Procuramos, através da prece e meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma que o concebíamos, rogando apenas o conhecimento de sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade".
    Mais um passo com teor espiritual. Como respeito todas as crenças e também aos que não têm nenhuma crença, fica da parte de cada um o contato com o seu Deus. 

Décimo segundo passo
"Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos a praticar estes princípios em todas as nossas atividades".
    Gostaria de ressaltar que o que estou fazendo é uma adaptação dos doze passos do AA. Alcoolismo é uma coisa, esquizofrenia é outra, se bem que o álcool em exagero pode levar a pessoa a ter alucinações e ser diagnosticada como esquizofrênica.F 19
    O 12º passo pede para que a pessoa transmita o seu aprendizado e sua melhora a outros dependentes. No caso da esquizofrenia, não tenho certeza se isso é bom ou ruim. 
    Por exemplo, se um indivíduo tem uma melhora significativa, talvez não seja benéfico ter  contato mais prolongados com outros portadores que ainda estão sofrendo com a patologia. Espero que não entendam isso como egoísmo. A verdade é que o portador que teve a melhora não se sinta bem ao relembrar os acontecimentos do passado com os outros portadores. 
    É um gesto nobre um esquizofrênico querer compartilhar a sua melhora e tentar ajudar as pessoas que estão passando pelo que ele já passou. Mas tenho dúvidas se isso irá fazer bem ou não. Pode ser desgastante essa tarefa. Acho que isso depende de cada pessoa. No meu caso, tento ajudar as pessoas, através do blog, no facebook, apesar de atualmente estar sem internet e não poder ficar muito tempo em frente de um computador. 
   Bem, depois de ter comentado os doze passos do AA, gostaria de apresentar os doze passos do esquizofrênico. Não tenho a pretensão de criar um manual de como se lidar com a esquizofrenia, são apenas dicas de como lidar melhor com essa patologia. 

Primeiro passo
    "Descobrir se realmente o que temos é esquizofrenia. O diagnóstico, às vezes, pode ser difícil de ser fechado e confundido com outros transtornos da mente."

Segundo passo
    "Depois do diagnóstico temos que aceitar e admitir a patologia. Sem a aceitação, não iremos procurar ajuda e tratamento."

Terceiro passo
    "Estudar e conhecer melhor a esquizofrenia. Conhecendo melhor a patologia, estaremos descobrindo respostas para uma série de questões sobre nossa maneira de ser e agir." 

Quarto passo
    "Acreditar em um poder superior e em nós mesmos. "

Quinto passo
    "Rogar ao poder superior para que lidemos melhor com a patologia, mas também temos que lutar e fazer a nossa parte."

Sexto passo
    "Devemos nos auto conhecer o mais profundamente possível. Sabermos os nossos pontos fracos e falhas é muito importante, para não prejudicarmos os outros e a nós mesmos."

Sétimo passo
    "Evitar o stress, que, em muitos casos pode desencadear um surto psicótico"

Oitavo passo
    "Se "autopoliciar" constantemente, fazendo uma auto análise e verificar se estamos ou não nos distanciando da realidade. "

Nono passo
    "Não desistir do tratamento na primeira vez. Pode ser um pouco difícil encontrar o medicamento e a dose ideal para cada caso. A esquizofrenia não é uma diabetes, por exemplo. "

Décimo passo
    "Se não houver adaptação a nenhum medicamento, analisar se é possível viver e conviver sem os remédios sem prejudicar as pessoas do nosso convívio e a nós mesmos. "

Décimo primeiro passo
    "Depois de estabilizada a patologia, não parar bruscamente com a medicação, pensando que tudo já está resolvido e que os surtos não voltarão. Manter um bom diálogo com o psiquiatra é de fundamental importância, principalmente quando se quer diminuir a dose do medicamentos."

Décimo segundo passo
    "Esse basicamente não é um passo, é um comportamento que devemos seguir desde o princípio, que é o de de não desistir nunca!"