Divagações esquizofrênicas

    
    Ontem foi dia de pagamento. Como relatei em "Dinheiro na mão é vendaval", foi um dia de stress como são todos os dias em que pego a minha aposentadoria no banco. O movimento é intenso no centro da cidade e o policiamento é reforçado em virtude de várias pessoas receberem seus pagamentos e aposentadorias nas agências bancárias no início do mês. 
    Para completar, as calçadas no centro são bem estreitas, acho que, quando projetaram a cidade, não imaginaram que Ipatinga poderia crescer tanto, principalmente em virtude da Usiminas, que cresceu e se expandiu junto com a cidade. 
    Nesses dias prefiro andar na rua, pois se quiser andar na calçada tem que se ter muita paciência e ficar ziguezagueando em meio a crianças e idosos, tendo que tomar o cuidado para não esbarrar em ninguém e não levar nenhuma bronca. Acho que, pelo fato de ter nascido na capital e estar acostumado com a vida agitada de Belo Horizonte, ando meio rápido e não tenho muita paciência para ficar andando atrás das pessoas no meio das calçadas. Na capital, as pessoas andam com uma velocidade bem acima do que na maioria das cidades do interior. Creio que em São Paulo a correria deva ser maior. Então, vou dividindo as ruas com os carros e motos, para fazer o mais rápido possível o que sempre faço nos dias de pagamento: sacar o dinheiro no banco, ir ao supermercado, comprar os meus cereais matinais e pagar a fatura da net. Volto pra casa quase que correndo, pois, ter esse contato com várias pessoas em um curto espaço de tempo não me faz sentir bem. Mas, como disse, não é uma reclamação, só tenho que agradecer, pois as coisas poderiam ser piores se não fossem a ajuda de muitas pessoas que apareceram em meu caminho, no lugar certo e na hora certa. 
    Ontem, comecei a tomar o ômega 3, pois já desisti de experimentar os antipsicóticos.  Por falar nesses medicamentos, muitas pessoas estão falando muito bem de um chamado abilify, mas, sinceramente, não creio que eu vá me adaptar a esse também. Me lembro que, com a ajuda da psiquiatra, consegui uma autorização para conseguir um medicamento meio caro, chamado zyprex. Demorou um pouco, tive que preencher um formulário, a psiquiatra também. A caixa custava seiscentos reais na época e fiquei muito esperançoso para tomar um medicamento tão caro. Pensava que, pelo preço, ele seria a solução mágica para todos os meus problemas. Mas a felicidade acabou no primeiro dia em que tomei o medicamento. Assim que o ingeri, me deu um sono muito forte e apaguei. Dormi como não dormia há muitos anos. O problema que o efeito do zyprex durou dois dias, ou seja, fiquei completamente dopado por umas 48 horas. O máximo que consegui fazer foi ir a padaria e comprar um litro de leite e um bolo, que foi o meu almoço e o meu jantar durante esses dois dias. A partir daí, perdi a esperança em encontrar uma melhora definitiva para as minhas paranoias, sem que eu tenha que pagar um alto preço por isso. Não estou aqui querendo desmotivar os portadores a usarem os medicamentos, acho que cada um reage de uma maneira diferente aos medicamentos, e sinto que sou meio sensível a eles. 
    Por isso comecei a tomar o ômega 3, pois algumas pesquisas deram bons resultados com esse produto. Se não melhorar as minhas paranoias, pelo menos acredito que vá diminuir os triglicerídeos, que está o triplo do limite, por causa do chocolate e todas as besteiras que como para dar a sensação de bem estar e diminuir a ansiedade. Penso em tomar a sertralina, que, pelo que pesquisei, é um antidepressivo que ajuda um pouco a controlar esses sintomas que tenho e não causa tantos efeitos colaterais. Infelizmente, agora estou sendo atendido no posto de saúde, e não no caps, e o clínico geral, sem exagerar, atende cada pessoa em dois minutos. Certo dia, uma mulher que iria fazer uma consulta, preocupada com o atraso, resolveu cronometrar os atendimentos do médico, pois teria que trabalhar em meia hora, e, as duas pessoas que ela cronometrou o tempo, não ficaram mais do que dois minutos na sala. Esse médico não tem formulário dos pacientes  e nem sabe preencher uma receita com os meus medicamentos, ele simplesmente  pede para que eu fale o nome e a dose dos medicamentos e, sem demora, já rabisca sua assinatura sem me perguntar nada. Se eu quisesse, poderia pedir qualquer medicamento tarja preta que ele me passaria, pois, pelo que vi, não tem prontuário no posto de saúde, nem telefone e nem computador. A saúde está um caos na cidade, aliás, a cidade está um caos, lixo para tudo quanto é lado, pois a prefeitura não se entendeu com a empresa que cuida da limpeza urbana. Vários serviços estão sendo fechados, e a associação para portadores de transtornos mentais está funcionando apenas duas horas por dias, por falta do pagamento da prefeitura. 
    Mas vamos parar de falar em política, que é algo que eu não gosto muito. Para se ter uma ideia, eu só votei uma vez em minha vida, aos dezoito anos, e depois nem justificar eu justifiquei. Para minha sorte, no ano de 2002, quando eu perdi todos os meus documentos durante o meu primeiro surto,conseguir tirar todos os meus documentos gratuitamente e tirei o meu titulo de eleitor, sem pagar multa nenhuma. Até hoje não voto, apenas justifico, pois o meu título ainda é de Belo Horizonte. 
    Esse mês sobrou um dinheiro e estava pensando em comprar algumas camisas. Na verdade, até que não preciso tanto assim de roupa. Um cara que só sai para almoçar não precisa de muitas roupas, precisa apenas de que elas estejam limpas, é claro. 
    Mas, quando passei em frente de uma loja de informática, me deparei com essas caixinhas de som para computadores e não resisti. Foi paixão a primeira vista. Pedi a balconista para testar o som e então as camisas ficaram para o mês que vem. Além do designer diferente, essas caixinhas tem um som de qualidade  com uma boa potência. Não pensei duas vezes em comprá-las, apesar de não serem das mais baratas, mas, como passo a maior parte do tempo ouvindo música, achei que o investimento seria válido. As caixas antigas do pc passei para o vizinho. Elas tinham um tendência suicida enorme, viviam caindo da mesa. Essas novas, pelo formato e pelo peso, dificilmente irão se aventurar a pular aqui da mesa do computador. 
    Agora estou escrevendo este post ouvindo um reggae nas novas caixinhas de som. São pequenas alegrias de uma vida monótona e sem graça que estou vivendo atualmente. Ouço música em casa e, quando saio para almoçar, coloco os fones de ouvido do celular e continuo a ouvir música. Acho que isso ajuda a não dar atenção aos meus pensamentos. Por falar em estilo musical, acho que não existe no mundo um celular tão eclético musicalmente falando como o meu. Ouço as músicas no modo aleatório, então não é raro o metal pesado do Slipknot se encontrar com um country e depois este se deparar com as músicas do Roberto Carlos. Já vi um guitarrista misturar heavy metal com musica clássica e o resultado ficou muito bom.
Mas essa ecleticidade absurda que eu tenho não vi em nenhuma outra pessoa
                             

