quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O "pan" nosso de cada dia


    São onze horas e quarenta e dois minutos da noite. Viro para a  direita, viro para a esquerda, fico de bruços mas o sono não vem. Ai me lembro que esqueci de tomar o meu companheiro de todas as noites: o diazepan. Não adianta, a mente pode esquecer, mas o corpo nunca esquece.
     Só os jogos da seleção do Mano Menezes para me proporcionarem um sono profundo sem precisar de recorrer ao diazepan (ontem, 14/11,  conseguimos empatar com a "poderosíssima" seleção da Colômbia).
    Me lembro como se fosse hoje a primeira vez em que pisei em um consultório de psiquiatria. Ainda estava morando nas ruas, tive que fazer um barraco na unidade de saúde do bairro Santo André, em Belo Horizonte. O pessoal  não estava querendo me atender, pelo simples fato de que eu ainda não tinha  um endereço fixo. Disse então que o meu endereço a partir daquele momento seria a porta do posto de saúde, e não sairia de lá enquanto não fosse atendido. Ai foi um reboliço danado, falaram que eu era doido, etc. Como é engraçado né? Quem usa os "serviços" do SUS deve entender o que eu estou falando: quando solicitamos algo aos funcionários com educação, somos mal atendidos e não nos dão atenção. Então, muitas pessoas dão um piti no local e são atendidos rapidamente. Ainda colocam aquele aviso na parede dizendo que desrespeitar funcionário público é crime. Mas também alguns funcionários nos dão a impressão que estão fazendo uma obrigação em nos atender, como se não fossemos nós que não pagássemos o salário deles. Digo alguns funcionários, pois existem pessoas atenciosas trabalhando no SUS, apesar de não terem condições mínimas de trabalho.
    -obs: não reparem muito nos palavrões do apresentador do vídeo, acho que ele se esqueceu de tomar o rivotril rsrsrsrsrs. 
    Voltando então a minha minha primeira consulta com o psiquiatra. Já estava super bem, o surto havia passado há uns três meses. Estava super comunicativo e tendo um sono razoável, mesmo dormindo em um pedaço de papelão debaixo da marquise de um prédio. Não não estava mais enxergando inimigos por todos os lados, muito pelo contrário, estava me sentindo mais leve e bem disposto. Costumo dizer que a solidariedade das pessoas foi o meu melhor remédio naquela situação. 
    Mas ainda estava um pouco assustado com o que havia acontecido comigo. Muitas dúvidas ainda povoavam meus pensamentos. O que teria acontecido comigo? Seriam espíritos do mal que haviam se apossado de mim? Alguém teria colocado alguma droga em algo que havia bebido? Ou eu era realmente um louco? Aquilo tudo poderia voltar de uma hora para outra?
    Pois bem, estava muito ansioso para essa minha primeira consulta com o psiquiatra. Mas confesso que fui ficando desanimado ao constatar que as pessoas eram atendidas em menos de dez minutos. Me perguntei como seria possível resolver os problemas da mente de uma pessoa em tão pouco tempo. 
    Ao chegar a minha vez, entrei correndo para o consultório. A minha expectativa era de que o psiquiatra me receitasse um remédio milagroso que acabaria de uma vez por todas com os meus complexos e paranoias. Também queria um remédio que me faria dormir o sono dos justos. 
    O psiquiatra nem me cumprimentou e também nem chegou a olhar para mim. Apenas perguntou o que eu tive. Fiquei um pouco desesperado, não sabia como contar em poucos minutos aquela loucura toda que havia acontecido comigo nos últimos meses. Sinceramente, não lembro do que disse, talvez tenha citado o tempo que permaneci no meio do mato. Só sei que, em menos de cinco minutos, após fazer algumas anotações, ele me passou um remédio chamado melleril. E, como eu tinha pedido algo para dormir, me receitou o lorazepan. 
    O que mais me deixou chateado nisso tudo, além do pouco tempo do atendimento, foi o descaso desse psiquiatra. Ele cometeu um equívoco, pois apenas perguntou o que havia acontecido comigo, e esqueceu de perguntar como eu estava me sentindo naquele momento. Como já disse, eu estava muito bem, comunicativo, tranquilo, em paz, já havia até recuperado o meu peso normal. Não tem como se fazer um diagnóstico e receitar um medicamento em cinco minutos. O que eu mais precisava naquele momento era de esclarecimento e talvez de um acompanhamento psicológico, para avaliar se eu correria ou não o risco de ter um novo surto. 
