sábado, 28 de julho de 2012

O tédio

   Minha vida anda tão monótona e sem graça depois da aposentadoria que estou pensando em fazer algo que me faz pensar se não estou tendo um pequeno princípio de um surto, sei lá. Ultimamente ando muito estressado com os vizinhos barulhentos que tenho. São vários noites mal dormidas, sem contar a apreensão, a incerteza se poderei ter o direito de ter uma boa noite de sono ou não.
    O vizinho costuma trocar a noite pelo dia. Não sou moralista, querendo dizer o que é certo ou errado, acho que cada um pode fazer o que quiser de sua vida, desde que não prejudique a dos outros. Essas noites mal dormidas me fizeram lembrar dos dias que dormi nas ruas durante o meu primeiro surto. Apesar de ser perigoso dormir na rua em Belo Horizonte, confesso que tive mais paz naqueles quatro meses em que estive na rua do que estou tendo agora. Lembro-me que só fui roubado uma vez enquanto estava dormindo, levaram todas as minhas latinhas de cerveja que tinha pegado nas ruas pra vender. Hoje, estou pagando aluguel e muitas noites não posso dormir direito. Confesso que sinto falta das amizades que fiz durante o meu primeiro surto. Claro que as amizades foram feitas depois que sai do surto, mas ainda estava tentando achar um lugar para trabalhar novamente, e contei com a ajuda de muitas pessoas. Me lembro que engordei vinte quilos em um mês. Não sei precisar com certeza quanto tempo fiquei sem me alimentar durante o surto, mas perdi 25 quilos, no mínimo, pois, no dia em que resolvi me pesar, já estava voltando a me alimentar normalmente, quer dizer, do jeito que dava, revirando o lixo de alguns restaurantes e padarias, e contando com a boa vontade das pessoas. A noite era mais fácil se alimentar, pois espíritas, evangélicos e católicos costumam sair em grupos para distribuírem sopa, pão, café e leite durante as noites e madrugadas para os moradores de rua. 
    Isso me fez pensar em reviver tudo o que passei no primeiro surto. Estou pensando em voltar para as ruas. Mas, acalmem-se, é só por uns vinte dias, para registrar com uma câmera tudo o que passei e também para mostrar como é a vida de um morador de rua. Eu vi isso em um blog chamado paz na pista e estou pensando em fazer isso. Levarei apenas uma câmera fotográfica, um chinelo, algumas roupas, um cobertor, e outras pequenas coisas. Chego a me questionar se estou tendo um principio de surto por causa do stress causado pelas noites mal dormidas ou se é uma tentativa de escapar do tédio que domina minha vida atual. Sei que seria interessante registar e relembrar todos os lugares em que passei em Belo Horizonte e reviver essa aventura, só que agora estarei consciente, e talvez, com medo de estar nas ruas e ser assaltado, agredido, etc. Infelizmente, muitos casos de agressão a moradores de rua são registrados em Belo Horizonte, sendo que muitas vezes são brigas entre os próprios moradores de rua. 
    Creio que não conseguirei dormir com tanta tranquilidade nas ruas estando estabilizado. Acho que estar fora da realidade nos faz deixar de pensar em um monte de coisas. Se eu voltar a dormir nas ruas por vinte dias, terei que me preocupar em não ser roubado, terei que esconder bem o meu dinheiro e a câmera fotográfica durante a noite, mas esse perigo de alguma forma me fascina. Acho que esses anos entediantes estão me deixando mais maluco ainda, sei lá. 
     Penso em frequentar todos os lugares que fui durante o período em que estive nas ruas de Belo Horizonte, e não sei como será a reação dos moradores de rua ao saberem que estou apenas registrando e relembrando os momentos que tive durante meu primeiro surto. Não sei se irão gostar de serem filmados. Pensei em ir sem dinheiro algum, para tornar a experiência mais verdadeira ainda. Mas, pensando bem, não seria uma boa ideia, pois com certeza os outros moradores de rua iriam achar estranho um morador de rua com uma câmera fotográfica. 
    Também não sei como será a reação dos catadores de material de lixo reciclável. Eles não gostam de moradores de rua que não trabalham. Enfim, não sei o que espera por mim. Pretendo esperar o inverno passar para voltar de novo essa aventura, só que agora, de uma forma consciente. 

12 comentários:

  1. Julio, eu tinha esse problema que você tem de não conseguir dormir por causa do barulho, que no meu caso era da rua. Então comecei a usar uma espuma de colocar no ouvido. Voce compra em farmácia e é só apertá-la e colocar no ouvido e são bem baratas. Ela vai se expandir e impedir parte do som de chegar até você. Isso melhorou minha qualidade de sono e resolveu bem o meu problema de noites mal dormidas. Espero que tenha te ajudado. Silvana

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    1. Obrigado por visitar o blog e ainda mais pela dica. Vou tentar achar esse produto na farmácia na segunda feira. Não quero aumentar a dose dos medicamentos por causa de outras pessoas. Se o problema estivesse mais em mim do que no ambiente, provavelmente iria considerar a hipótese de procurar algum medicamento mais forte para dormir. Mas, quando o ambiente está tranquilo, consigo ás vezes, ter um bom sono. Então, a solução não é o medicamento e sim tentar melhorar os fatores externos.
      Bom resto de domingo pra vc e um ótimo início de semana.