    Esse cara ai de cima toca muito. Ao contrário de que muitas pessoas pensam, tocar um bom metal não é para qualquer um. Acho que um dos poucos estilos musicais em que não é preciso saber tocar um instrumento é o funk, e nem precisa falar a razão né? Que me desculpem os funkeiros, principalmente os da atualidade, mas creio que nem deve existir um meio de colocar os funks atuais em uma partitura. Claro que toda regra tem exceção, tem alguns funks que tem uma melodia e tal. 
    Então no meu celular tem espaço para todos: música country, mpb, metal, reggae, clássicas, românticas nacionais e internacionais, flash back, e o Yanni, é claro. Tem até um cantor holandês que achei sem querer no youtube, que se chama Grad Damen. No meu telefone eles estão juntos e misturados e se dão muito bem, cada um respeitando o espaço do outro. Gosto das músicas do Roberto Carlos, até aquelas antigas, que estão com a qualidade de gravação não muito boa. Até acho legal ouvir essas músicas nas versões originais, com aquele com de bateria parecendo lata. É, acho que ultimamente ando meio nostálgico. 
    Mas me sinto bem sendo diferente nesse aspecto também, com a cabeça aberta para quase todos os estilos musicais. Considero os termos "esquisito", "diferente", como elogio. Aliás, fico até ofendido se me consideram normal e previsível. Como já disse o escritor Nelson Rodrigues: "Toda unanimidade é burra". Claro que toda regra tem exceções, por favor não me interpretem mal,  é óbvio que existem unanimidades que são inteligentes e de bom gosto. Mas, afinal, cada qual com seu cada qual e existe espaço para todas as tribos,  desde que respeitemos o gosto e o estilo de cada um. 
                                   







Comentários

  1. Julio, parabéns! É uma delícia ler seu blog. Continue produzindo. Um abraço, Alain Gerino.

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    1. Obrigado. Isso me dá forças para continuar sim, acho que, já que estou aposentado, tenho que fazer algo para tentar mostrar de uma maneira mais leve o que é a esquizofrenia e o que ela causa em um ser humano, mas que também não é o fim do mundo.