    Não tive nenhuma dessas coisas, e, como estava me sentindo bem, decidi que já era hora de voltar a trabalhar. Após algumas tentativas frustradas de trabalho em Belo Horizonte, resolvi voltar a trabalhar em Timóteo, cidade onde desencadeei o meu primeiro surto. Não demorou muito e surtei novamente. Era como se fosse a repetição de um filme, pois fui muito caluniado naquele lugar. Sem contar as inimizades que tive por lá. O motivo disso até hoje não descobri, pois, nunca tive problema parecido nas várias cidades por onde havia trabalhado. Voltei para as ruas novamente, só que dessa vez fui ajudado por pessoas que apareceram na hora certa e no lugar certo.
    Mas, voltando ao assunto diazepan, hoje não consigo ficar sem esse medicamento. Já cheguei a tomar dois por dia, quer dizer, a noite, antes de dormir. Já houve época em que não conseguia ir ao centro da cidade sem tomar um diazepan. Ficava desesperado só de constatar que a cartela do comprimido não estava no meu bolso. Hoje, com a situação mais ou menos estabilizada, consigo tomar apenas um na hora de dormir e pretendo tomar meio apenas. Só ainda não tentei por preguiça mesmo de achar uma farmácia que tenha aquele "negócio" que consegue partir o comprimido no meio, pois com a faca o mesmo fica todo despedaçado. 
    Já tentei parar de uma vez com o diazepan, mas estava ficando irritado a toa e fiquei com receio que pudesse surtar novamente, pois a minha mania de perseguição começou a ficar bem acima dos níveis que costumo ter normalmente. 
    O que eu questiono é por que os psiquiatras, clínicos em geral, não alertam os pacientes na hora de receitar o diazepan e outros "pans" da vida, que esses medicamentos podem causar dependência e que eles poderão ser usados pela vida inteira. 
    Esses medicamentos apenas ajudam a conciliar o sono, não fazem milagres. Não irão fazer você esquecer seus problemas, não irão pagar suas contas e apagar da sua mente o que está tirando o seu sono. A não ser que você faça como o Michael Jackson fazia, tomando anestesia para dormir. Acho que os médicos também deveriam alertar que esses medicamentos com o tempo já não fazem o mesmo efeito, ou seja, a dose terá que ser aumentada com o decorrer dos anos. 
   Será que é tão difícil assim fazer essas duas pequenas recomendações? Demora tanto tempo assim? Alguns irão dizer: ah, mas isso está escrito na embalagem e na bula do remédio. Até que está escrito, mas em qual tamanho? Por que nas embalagens do cigarro são colocadas aquelas fotos horríveis e na dos medicamentos não tem uma advertência mais visível? Será que é por que o cigarro está trazendo prejuízos ao governo devido as doenças causadas pelo tabaco? Já o diazepan não é tão caro assim, ou seja, traz prejuízos apenas a quem o usa. Sem contar que a maioria das pessoas que utilizam o SUS, não pegam a embalagem do produto e nem a bula, apenas as cartelas. E, mesmo se tivesse acesso a bula, muitos não entenderiam o que está escrito nela. Não estou aqui querendo dizer que o diazepan é um medicamento desnecessário, às vezes, em alguns casos de urgência, eles são muito úteis. Eu só quero dizer que seria muito útil os profissionais da saúde, antes de receitarem esse medicamento, fizessem essas advertências, pois grande parte das pessoas pensam que os "pans" são milagrosos, fazendo com que consigamos dormir o sono dos justos. 
    A minha memória dos fatos recentes já não está tão boa assim. O engraçado é que consigo lembrar de fatos antigos com detalhes. Percebi isso ao escrever o livro Mente Dividida. Pelo que pesquisei, um dos efeitos colaterais do diazepan é o esquecimento dos fatos recentes. Até que consigo dormir tomando o medicamento (quando os vizinhos deixam né?) mas a sensação de manhã é a de que não dormi quase nada, talvez pelo fato do diazepan não fazer com que cheguemos a fase do  sono rem, que é o sono reparador e que nos deixa mais dispostos e prontos para enfrentar um novo dia. 
     Existe um outro medicamento para dormir, que não é da família dos benzodiazepínicos, que se chama levozine. Esse faz até elefante dormir, mas o problema é que o efeito dele não cessa às sete horas da manhã, ficamos dopados até por volta do meio dia. Outro  problema acontece quando dá vontade de urinar no meio da noite. A sensação ao levantarmos é de que estamos bêbados, e o corredor fica estreito demais até chegarmos o banheiro. A solução seria o tradicional e velho pinico, que não gosto muito não. Tomei esse medicamento apenas por um dia, pois não posso ficar na cama até o meio dia né? 
    Então, ai vai o conselho: pensem duas vezes antes de começarem a tomar medicamentos para dormir. Isso pode ser para a vida inteira. Para mim vale o ditado: " Mais vale uma hora de sono natural do que duas com remédios". Tentem um chá de erva cidreira, um copo de leite morno antes de dormir, ouvir uma música suave, ver os jogos da seleção, etc. Tentem também resolver os problemas que estão lhe tirando o sono pois nenhum remédio vai resolvê-los por você. 