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    2. Só eu vc falar isto já fiquei com medo, se vc fosse meu filho eu não iria te deixar ir para as ruas, para mim o perigo pior são os drogados que aumentão a cada dia e eles roubam para conseguir drogas e na hora que precisam da droga não tem consideração por ninguem, não tem como vc mudar sua cama de lugar para melhorar tomar o medicamento mais cedo para no horario de dormir já está fazendo efeito? boa sorte, não fique muito tempo no pc perto da hora de dormir e procure antes de dormir tomar um leite morno e ler um livro que não seja digital rss de papel mesmo. bom sono e bons sonhos amigo. iaraana62@hotmail.com

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    3. Eu não entendi a dica de mudar a cama de lugar. Não sei como a posição da cama tem a haver com uma boa noite de sono, o problema é a falta de consideração e educação de pessoas que trocam a noite pelo dia e acham que temos que fazer o mesmo. Até que estava tendo um sono mais ou menos regular, antes de alguns vizinhos mudarem para onde moro. Mas, mesmo assim obrigado pelas dicas, o leite morno eu sempre tomo aqui antes de dormir e dá uma pequena melhora mesmo.

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  2. Curioso que estou com a mesma ideia que você. Acabou que sedi aos remêdios e o resultado tem sido muito bom, depois desse tempo todo dentro de casa com fobia social e pãnico, a única coisa que consigo pensar é em ir morar na rua por uns tempos. Não tenho amizade com ninguem e também não preciso sair pra trabalhar, pois posso sobreviver com a renda que tenho de um site.

    Outra ideia que pensei pra sair do tédio, foi virar mochileiro e sair viajando o brasil todo e registrar tudo num blog.

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    1. Fico feliz por ter se dado bom com a medicação. Qual você está usando?
      Com relação a sair viajando por ai, acho uma aventura fascinante, acho que isso está dentro de algumas pessoas, a necessidade de mudar de ambiente com frequência, acho que foi por isso que quase nunca passei de um ano em um trabalho. Mas, também devemos levar em conta os perigos, mas, acho que no final das contas, vale a pena. Se, eu pudesse receber meu pagamento em qualquer local do Brasil, acho que pensaria em ser um viajante fixo. rsrsrsrs Acho que vou procurar saber se isso é possível, mas acho que o INSS exige uma moradia fixa. E como moro sozinho não tem como deixar endereço de algum parente. Acho que vc deve pensar em fazer isso Gil, tomando os devidos cuidados, pode ser uma experiência muito enriquecedora. Bom domingão pra vc por ai.

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  3. Já pensou em fazer algum esporte, como natação, por exemplo? Ou até mesmo aula de pintura ou algum instrumento musical :D
    Quanto a voltar para as ruas não aconselho. É perigoso e te expõe a riscos desnecessários

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    1. Pensar até que eu penso em fazer um monte de coisas, mas o difícil é encontrar ânimo, estou até vendendo o meu violão. Estou pensando em voltar para as ruas durante uns vinte dias para registrar algumas imagens e fotos e também para postar no blog o dia a dia de um morador de rua, se bem que é um pouco difícil de me enturmar com todos os moradores de rua, pois não pareço um morador de rua e com certeza alguns não irão aprovar a minha ideia. Mas é um risco que eu quero correr, qualquer coisa é melhor do que esse tédio que tomou conta de minha vida.

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  4. Oi Júlio, sou sua amiga no facebook. Força amigo! A vida pra qualquer um é difícil mesmo. Enfrentamos frustrações, tristezas diversas, desânimo, mas lute contra isso que às vezes nos puxa pra baixo. Quando se sentir assim, faça coisas que goste, ouça uma música, dê um passeio, saia pra umas comprinhas (pelo menos eu que sou mulher amo! rs)e por aí vai...também estou com o amigo aí, acho que ficar nas ruas, vão te trazer ruins lembranças e vão te fazer ficar mais pra baixo ainda, querido...considere isso.
    Busque a Deus, que Ele nunca abandona aqueles que o buscam de coração.
    Um abraço carinhoso

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  5. Olá Julio, estou acompanhando as suas postagens e quero lhe parabenizar pela iniciativa de escrever esse blog.Tenho 24 anos, e há dois anos fui diagnosticada com transtorno bipolar, mas acredito que eu esteja desenvolvendo uma esquizofrenia paranoide, pois me afastei dos familiares e amigos, não consigo trabalhar e não tenho nenhuma interação social. Esses acontecimentos me perturbam demais, pois há 5 anos tinha uma vida ativa, estudava, trabalhava e namorava. Atualmente não consigo nem sair de casa para nada. No meu caso não ouço vozes, apenas tenho pensamentos aleatórios e confusos acerca da realidade, medo intenso, paranoia e perseguição. Fico em dúvida se tenho mesmo esquizofrenia, pois tenho paranoia, mas não ouça vozes e nem tenho visões.

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  6. Eu tomei medicamentos ( Litio, Fluxetina), porém eles apenas controlaram a raiva e um pouco da depressão. Interrompi o tratamento, pois estava fazendo mal ao meu estomago e também engordei devido ao tratamento. Fiz terapia, mas também interrompi. Acho que vou voltar a fazer por um tempo para ver se tem resultado.

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    1. Acho que você deve tentar alternativas naturais ,como exercícios físicos, ômega 3, alimentação rica em vitamina B, etc. No próximo post irei falar sobre os alimentos bons para a mente e as alternativas que tento, pois os medicamentos se por um lado controlam alguns sintomas, de um outro lado nos dão vários efeitos colaterais que me chego a perguntar se não são piores do que a própria patologia. Mas cada caso é um caso, tem gente que se dá bem com os medicamentos...

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