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  2. Falando em antipsicótico, você já tomou risperidona?

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    1. Olá
      Já experimentei esse a risperidona sim. Me deixou com a mente tranquila, mas me deixou meio robotizado, sem emoções, não achava graça em nada. E fisicamente me deixava prostrado até por volta do meio dia, e também dava muita fome, muitos dizem que engordaram muitos quilos tomando esse antipsicótico. Acho que, com o tempo, irão produzir um antipsicótico sem tantos efeitos colaterais. Muitos estão falando bem do abilify, mas ele custa 800 reais a caixa e é um pouco complicado de se conseguir pelo governo.

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  3. Eu tenho 15 anos e tomo risperidona. Fico sonolenta durante o dia.
    Sobre engordar, eu tomo há pouco tempo mas parece realmente que aumenta o apetite.Mas acho que esses efeitos colaterais,tipo sonolência, diminuem como tempo. O psiquiatra aumentou a dose, e percebi que o sono aumentou junto. E me sinto mais deprimida desde que comecei a tomar o remédio, infelizmente.

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    1. O efeito da risperidona é bem longo mesmo. Me lembro que tomava de noite e ajudava a dormir, mas o problema é que o efeito começava a desaparecer lá por volta do meio dia. Não sei o motivo desse medicamento ser tão indicado pelos psiquiatras, pois diminui bastante o nosso ânimo. Você já tentou a clopormazina? Ele tem um nome mais conhecido, mas me lembro desse nome por causa da embalagem em que eu pegava no caps onde eu me tratava. Ele conseguiu me deixar mais tranquilo, sem me deixar dopado, pena que eu tive alergia a esse medicamento e fiquei com o braço todo vermelho. Converse com o seu psiquiatra sobre esse remédio, apesar de ser antigo, acho que vale a pena tentar.

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  4. Julio, muito bom ler seu blog...
    E falando em medicaçao. Hj vc toma remedios? e faz acompanhamento em algum serviço?
    Essas intervençoes ajudam ou atrapanham?!!kkk
    abraço.

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    1. Olá
      Hoje em dia eu estou só com o diazepan mesmo e tento administrando as minhas paranoias. Agora estou pegando os remédios no posto de saúde,pois a psiquiatra disse que o meu caso está estabilizado, mas sinto que mudei dos sintomas positivos para os negativos. Estou experimentando o ômega 3, pois, por causa dos meus pensamentos, praticamente não saio de casa e já tentei inúmeros antipsicóticos que me deixavam muito dopado. Em relação as intervenções dos psiquiatras, sinceramente, alguns mais atrapalharam do que ajudaram. O primeiro, por exemplo, me diagnosticou e me deu a receita em menos de dez minutos. Por exemplo, quando pedimos algum medicamento para dormir, eles deveriam nos avisar que eles causam dependência e é quase impossível nos livrarmos deles depois, e que talvez, com o tempo, teremos que aumentar a dose para continuar a dar o efeito. Mas eles não fazem isso, passam esses remédios sem nos falar nada, e na bula as letras são tão pequenas. Claro que existem exceções, fui atendido por bons psiquiatras mesmo trabalhando pelo sus.

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  5. Olá!
    Julio Leio sempre as sua post, Gosto muito do que você escreve.
    Falando em medicação. Hoje eu tomo Haloperidol 5mg e me sinto muito bem, tomo só a metade quando vou dormir.
    Ante eu tomava ele inteiro e fica muito desanimada só queria dormir,
    Ai eu passei a toma a metade dele e estou bem, já tem um ano que tomo só a metade Graça a Deus levo a minha vida como se eu não me senti-se nada.
    Fique com Deus.
    Uma boa Semana!!

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    1. Olá Maria
      Obrigado por prestigiar o blog.
      Muito boa a sua atitude de não parar com o medicamento e apenas diminuir a dose. Muitos psiquiatras já receitam uma dose meio alta, o que faz com que os portadores desistam. Acho que deveriam começar com uma dose baixa, para irem se acostumando e talvez essa dose já seja o suficiente. É sempre bom ouvir pessoas que estão bem depois da fase mais difícil da esquizofrenia.

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  6. Júlio,vc conhece bons psiquiatras em BH?Me responda por favor.Karla.bello@hotmail.com
    Obrigada,Abraçao.

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    1. Olha,até hoje eu só tive oportunidade de ser atendido pelo sus, e o tempo geralmente é muito curto do atendimento. Os psiquiatras podem até ser bons no sus, mas com o pouco tempo não tem como sermos bem atendidos. No hospital Rausl Soares eu fui muito bem atendido no primeiro surto, o psiquiatra conversava comigo por um bom tempo, não era a correria de outros lugares.

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