9 comentários:

  1. Mas Júlio,vc so toma diazepan,mas nenhum remedio?A esquizofrenia nao tem cura,logo precisa-se de tomar sempre a medicação.Vc consegue ficar sem antipsicoticos?Meu irmao nao pode ficar sem de jeito nenhum,pq ele surta pesado,e fica mto agressivo.

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  2. Por mais,que anti- psicóticos ,sejam,medicamentos que possúem graves efeitos colaterais,alguns até irreversíveis,,é impressionante a forma que conseguem,'exterminar surtos altamente perturbadores',em questão de poucos minutos.Conheço pessoas diagnosticadas,como esquizofrênicos 'normal',como qualquer outra pessoa,tomam medicamentos,trabalham,dirigem automóveis,bebem,fumam,etc..Principalmente ex-universitários,que conseguiram terminar alguma faculdade e conseguiram o tão famigerado diploma profissional.Normalmente o perfil é sempre o mesmo.Abuso de álcool e drogas,problemas pessoais e familiares,às vezes financeiros,ou seja,nada que fuja aos 'padrões',da maioria das pessoas,consideradas 'normais.Uma coisa que tenho algumas dúvidas,é,que embora muitas literaturas médicas apregoam,que,uma vez diagnosticado,seja algum transtorno mental,ou doença'hoje em dia as doenças ou transtornos,mudam de nome,como se troca de roupa,essas pessoas têm que tomar remédio para o 'resto da vida.O mesmo ocorre com males 'físicos',como diabetes ,asma hipertensão,entre outras.Já li em Literaturas(revistinhas de sala de espera de consultórios'),que nem sempre isto é fato.Aí é que entra o tal do livre- arbítrio.Nem sempre uma pessoa ,que,após medir a pressão,ainda que esteja muito alta pode ser considerada e diagnosticada como hipertensa e ponto.Terá que tomar anti-hipertensivos pelo resto da vida;no máximo trocar de medicação,se necessário.As vezes pelo simples fato de apessoa subir uma escadaria ,estar passando por problemas pessoais,financeiros,etc.,ou ter tido uma simples discussão com alguém,ainda que mais de uma hora antes da 'medição',a tendência de se constatar uma crise hipertensiva,mesmo aferindo os aparelhos,poderá ser alta.Mas voltando à questões como esquizofrenia ou epilepsia,conheço pessoas que,mesmo tomando remédios regularmente,continuam ouvindo vozes,tendo manias de perseguição,entre outros sintomas,mesmo sem experimentar drogas ou álcool.Inclusive pessoas que,já apresentaram graves sintomas de esquizofrenia,terem esses mesmos sintomas cessados com uma única dose de um anti-psicótico.Sei que é um assunto complicado,até mesmo e principalmente para psiquiatras e psicanalistas,mais experientes.Eu mesmo tive dezenas de 'ataques epiléticos',sempre após a supressão repentina de altas doses de bebidas alcoólicas por longos períodos e praticamente sem me alimentar adequadamente,e só me convenci que não sou epilético,ou pré-epilético,quando um psiquiatra me disse simplesmente,mas de incisiva e convincente,a seguinte frase:Isto é por causa do álcool.Estava começando a achar que poderia ter uma convulsão a qualquer momento,e isto me preocupava de uma forma peculiar.Pelo menos desta encrenca eu me livrei.Mas por prudência e experiência própria,prefiro enfatizar;não sei por quanto tempo.

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    1. Muito bom o seu comentário, nem tenho o que acrescentar, só tenho que agradecer sua visita ao blog e que continue postando suas ideias.

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  3. diazepam é muito fraco, nunca tomei mais posso provar, pq eu já cheguei a tomar 10 comprimidos de 2mg de clonazepam e não sentir sono, não diminuio a ansiedade, nem tive efeitos colaterais, nada. e olha que clonazepam é bem mais forte que diazepam, 2mg de clonazepam equivale a 40mg de diazepam. quantos mg de diazepam vc toma ?? consegue dormir bem, e diminuir a ansiedade ??

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    1. O diazepan até que no início dava uma sonolência, mas agora é como se não fosse nada, por isso que diminui a dose para 5mg, antes tomava 20mg. Infelizmente é difícil de parar, pois é muito viciante. O sono não é dos melhores, costumo dizer que vale mais duas horas de sono natural do que oito horas de sono induzido por esses medicamentos. Em relação à quantidade de clonazepan que você tomou, não faça mais isso, se não efeitos colaterais no momento, pode trazer problemas gástricos. Usei muito o diazepan como um sos, quando estava trabalhando e sentia que poderia ter uma crise. Hoje já não tomo mais durante o dia, pois estou meio sonolento e um pouco desanimado. O jeito é tentar praticar esportes, procurar ter bons amigos para conversar, ocupar a mente para diminuir a ansiedade e o stress.

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  4. omega 3 é muito bom mesmo para o cérebro ?? disem que melhora doenças mentais fisicas e a memoria será, qual sua opinião, vc toma omega 3 ? e qual a dosagem ? vlw !

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    1. Sim, é muito bom, posso dizer isso com propriedade pois já tomei e me senti bem melhor, mais disposto e na parte mental também senti uma grande melhora. A única dificuldade é encontrar um ômega 3 que não seja falsificado. A dose recomendada é 3 comprimidos de 1000gr, três vezes ao dia.
      Até fiz uma postagem sobre esse assunto: http://memoriasdeumesquizofrenico.blogspot.com.br/2012/09/omega-3-e-esquizofrenia.html
      Essa matéria também ajuda a entender um pouco o assunto:
      http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2015/08/11/omega-3-reduz-risco-de-desenvolver-doencas-mentais-diz-pesquisa.htm
      E se puder, fazer um pouco de exercício físico ajuda muito também. É uma ótima combinação.

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  5. Oi! Adorei o seu blog. Tenho síndrome do pânico e larguei há 8 meses um "tratamento " de 4 anos com Rivotril e antidepressivos. O primeiro acabou com minha memória e me tornou uma pessoa depressiva (o que eu não era antes), mesmo tomando os antidepressivos. Kkk veja o poder destas drogas !
    Espero com fé que estes efeitos colaterais cessem com o tempo. E VC, como se sente agora? Se livrou do Rivotril?

    Te desejo muita saúde e luz!

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  6. amei ler esse assunto.tomo varios medicamentos e fui diagnosticada desde bipolar atédepressao atipica,que nen sei o que é.dei boas risadas imaginando o seu sufoco de ir ao banheiro no meio da noiteobrigada pela materia.

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